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	<title>O Brasil de Aloysio Biondi</title>
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		<title>Dois irm&#227;os - Parte 1Entrevisa com Washington Novaes</title>
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		<dc:creator>Aloisio Milani</dc:creator>



		<description>Entrevista realizada em 2004 por Alo&#237;sio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni O que se segue &#233; uma hist&#243;ria da rela&#231;&#227;o de Aloysio Biondi e Washington Novaes, na voz do segundo. A hist&#243;ria de dois homens que se conheceram meninos, na reda&#231;&#227;o da Folha da Manh&#227;, nos promissores anos 50. Por d&#233;cadas, foram insepar&#225;veis companheiros de jornalismo e de vida &#8211; porque sabiam que uma verdadeira colabora&#231;&#227;o jornal&#237;stica s&#243; &#233; poss&#237;vel quando h&#225; entre os pares algo al&#233;m de mero coleguismo profissional. Esse (...)

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&lt;a href="https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?rubrique6" rel="directory"&gt;Entrevistas&lt;/a&gt;


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 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Entrevista realizada em 2004 por Alo&#237;sio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni&lt;/i&gt; &lt;br&gt;
&lt;br&gt;
O que se segue &#233; uma hist&#243;ria da rela&#231;&#227;o de Aloysio Biondi e Washington Novaes, na voz do segundo. A hist&#243;ria de dois homens que se conheceram meninos, na reda&#231;&#227;o da Folha da Manh&#227;, nos promissores anos 50.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por d&#233;cadas, foram insepar&#225;veis companheiros de jornalismo e de vida &#8211; porque sabiam que uma verdadeira colabora&#231;&#227;o jornal&#237;stica s&#243; &#233; poss&#237;vel quando h&#225; entre os pares algo al&#233;m de mero coleguismo profissional.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esse estreito e cotidiano conv&#237;vio laboral se encerrou mais ou menos na mesma &#233;poca em que o Brasil come&#231;ou a recuperar sua democracia, l&#225; por meados dos anos 80 (a &#250;ltima vez que estiveram juntos em uma reda&#231;&#227;o foi no Di&#225;rio da Manh&#227;, em Goi&#226;nia).&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O companheirismo e a amizade, no entanto, persistiram at&#233; a morte prematura de Aloysio, no fim dos anos 90.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Extra&#237;da na varanda buc&#243;lica da casa de Novaes na capital de Goi&#225;s no dia 21 de janeiro de 2004, a conversa na seq&#252;&#234;ncia transcrita apresenta a trajet&#243;ria de Aloysio: as vit&#243;rias, as derrotas, a generosidade, os acertos, os erros, a rebeldia, a inconseq&#252;&#234;ncia, a corre&#231;&#227;o, a dec&#234;ncia, a erup&#231;&#227;o...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi a forma que encontramos de come&#231;ar a dividir com voc&#234;s a vida e a obra do mestre Aloysio Biondi, jornalista que pensou um Brasil diferente e lutou por ele. O mergulho persiste nas demais p&#225;ginas deste s&#237;tio de esperan&#231;a. O texto est&#225; dividido em quatro partes:
I &#8211; Primeiros Anos&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article913&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;II &#8211; A Ditadura&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article912&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;III &#8211; A Democracia&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article911&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;IV &#8211; &#218;ltimos Anos&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;hr class=&quot;spip&quot; /&gt;
&lt;p&gt;I &#8211; Primeiros Anos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Final da d&#233;cada de 50. Aloysio chega a S&#227;o Paulo, vindo do interior, da fam&#237;lia italiana. Caconde, depois S&#227;o Jos&#233; do Rio Pardo. A capital. O jovem Biondi se revela um prod&#237;gio, nos dizeres de Novaes. Aos 21 anos, ocupa alto cargo em jornal de renome. &#201; pelas m&#227;os de Biondi que Novaes se inicia na profiss&#227;o. E nesse encontro de m&#227;os, em aperto sincero, que a amizade de uma vida &#233; selada, como contamos daqui por diante.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vamos come&#231;ar tra&#231;ando uma grande linha do que foi a hist&#243;ria de voc&#234;s dois juntos, os momentos mais importantes, os momentos mais dif&#237;ceis...Acho que o primeiro momento &#233; mesmo a dupla chegando na Folha de S&#227;o Paulo.
Washington Novaes &#8211; Em 1957, eu estava no &#250;ltimo ano da Faculdade de Direito e era banc&#225;rio, trabalhava como banc&#225;rio para me sustentar, no Banco Noroeste. A&#237;, sa&#237; do Banco Noroeste e precisava de um outro trabalho para continuar ganhando a vida e um companheiro de pens&#227;o me falou que estava havendo um teste para o &#218;ltima Hora, para revisor da &#218;ltima Hora. Naquele tempo os jornais ainda tinham revisor, hoje n&#227;o t&#234;m mais. O revisor &#233; que recebia os textos que iam da reda&#231;&#227;o para a oficina e na oficina eles eram compostos em chumbo, no linotipo, e ent&#227;o se fazia uma prova disso a&#237; e o revisor ia ver se tinham feito direito, de acordo com o original que tinha vindo da reda&#231;&#227;o. Fizemos o primeiro teste para a &#218;ltima Hora, mas a &#218;ltima Hora pagava muito pouco. Depois ele me falou que a Folha ia abrir tamb&#233;m. Ent&#227;o fomos fazer teste na Folha. E, por estranho que pare&#231;a, quem aplicava este teste na Folha era o Aloysio. Ele era nessa &#233;poca subchefe do departamento de sucursais, correspondentes e representantes do jornal. Ent&#227;o ele tratava com notici&#225;rio do interior de S&#227;o Paulo, dos estados e das sucursais que o jornal tinha, que naquela &#233;poca acho que era s&#243; o Rio. Ent&#227;o eu fiz o teste.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Conheci o Aloysio no dia do teste. Ele que aplicou, entregou as provas e tal, e uns dois ou tr&#234;s dias depois eu telefonei e soube que tinha sido aprovado. Ele me convocou ent&#227;o para ir l&#225; no jornal. Eu fui e comecei a trabalhar como revisor da Folha da Tarde. Naquela &#233;poca a Folha eram tr&#234;s jornais: a Folha da Manh&#227;, a Folha da Tarde e a Folha da Noite, que foram unificados s&#243; em 1963, por a&#237;. A&#237;, comecei a trabalhar como revisor da Folha da Tarde. Eu entrava &#224;s nove da noite e sa&#237;a &#224;s tr&#234;s da manh&#227;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando tinha o qu&#234;, um m&#234;s e meio, dois meses que eu estava trabalhando l&#225;, o Aloysio me chamou um dia e me perguntou se eu n&#227;o gostaria de fazer um teste na reda&#231;&#227;o para trabalhar como redator. Ele tinha gostado do meu teste, e o chefe da revis&#227;o tamb&#233;m tinha dado um bom depoimento, ent&#227;o eu fui fazer um teste para trabalhar com ele &#224; tarde, como redator. Na &#233;poca se chamava copydesk. Ent&#227;o eu passei a acumular, a trabalhar &#224; tarde como redator e depois &#224; noite trabalhava como revisor. E a&#237; nessa &#233;poca eu s&#243; dormia no fim de semana porque eu sa&#237;a do jornal &#224;s tr&#234;s, tinha que ir para a pens&#227;o, n&#227;o tinha mais &#244;nibus nessa hora, ia a p&#233;...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Onde ficava a pens&#227;o?
Washington &#8211; A pens&#227;o ficava ali na Bela Vista, ali em uma travessa da Frei Caneca. Ent&#227;o eu ia a p&#233; da Folha at&#233; l&#225;, chegava umas quatro da manh&#227; e antes das sete j&#225; tinha que levantar porque &#224;s oito tinha que estar na Faculdade de Direito, eu estava no &#250;ltimo ano da Faculdade de Direito. A&#237; fiquei uns dois anos e uns dois meses nessa, acumulando, a&#237; o Aloysio aprovou e ent&#227;o eu deixei a revis&#227;o e fiquei trabalhando s&#243; com ele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Aloysio era muito novo, ele era mais novo que eu, o Aloysio acho que era quase dois anos mais novo que eu. Nessa &#233;poca eu tinha 23 ent&#227;o ele devia ter 21 anos mais ou menos. Mas ele j&#225; era uma pessoa muito madura profissionalmente. Ele como subchefe desse departamento produzia todo esse notici&#225;rio de sucursal, do Rio, dos correspondentes no interior, e foi nisso que eu comecei a trabalhar, com o notici&#225;rio dos correspondentes do interior.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E era um tempo em que voc&#234; n&#227;o tinha nada, ainda n&#227;o tinha telex, n&#227;o tinha computador, n&#227;o tinha nenhuma dessas coisas, ent&#227;o o correspondente mandava a not&#237;cia por carta, ele colocava a carta no correio e a carta chegava l&#225; e com base nessas cartas a gente preparava o notici&#225;rio, fazia o notici&#225;rio do interior. E o Aloysio era rigoros&#237;ssimo, exigent&#237;ssimo, tinha que a partir daquelas cartas produzir not&#237;cias primorosas, interessant&#237;ssimas, muito bem escritas... era proibido ter ger&#250;ndios no texto...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o o cara botava l&#225; &quot;pavimentou a rua 15 de novembro aqui em Piracicaba&quot; e a partir disso voc&#234; tinha que produzir uma not&#237;cia. E ele produzia tamb&#233;m os editoriais, que eu acho que era uma ou duas vezes por semana, tinha um editorial que era referente a coisas do interior do estado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E esse trabalho n&#227;o era relacionado &#224; Folha da Tarde, esse trabalho era para os tr&#234;s?
Washington &#8211; Era para os tr&#234;s, mas era principalmente para a Folha da Manh&#227;. A&#237; ele produzia editoriais sobre temas do interesse do interior. Ele j&#225; era assim muito respeitado na reda&#231;&#227;o, era considerado mesmo um prod&#237;gio nessa &#233;poca, principalmente pelo M&#225;rio Mazzei Guimar&#227;es, que foi editor de economia e depois editor-chefe da Folha. O Mazzei est&#225; vivo e inclusive voc&#234;s deviam procur&#225;-lo, que o Mazzei conhece o tempo do Aloysio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Bom, ent&#227;o eu fiquei ali trabalhando e aprendendo com o Aloysio essa coisa durante algum tempo e a&#237; houve uma separa&#231;&#227;o, porque o M&#225;rio Lobo, que era tio do Aloysio, assumiu a secretaria da Folha da Manh&#227;, a secretaria da reda&#231;&#227;o, e me chamou para trabalhar com ele como redator da secretaria da reda&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas n&#243;s continuamos muito amigos, e nos encontramos muito, quase todo dia. A&#237;, em 59, em sa&#237; da Folha, porque houve muitas mudan&#231;as na Folha, e o Hideo Onaga, com quem eu trabalhava j&#225; nessa &#233;poca na chefia da reportagem saiu e eu sa&#237; tamb&#233;m. E fui para o Estad&#227;o. E o Aloysio ainda ficou um tempo na Folha.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era um tempo muito diferente. Os jornais eram muito diferentes. Era outra vis&#227;o do jornal, outra vis&#227;o do mundo. Mas o Aloysio j&#225; tinha essas marcas de ser uma pessoa muito respons&#225;vel, muito voltada para o interesse p&#250;blico.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, depois de algum tempo que eu j&#225; tinha sa&#237;do da Folha, ele saiu tamb&#233;m, e foi dirigir uma revista chamada Dire&#231;&#227;o, que era do grupo que produzia tamb&#233;m uma outra revista chamada Dirigente Industrial.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No per&#237;odo ainda da Folha, em que voc&#234;s estiveram juntos, n&#227;o necessariamente na reda&#231;&#227;o, quem voc&#234; acha que s&#227;o as outras pessoas importantes? O Hideo Onaga...
Washington &#8211; o Hideo Onaga* era o chefe do departamento de reportagem da Folha. O M&#225;rio Lobo era o secret&#225;rio da Folha, tio do Aloysio, que morreu muito cedo, ele morreu em 1959, com 37 anos de idade, e era uma figura not&#225;vel. O chefe do Aloysio, o chefe do departamento de sucursais da Folha era o Fran&#231;a, mas Fran&#231;a era o apelido dele, o nome dele mesmo acho que era Francisco Dec&#233;lio C&#233;sar. O editor de esportes era o Aroldo Chiorino. De gente que ainda est&#225; viva e que conheceu o Aloysio nessa &#233;poca tem o Z&#233; Hamilton Ribeiro, que &#233; o editor do Globo Rural, o Aud&#225;lio Dantas...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;* Hideo Onaga faleceu em 2007&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Aud&#225;lio era dessa mesma equipe?
Washington &#8211; Ele era dessa mesma equipe.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ele era redator tamb&#233;m?
Washington &#8211; Ele era rep&#243;rter. O Aud&#225;lio Dantas, que depois foi deputado, foi uma por&#231;&#227;o de coisas, que est&#225; vivo ainda. Quem mais... O Pimenta (Pimenta Neves, ex-diretor do Jornal O Estado de S. Paulo preso por assassinar sua namorada), o Pimenta &#233; dessa &#233;poca tamb&#233;m. Deixa eu ver quem mais que eu me lembro desse tempo a&#237;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas quem que eram os mais pr&#243;ximos assim, voc&#234;s chegavam a ter uma turma ou n&#227;o?
Washington &#8211; N&#227;o, teve muita gente que passou pela m&#227;o do Aloysio e que ele ajudou a formar. Uma delas &#233; o Raul Martins Barros, que chegou a editor do Jornal da Globo em S&#227;o Paulo. O Raul era uma esp&#233;cie de menino prod&#237;gio, que se candidatou em um concurso que a Folha fez sem dizer que era menino. A&#237;, no dia do concurso apareceu aquele menino l&#225;, que tinha uns doze, treze anos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, deram um trabalho para ele meio como boy, como cont&#237;nuo, ele trabalhava l&#225; com o Aloysio. Depois, ele saiu da Folha, foi pro Estado, onde eu o reencontrei, nessa &#233;poca numa fun&#231;&#227;o que hoje n&#227;o existe &#233; claro. Naquela &#233;poca o notici&#225;rio da sucursal do Rio de Janeiro era passado para S&#227;o Paulo por telefone. Tinha um cara que ficava lendo l&#225; no telefone, numa ponta, e na outra um que ficava datilografando. E nessa &#233;poca ent&#227;o o Raul era datil&#243;grafo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Woile Guimar&#227;es, que depois se tornou um jornalista destacado, trabalhou em muitos lugares, foi editor regional da Globo em S&#227;o Paulo, tamb&#233;m teve um cargo importante no Jornal Nacional e hoje &#233; dono de uma produtora que se chama GW.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quem era muito amigo nosso nesse tempo tamb&#233;m era o Aldo Pereira, que depois acho que deixou de ser jornalista, acho que ele mora em S&#227;o Jos&#233; dos Campos, alguma coisa. No vel&#243;rio do Aloysio a filha dele veio falar comigo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nessa &#233;poca o Aloysio morava numa rep&#250;blica num edif&#237;cio ali da Avenida S&#227;o Jo&#227;o e os grandes amigos dele, o conv&#237;vio maior dele, era o pessoal de S&#227;o Jos&#233; do Rio Pardo, que tinham sido amigos de inf&#226;ncia e adolesc&#234;ncia dele e moravam ali juntos.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>Dois irm&#227;os - Parte 2Entrevisa com Washington Novaes</title>
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		<description>Entrevista realizada em 2004 por Aloisio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni. O texto est&#225; dividido em quatro partes: I &#8211; Primeiros Anos II &#8211; A Ditadura III &#8211; A Democracia IV &#8211; &#218;ltimos Anos II &#8211; A Ditadura Foram 21 anos de luta contra o arb&#237;trio, por meio do jornalismo. Anos intensos. Biondi e Novaes caminham juntos por diferentes reda&#231;&#245;es. &#201; o per&#237;odo no qual os jornalistas fundam os alicerces de um pensamento radicalmente humanista e nacionalista. S&#227;o pioneiros na defesa do (...)

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 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Entrevista realizada em 2004 por Aloisio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O texto est&#225; dividido em quatro partes:&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article914&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;I &#8211; Primeiros Anos&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
II &#8211; A Ditadura&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article912&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;III &#8211; A Democracia&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article911&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;IV &#8211; &#218;ltimos Anos&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;hr class=&quot;spip&quot; /&gt;
&lt;p&gt;II &#8211; A Ditadura&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foram 21 anos de luta contra o arb&#237;trio, por meio do jornalismo. Anos intensos. Biondi e Novaes caminham juntos por diferentes reda&#231;&#245;es. &#201; o per&#237;odo no qual os jornalistas fundam os alicerces de um pensamento radicalmente humanista e nacionalista. S&#227;o pioneiros na defesa do desenvolvimento sustent&#225;vel e demonstram que &#233; poss&#237;vel ser coerente diante da inf&#226;mia, fazendo jornalismo, sempre.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234;s sempre pr&#243;ximos?
Washington &#8211; Nessa &#233;poca a gente ficou um pouco menos pr&#243;ximos porque, quando sa&#237; do Estado, fui trabalhar na Vis&#227;o. Trabalhava muito, nessa &#233;poca estava na dire&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s fomos nos reencontrar, na verdade, um pouco mais tarde, que foi quando o Cl&#225;udio Abramo foi para a Folha de S. Paulo, em 64, e a&#237; eu fui ser editor-assistente do Cl&#225;udio. Eu, Pimenta Neves e o Alexandre Gambirasio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, n&#243;s fomos pra l&#225; e pouco tempo depois, quando eu j&#225; ia me mudar pro Rio, o Aloysio foi tamb&#233;m, foi ser assistente do Cl&#225;udio na Folha. Ent&#227;o, nessa &#233;poca, ele conviveu muito tamb&#233;m com o Pimenta e com o Alexandre Gambirasio, que voc&#234;s podem procurar em S&#227;o Paulo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, em 65 eu fui pro Rio. O Aloysio continuou em S&#227;o Paulo e eu falava muito com ele nessa &#233;poca por telefone, que eu era o chefe da sucursal da Folha no Rio e ele era editor-assistente em SP, quem cuidava mais do notici&#225;rio econ&#244;mico era ele. E &#233; at&#233; engra&#231;ado porque nessa &#233;poca o Aloysio tinha uma certa admira&#231;&#227;o pelo Roberto Campos, do qual ele viria a tomar horror um pouco mais &#224; frente. Mas ele achava o Roberto Campos uma boa cabe&#231;a, era a pessoa que falava muito do planejamento, e essa coisa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como foi a rela&#231;&#227;o de voc&#234;s com o golpe militar?
Washington &#8211; Foi em S&#227;o Paulo ainda. Nessa &#233;poca eu n&#227;o tinha nenhuma milit&#226;ncia pol&#237;tica, nem o Aloysio. N&#243;s n&#227;o t&#237;nhamos proximidade com qualquer movimento pol&#237;tico. Acho que a coisa mais perto que a gente tinha estado foi da primeira grande greve dos jornalistas em 1961, que foi uma greve salarial. E foi uma greve curiosa, porque uma grande parte dos jornalistas n&#227;o aderiu &#224; greve, e os que aderimos &#224; greve resolvemos usar uma estrat&#233;gia que foi impedir a sa&#237;da f&#237;sica dos jornais, bloquear. N&#227;o deixar sair o jornal.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os jornais foram feitos, mas n&#243;s fizemos piquete na frente do Estado, na frente da Folha, na frente da &#218;ltima Hora. Isso foi uma coisa um pouco nervosa, amea&#231;a da pol&#237;cia de dar porrada, e tal. Acabaram n&#227;o batendo e com isso os caminh&#245;es de entrega n&#227;o puderam sair. E de manh&#227; n&#243;s fomos ao aeroporto e tamb&#233;m confiscamos os jornais de fora que chegaram. E tamb&#233;m nessa &#233;poca conseguimos que o pessoal de televis&#227;o n&#227;o tivesse not&#237;cia para dar, porque eles se baseavam muito no que estava nos jornais.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o foi uma coisa interessante, porque S&#227;o Paulo ficou tr&#234;s dias sem not&#237;cia, ficou sexta, s&#225;bado e domingo sem not&#237;cia. Nem de jornal, nem de televis&#227;o, nem de r&#225;dio, nem nada. E essa &#233; uma coisa inusitada. Uma cidade que j&#225; tinha 4 milh&#245;es de pessoas, sem nenhuma not&#237;cia at&#233; segunda-feira &#224; tarde, quando foi julgado o diss&#237;dio pelo Tribunal de Trabalho e n&#243;s ganhamos. Ent&#227;o voltamos a trabalhar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas eu fiz piquete na porta da Folha e depois que ganhamos na porta da Folha pediram refor&#231;o nos Associados, que era na Rua 7 de Abril. Fomos para l&#225; tamb&#233;m. Teve um momento que deu a sensa&#231;&#227;o de que a gente ia levar muita porrada. A pol&#237;cia chegou de cassetete j&#225; levantado, e toca cantar o Hino Nacional, aquelas coisas, at&#233; que a pol&#237;cia desistiu de bater e conseguimos manter bloqueados.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aloysio estava nessa tamb&#233;m?
Washington &#8211; Estava. Bom, mas voltando ao Rio. Em 67, fui convidado para dirigir a reda&#231;&#227;o da Vis&#227;o. At&#233; ali eu era secret&#225;rio, acumulava a Folha com a Vis&#227;o e era secret&#225;rio da reda&#231;&#227;o. Ent&#227;o eu convidei o Aloysio para ser editor de economia e ele foi. L&#225; trabalhava o Ziraldo, que era o editor gr&#225;fico, o Zuenir Ventura, o Cl&#225;udio Bueno Rocha, que j&#225; morreu, a Norma Pereira Rego, que j&#225; morreu, o Henrique Coutinho, que j&#225; morreu (ri), a Tet&#234; Morais, diretora de cinema, que fez esse filme Terra para Rose, era de l&#225; tamb&#233;m, a Rosisca Ribeiro, que hoje tem uma atua&#231;&#227;o importante, nessa &#225;rea de mulher, pessoa muito inteligente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Logo no primeiro ano, o Aloysio ganhou um pr&#234;mio Esso, com o trabalho que ele fez sobre a quest&#227;o de reflorestamento no Brasil.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E era editor de economia
Washington - Era editor de economia. Quando houve a mudan&#231;a de governo, em 67, que saiu o Castello Branco, e, com ele, Roberto Campos, Bulh&#245;es e tal, o Delfim assumiu o Minist&#233;rio da Fazenda. Nessa, era assessor do Delfim o Paulo Graciano, filho do pintor, do Cl&#243;vis Graciano, que tinha trabalhado com o Aloysio na revista Dire&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, e eu tamb&#233;m conhecia muito o Gustavo Silveira, que era assessor de imprensa do Delfim. O Delfim at&#233; tinha me convidado pra ser assessor dele por indica&#231;&#227;o do Frias, que era dono da Folha, mas eu n&#227;o fui.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a&#237; o Aloysio come&#231;ou a imprimir na editoria de economia da Vis&#227;o uma vis&#227;o bastante cr&#237;tica da pol&#237;tica econ&#244;mica do governo, principalmente uma abertura indiscriminada das importa&#231;&#245;es que o Delfim estava promovendo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como era isso?
Washington - Toda semana tinha algum artigo criticando a pol&#237;tica do Delfim e isso foi culminar, no come&#231;o de 68, quando o Aloysio escreveu um artigo muito forte na Vis&#227;o, que tinha v&#225;rias p&#225;ginas e o t&#237;tulo, eu me lembro at&#233; hoje, era &#8220;Esse rombo de 800 milh&#245;es de d&#243;lares&#8221;. O artigo dizia que tinha havido um rombo na balan&#231;a comercial em 68 de 800 milh&#245;es de d&#243;lares, que naquela &#233;poca era muito dinheiro, e que isso se devia a essa pol&#237;tica indiscriminada de abertura para importa&#231;&#245;es, principalmente de importa&#231;&#245;es de produtos sup&#233;rfluos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Brasil estava importando tudo quanto era bugiganga, tudo quanto era porcaria, ra&#231;&#227;o para cachorro, ra&#231;&#227;o para gato, colar de n&#227;o sei o que, pena de avestruz, e coisas assim. E a&#237; um dia o Delfim nos chamou para ir conversar com ele. Fomos l&#225; o Aloysio e eu, e estava o ministro e o Gustavo Silveira, assessor de imprensa dele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E come&#231;ou uma discuss&#227;o onde o Delfim dizia que o artigo do Aloysio estava errado e que a nossa posi&#231;&#227;o estava errada. Que n&#243;s n&#227;o sab&#237;amos fazer conta e havia o que ele dizia &#8220;dupla contagem&#8221;, que a gente estava contando duas vezes a mesma coisa, que aquilo estava errado, e a discuss&#227;o foi azedando, azedando, azedando, azedando, azedando, e ela terminou aos gritos, dos dois lados &#8211; o Delfim de um lado, o Aloysio e eu do outro. Ele chamando a gente de incompetente, a gente chamando ele de incompetente...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Essa foi a primeira vez que ele deu uma resposta assim?
Washington - Foi a primeira.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ele tentou fazer o que deveria ser um padr&#227;o na &#233;poca, n&#233;? Uma esp&#233;cie de coopta&#231;&#227;o, chama para conversar...
Washington &#8211; A Vis&#227;o estava numa posi&#231;&#227;o muito forte. Em 67 t&#237;nhamos feito pela primeira vez uma edi&#231;&#227;o chamada &#8220;Quem &#233; Quem na Economia&#8221;, que era um balan&#231;o da economia brasileira, setor por setor, isso eu tenho a&#237; um exemplar e posso te mostrar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, o &#8220;Quem &#233; Quem na Economia&#8221; foi uma edi&#231;&#227;o enorme, centenas de p&#225;ginas, e o Aloysio que coordenou esse trabalho todo, e foi uma coisa de uma enorme repercuss&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Paulo Graciano trabalhou nisso. Teve um outro assessor do Delfim, Eduardo Pereira de Carvalho &#8211; que hoje &#233; o presidente da Uni&#227;o da Agroind&#250;stria Canavieira de S&#227;o Paulo (Unica) &#8211; que trabalhou. A gente tinha at&#233; uma boa rela&#231;&#227;o l&#225;, mas essa coisa azedou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Azedou de vez, e a&#237; o Aloysio foi aumentando o tom na coisa. Ao mesmo tempo aconteceu aquele epis&#243;dio da morte do Edson Lu&#237;s. Isso foi uma coisa que nos marcou muito na &#233;poca. Porque a reda&#231;&#227;o da Vis&#227;o era ali ao lado do restaurante Calabou&#231;o, onde foi a morte dele. Eu vi a morte dele da janela.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s est&#225;vamos na janela olhando, tinha uma pequena manifesta&#231;&#227;o de estudantes &#8211; mas isso tinha todo dia &#8211;, de repente, pela Marechal C&#226;mara, chegou a pol&#237;cia, tomou posi&#231;&#227;o, e o pessoal aqui foi enraivecendo, e gritando cada vez mais, e de repente abriram fogo ali do lado de l&#225; e n&#243;s vimos o menino, o Edson, cair ali.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237; descemos correndo, eu me lembro que desci pela escada, at&#233; junto com o Zuenir e o Ziraldo. E n&#243;s quando chegamos l&#225; embaixo, no Calabou&#231;o, os estudantes j&#225; vinham saindo carregando o cad&#225;ver do Edson. Estava morto. Os estudantes j&#225; estavam carregando o corpo dele e levando para a Assembl&#233;ia Legislativa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Rio, nessa &#233;poca, era diferente de S&#227;o Paulo, porque tinha uma resist&#234;ncia mais organizada &#224; Ditadura. Primeiro porque o Partido Comunista era muito mais organizado no Rio nessa &#233;poca, muito mais forte do que em S&#227;o Paulo. E no movimento estudantil tinha j&#225; v&#225;rias tend&#234;ncias. Al&#233;m do Partid&#227;o, tinha a dissid&#234;ncia do Partid&#227;o, que era o Vladimir Palmeira, o Marcos Medeiros, esse pessoal todo da lideran&#231;a estudantil.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tinha j&#225; tamb&#233;m alguma coisa de PC do B no movimento estudantil e tinha o pessoal que vinha da AP, que era aliado &#224; Igreja, principalmente na PUC. Ent&#227;o j&#225; existia esse movimento muito forte dos estudantes, j&#225; tinha havido em 1966 uma passeata forte, no centro do Rio de Janeiro, dos estudantes, que tinha sido reprimida at&#233; com viol&#234;ncia pela pol&#237;cia. Mas naquele momento ali houve uma exalta&#231;&#227;o muito grande.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o pessoal pegou o corpo do Edson Luiz e levou para a Assembl&#233;ia Legislativa, l&#225; na Cinel&#226;ndia, para fazer o vel&#243;rio dele e organizar o sepultamento.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E voc&#234;s?
Washington - E n&#243;s fomos para l&#225;. Eu, o Aloysio, o Zuenir, o Ziraldo. Fomos todos para l&#225;, passamos a noite l&#225;. E n&#243;s fomos todos muito atingidos. Foi uma coisa literalmente de corpo presente, da morte, vendo aquela coisa toda ali. E no dia seguinte teve o enterro dele, houve antes um com&#237;cio na frente da Assembl&#233;ia Legislativa. N&#243;s est&#225;vamos l&#225;, e depois sa&#237;mos dali a p&#233; para o Cemit&#233;rio S&#227;o Jo&#227;o Batista, em Botafogo, carregando o corpo dele. J&#225; com os estudantes gritando palavras de ordem.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ali eu ouvi pela primeira vez palavras de ordem do pessoal que j&#225; tinha uma op&#231;&#227;o pela luta armada. &#8220;S&#243; a luta armada derruba a Ditadura/S&#243; a luta armada derruba a Ditadura&#8221;. Outros gritavam: &#8220;Morreu um estudante, podia ser um filho seu&#8221;. Tinha muita gente nas janelas, nas sacadas.. E aquilo foi uma coisa muito forte para n&#243;s todos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na edi&#231;&#227;o seguinte da Vis&#227;o, eu escrevi uma mat&#233;ria que o t&#237;tulo era &#8220;O assassinato como ele foi&#8221;. O pessoal come&#231;ava a dizer que n&#227;o tinha sido bem assim, que os pr&#243;prios estudantes tinham matado o Edson Luiz para criar uma v&#237;tima, e essa coisa. Ent&#227;o eu escrevi aquela mat&#233;ria. Tamb&#233;m fui a um programa de televis&#227;o em que estava o Gama e Silva (Lu&#237;s Ant&#244;nio da Gama e Silva, o redator do Ato Institucional n&#186; 5), que era Ministro da Justi&#231;a.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso me custaria caro, porque o Gama e Silva come&#231;ou a dizer essas coisa no programa, e falar que a missa de s&#233;timo dia do Edson Luiz tinha sido uma coisa organizada, e os padres fazendo passeata.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E eu falei: &#8220;Se o senhor chama corredor polon&#234;s de passeata...&#8221;, porque os padres ficaram num corredor polon&#234;s e apanharam para proteger os estudantes. E a&#237; ele come&#231;ou a querer negar e eu comecei a dizer isso, que eu tinha visto a morte do Edson Luiz, ent&#227;o fui convocado a depor por um promotor que estava fazendo um inqu&#233;rito, e tamb&#233;m no inqu&#233;rito da PM.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a PM queria que eu mudasse aquilo, n&#227;o queria que eu dissesse aquilo, que tinha visto ele ser morto por um PM.. Isso foi uma coisa que durou anos e me custou muito caro.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na passeata, voc&#234;s estavam como jornalistas, como jovens como brasileiros...
Washington &#8211; Como tudo. Todas as coisas. Como brasileiros, como jovens, como jornalistas, como indignados.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os manifestantes juntos?
Washington &#8211; &#201;. Essa hist&#243;ria foi resultar em algumas coisas, inclusive foi a&#237; que foram nascer as grandes passeatas no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil, e isso se propagou para S&#227;o Paulo, come&#231;ou a haver coisas em S&#227;o Paulo tamb&#233;m. Houve aquele epis&#243;dio da invas&#227;o da Maria Ant&#244;nia (rua de S&#227;o Paulo onde estudantes da Universidade Mackenzie e da USP entraram em conflito), da invas&#227;o do Mackenzie, do CCC (Comando de Ca&#231;a aos Comunistas) e todas essas coisas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas ali no Rio, o que acabou acontecendo foi que a Vis&#227;o mudou de dono nesse meio tempo e assumiu a dire&#231;&#227;o, como dono da revista, o Sa&#237;d Farah, que dez anos depois viria a ser secret&#225;rio de Comunica&#231;&#227;o Social do Figueiredo, do &#250;ltimo presidente militar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso foi a&#231;&#227;o da Ditadura, por causa da equipe combativa?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Washington &#8211; Possivelmente. N&#227;o sei, n&#227;o posso afirmar. Mas o fato &#233; que a revista tinha uma posi&#231;&#227;o muito independente, inclusive, lembrando agora, n&#243;s t&#237;nhamos publicado na revista o primeiro documento da constitui&#231;&#227;o da Frente Ampla, que juntava Lacerda, Juscelino e Jango. Foi um texto do Lacerda, dizendo que criava uma frente ampla, que exigia a redemocratiza&#231;&#227;o do pa&#237;s, e essa coisa foi um au&#234;.
Voc&#234; imagina juntar esses tr&#234;s... Tem a&#237; o livro do Cony agora que revive a tese de que os tr&#234;s foram assassinados. Tamb&#233;m publicamos alguns textos muito fortes, eu me lembro que teve um texto do Glauber Rocha sobre o Cinema Novo e a pol&#237;tica no Brasil, teve um outro texto muito bonito do Ant&#244;nio Callado, do escritor, sobre as rela&#231;&#245;es da literatura com a pol&#237;tica. A revista era muito influente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De repente, chega o Sa&#237;d Farah. Ele ficava em S&#227;o Paulo e um dia me pediu para ir l&#225;. Come&#231;ou a dizer que a revista n&#227;o podia continuar daquele jeito, que a revista estava engajada e perdendo a caracter&#237;stica dela de uma revista dos homens de neg&#243;cio, e assim por diante, que era preciso ter uma coisa mais equilibrada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o conversei. Disse: &#8220;Tudo bem, vamos tentar equilibrar essa coisa&#8221;. E voltei para o Rio. A&#237;, no dia seguinte, recebi um memorando dele dizendo que a partir daquela data a orienta&#231;&#227;o da reda&#231;&#227;o seria dada por um conselho editorial do qual fariam parte ele, o Luiz Alberto Bahia, que era o colunista pol&#237;tico, o Ot&#225;vio Gouveia de Bulh&#245;es, que tinha sido ministro da Fazenda da Ditadura, e o Jorge Le&#227;o Teixeira, que j&#225; tinha sido diretor da revista e eu. Ent&#227;o, na melhor das hip&#243;teses, eu ia perder de 4 a 1, alguma coisa assim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu disse a ele que n&#227;o aceitava aquela decis&#227;o. Ele disse: &#8220;se voc&#234; n&#227;o aceita, pede demiss&#227;o&#8221;. Eu disse: &#8220;n&#227;o, eu pe&#231;o demiss&#227;o da dire&#231;&#227;o&#8221;. Volto a ser redator, que o meu contrato &#233; para ser redator. E ele, ent&#227;o, para criar caso mesmo, disse: &#8220;ent&#227;o voc&#234; est&#225; transferido para S&#227;o Paulo&#8221;. E eu fui para S&#227;o Paulo, tinha um contrato de trabalho de sete horas por dia e ficava de uma &#224;s oito sozinho numa sala, ningu&#233;m me dava nada para fazer. Ficava sete horas por dia ali, &#224; toa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ele come&#231;ou a demitir o pessoal do Rio. Demitiu o Aloysio, demitiu a Tet&#234;, e foi ser diretor da reda&#231;&#227;o de novo o Hernane Tavares de S&#225;, que j&#225; tinha sido o primeiro diretor.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como voc&#234;s ficaram, depois disso?
Washington &#8211; O nosso engajamento pol&#237;tico foi crescendo. O Aloysio foi convidado para fazer uma revista econ&#244;mica para um grupo de seguros. E ele foi fazer essa revista, era o diretor. S&#243; que ele imediatamente mudou a natureza da revista. Em vez de uma revista de seguros, foi fazer uma revista econ&#244;mica mesmo e muito contundente. Me chamou para ser chefe da reda&#231;&#227;o e eu fui acumulando com o Correio da Manh&#227;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu tinha ido para o Correio da Manh&#227; como chefe da produ&#231;&#227;o editorial. Em 68. A revista chamava Fator. A&#237; eu ia de manh&#227; na Fator e &#224; tarde e &#224; noite no Correio. Mas eu fiquei muito pouco tempo no Correio, porque eu queria fazer uma coisa muito engajada mesmo, muito forte, dessas coisas que estavam acontecendo, das passeatas, e havia resist&#234;ncia da secretaria do jornal.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tinha um grupo que nessa &#233;poca era muito desbundado, j&#225; meio hippie, meio descrente, ent&#227;o eles achavam que isso era bobagem. Levavam tudo na sacanagem, na goza&#231;&#227;o. Isso foi criando uma situa&#231;&#227;o e eu sa&#237; do Correio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a Fator?
Washington - N&#243;s produzimos um n&#250;mero 0. Ficou t&#227;o forte que acabamos botando ele na banca. Era uma edi&#231;&#227;o com o seguinte t&#237;tulo: &#8220;A suave invas&#227;o&#8221;, uma imagem do Delfim abrindo a economia indiscriminadamente. A capa era o Joel Barcellos, aquele ator, com a boca entupida de d&#243;lar. Era uma capa muito forte.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para fazer essa capa, n&#243;s fizemos um trabalho de doido. N&#243;s conseguimos os mapas de importa&#231;&#227;o da Cacex, que era a carteira de com&#233;rcio exterior. Mas isso vinha importa&#231;&#227;o por importa&#231;&#227;o. Ent&#227;o, centenas, sei l&#225;, milhares de noites assim: &#8220;Pena de avestruz&#8221; &#8211; a&#237; abria uma ficha. &#8220;Pena de avestruz, tantos d&#243;lares&#8221;. &#8220;Ra&#231;&#227;o para cachorro&#8221; &#8211; &#8220;Ra&#231;&#227;o para cachorro, tantos d&#243;lares&#8221;. &#8220;P&#233;rolas cultivadas, n&#227;o sei quantos d&#243;lares&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pegamos as importa&#231;&#245;es de um ano inteiro, uma por uma. Fic&#225;vamos noites e noites e noites e noites fazendo isso para depois somar e a&#237; tinha a mat&#233;ria-prima para um artigo para provar aquilo: que era um rombo desnecess&#225;rio por uma pol&#237;tica incompetente do Delfim. Essa revista causou um impacto enorme, inclusive porque para muita gente foi a primeira vez que se viu usar gr&#225;ficos e quadros com grande compet&#234;ncia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aquela coisa do Aloysio, de fazer um quadro, com um t&#237;tulo: &#8220;Veja que n&#227;o sei o que&#8221; e remete para outro quadro, com o uso de n&#250;meros e estat&#237;sticas. J&#225; no segundo n&#250;mero come&#231;ou a encrenca com o dono da revista, que ficou muito assustado com aquele rombo, e esse atrito foi aumentando. Era para ser uma coisa apenas demonstrativa para as ag&#234;ncias de publicidade, mas ficou t&#227;o bom que resolvemos botar na banca.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quem trabalhou nesse projeto?
Washington - Na Fator? &#201;ramos muito poucos, uns tr&#234;s ou quatro. Tinha um rapaz chamado Serginho, que era amigo nosso, que tinha sido estagi&#225;rio na Vis&#227;o e o Aloysio levou para l&#225;. A gente n&#227;o sabia, o Serginho tamb&#233;m j&#225; estava na barra pesada, na luta armada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Serginho do que?
Washington &#8211; Ant&#244;nio S&#233;rgio, mas eu n&#227;o lembro do sobrenome dele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o esse foi praticamente um projeto de voc&#234;s dois?
Washington &#8211; Eram umas tr&#234;s ou quatro pessoas, uma meia-d&#250;zia no m&#225;ximo. E tinha tamb&#233;m alguns colaboradores, alguns free-lancers. Mas a reda&#231;&#227;o mesmo era o Aloysio e eu que faz&#237;amos. A&#237;, acabou a Fator. O Aloysio voltou para S&#227;o Paulo. Se n&#227;o me engano, foi trabalhar na Gazeta Mercantil. Isso em 1968.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antes de ir para a Veja?
Washington &#8211; Foi antes dele ir para a Veja. Eu fiquei no Rio e tinha inventado de fazer uma outra revista com o J&#226;nio de Freitas, o Z&#233; Augusto Ribeiro e o Fl&#225;vio Tavares, que n&#243;s n&#227;o sab&#237;amos que j&#225; estava na luta armada tamb&#233;m.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, estamos ali preparando a revista &#8211; eu tinha proposto o nome Direta, ia ser uma revista eminentemente pol&#237;tica &#8211; quando veio o AI-5 e inviabilizou tudo. Baixaram o pau, prenderam todo mundo. Eu fui preso a primeira vez. Fiquei preso dois dias. Mas eu n&#227;o conseguia arrumar trabalho mais no Rio de Janeiro, estava tudo bloqueado. Cheguei a me candidatar a trabalhar como redator de notici&#225;rio de uma r&#225;dio de Niter&#243;i, de madrugada, e n&#227;o fui aceito.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, estava numa situa&#231;&#227;o complicada quando, acho que foi o Zuenir que fez uma embaixada nessa hist&#243;ria e eu fui convidado a ir trabalhar em S&#227;o Paulo, na Veja, ser editor de Investimentos. Nessa &#233;poca, a Veja tinha sido lan&#231;ada fazia pouco tempo e as p&#225;ginas amarelas eram sobre investimentos. Eu fui l&#225; para fazer essas p&#225;ginas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu continuava morando no Rio mas ia para S&#227;o Paulo na segunda de manh&#227; e voltava na sexta-feira &#224; noite. Assim eu passei alguns meses l&#225;, at&#233; que o Samuel Wainer me convidou para chefiar a reda&#231;&#227;o do &#218;ltima Hora do Rio. E eu ent&#227;o indiquei para o Mino Carta o Aloysio, para ir l&#225; para a Veja. O Aloysio foi para a Veja, para esse lugar que eu estava deixando. A&#237; ficamos um pouco distantes de novo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu fiquei um pouco na &#218;ltima Hora, n&#227;o cheguei a ficar um ano. Em 70, eu fui para o Correio da Manh&#227;, como produtor editorial, chefe da produ&#231;&#227;o. Logo em seguida passei para editor nacional e o Reinaldo Jardim me chamou um dia porque queria fazer um caderno econ&#244;mico di&#225;rio. Isso era uma segunda-feira. Pediu para eu fazer um projeto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu falei: &#8220;bom, eu vou pensar&#8221;. Mas o Reinaldo &#233; assim. Falou: &#8220;Voc&#234; tem at&#233; quarta-feira para me trazer o projeto&#8221;. A&#237;, na quarta-feira eu levei o projeto e ele falou: &#8220;vamos come&#231;ar domingo&#8221;. Eu falei: &#8220;como come&#231;ar domingo? N&#227;o tem ningu&#233;m a&#237; para fazer isso&#8221;. Ele falou: &#8220;pode escolher quem voc&#234; quiser na reda&#231;&#227;o&#8221;. Ent&#227;o eu escolhi algumas pessoas. Algumas delas at&#233; curiosas. Tinha uma mo&#231;a que fazia hor&#243;scopo, a Ana Maria Mandim, mas eu n&#227;o sabia tamb&#233;m, a Ana Maria j&#225; estava na luta armada. Era do PC do B (risos)...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas come&#231;amos a fazer o caderno, e o caderno come&#231;ou a ter um &#234;xito muito grande, e me deu uma certa for&#231;a. Ent&#227;o pedi que contratassem mais algumas pessoas e propus que eu precisava contratar o Aloysio. Eles toparam, e o Aloysio foi para o Diretor Econ&#244;mico, que era o nome do caderno.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na Veja e no Diretor Econ&#244;mico, qual era a proposta de jornalismo?
Washington &#8211; Era o jornalismo da informa&#231;&#227;o econ&#244;mica e, no que era poss&#237;vel, a gente ia botando as orienta&#231;&#245;es da gente. At&#233; o Diretor Econ&#244;mico.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Teve censura pr&#233;via?
Washington &#8211; N&#227;o tinha censura pr&#233;via, mas tinha censura. Voc&#234; recebia comunicados da Pol&#237;cia Federal: n&#227;o pode publicar isso, n&#227;o pode publicar aquilo, n&#227;o pode fazer isso, n&#227;o pode fazer aquilo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234;s chegaram a ter conversas sobre o exerc&#237;cio do jornalismo num contexto como esse?
Washington &#8211; O tempo todo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; que &#233; interessante retomar as id&#233;ias desse per&#237;odo, as coisas que fervilhavam na cabe&#231;a de voc&#234;s.
Washington &#8211; O que fervilhava na cabe&#231;a da gente, principalmente nessa &#225;rea econ&#244;mica, em que, a partir da Vis&#227;o, a gente estava mergulhado em uma posi&#231;&#227;o, digamos, desenvolvimentista, nacionalista, que come&#231;ava, principalmente por influ&#234;ncia do Aloysio, a mexer um pouco nessa promiscuidade entre os donos da atividade econ&#244;mica e os governos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu, por exemplo, tinha, na &#233;poca da Vis&#227;o, antes de assumir a dire&#231;&#227;o.. N&#227;o, j&#225; foi quando o Aloysio estava l&#225;, j&#225; era editor econ&#244;mico da revista. Eu era diretor, consegui acesso a um relat&#243;rio desse cara, de quem hoje tenho horror, que &#233; o Pratini de Morais.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Pratini era assessor do ministro da Ind&#250;stria e Com&#233;rcio, que era o Daniel Farah. E o Pratini tinha feito um relat&#243;rio mostrando o seguinte: que o governo brasileiro tinha encomendado um estudo sobre a siderurgia brasileira para essa consultoria internacional que existe at&#233; hoje, a Booz Allen Hamilton, que &#233; uma das grandes consultorias internacionais. E a Booz Allen fez um relat&#243;rio dizendo que o mercado n&#227;o tinha muita demanda, nem interna nem externa, e com isso recomendando uma expans&#227;o muito suave da siderurgia brasileira.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O relat&#243;rio mostrava que, principalmente na parte de demanda interna, eles tinham se baseado em anos de profunda recess&#227;o no Brasil, anos em que a demanda foi muito fraca. E ent&#227;o recomendavam essa posi&#231;&#227;o cautelosa, t&#237;mida. E o resultado disso &#233; que a siderurgia brasileira quase n&#227;o tinha se expandido e de repente n&#227;o tinha produ&#231;&#227;o suficiente para atender &#224; demanda interna e externa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237; eu consegui uma c&#243;pia disso e produzi uma mat&#233;ria para a Vis&#227;o. E ela n&#227;o foi publicada, porque um cara que era colaborador da revista esteve l&#225;, viu essa mat&#233;ria e avisou o ent&#227;o presidente do BNDES, Jos&#233; Garrido Torres, que por sua vez falou com o Roberto Campos e acionaram a censura e proibiram de publicar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na &#233;poca em que o Aloysio era editor de economia, teve um caso ainda mais gritante, que foi o seguinte: por estranho que pare&#231;a, um dia vai l&#225; na revista um cara que era da Usaid (United Sates Agency for International Depelovment), a entidade que cuidava de coopera&#231;&#227;o internacional dos Estados Unidos. Esse cara, como homem da Usaid, ficava no Minist&#233;rio do Planejamento, onde estava ainda o Roberto Campos. Foi antes da posse do Delfim &#8211; finalzinho do Roberto Campos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nessa &#233;poca, como editor de Economia, o Aloysio j&#225; tinha restri&#231;&#245;es ao Roberto Campos?
Sim. A&#237; esse cara levou l&#225; uma documenta&#231;&#227;o. Na &#233;poca tinha uma grande empresa de siderurgia que tinha grandes neg&#243;cios no Brasil, a Hannah Corporation. Na &#225;rea de minera&#231;&#227;o ela tinha grandes interesses. Era um projeto em que a Hannah, que tinha minas em Minas Gerais, a Minera&#231;&#227;o &#193;guas Claras, propunha ao governo brasileiro que constru&#237;sse um ramal ferrovi&#225;rio ligando a Central do Brasil nas minas dela e um outro ramal ligando a Central do Brasil ao Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, para poder exportar. E queria que o governo fizesse esses dois investimentos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O cara contou isso para voc&#234;s?
Washington &#8211; Levou a documenta&#231;&#227;o para a gente. E em troca a Hannah daria o qu&#234;? N&#227;o daria nada. Ainda pedia uma tarifa subsidiada na Central do Brasil. Para n&#227;o aumentar o seu preju&#237;zo, pedia que o governo aumentasse a tarifa dos outros usu&#225;rios, entre os quais concorrentes dela no Brasil, como Volta Redonda, que na &#233;poca era estatal. Era um esc&#226;ndalo! O governo investia e ainda arruinava a Central do Brasil, dava tarifa...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tudo isso via Usaid?
Washington &#8211; Era um acordo que a Hannah tinha levado para o governo brasileiro, estava l&#225; no Minist&#233;rio do Planejamento e esse cara ficou escandalizado, esse cara da Usaid.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas n&#227;o era uma contradi&#231;&#227;o gigantesca o cara da Usaid levar?
Washington &#8211; Mas &#233; que era t&#227;o escandaloso. Devia ser um cara que estava na Usaid, querendo fazer coopera&#231;&#227;o, e de repente viu para o que estava sendo usado, que era fazer altos neg&#243;cios. Tentamos fazer essa mat&#233;ria e publicar, e de novo n&#227;o conseguimos. A censura teve informa&#231;&#227;o. N&#227;o, essa a&#237; n&#243;s publicamos. Conseguimos publicar. Alguns dias depois, saiu uma nota no Jornal do Brasil, naquela coluna Informe JB, onde dizia o seguinte: que uma revista brasileira tinha levantado suspei&#231;&#227;o sobre um projeto de transporte de min&#233;rio de ferro da ba&#237;a de Sepetiba, de constru&#231;&#227;o de ramais ferrovi&#225;rios, mas que esse projeto tinha o aval, no Brasil, de pessoas que estavam acima de qualquer suspeita. Entre elas, os ministros Roberto Campos e Ot&#225;vio Gouveia de Bulh&#245;es, ministro da Fazenda, mais o Trajano Augusto de Azevedo Antunes, que era associado &#224; Hannah Corporation tamb&#233;m. Ent&#227;o, como esses senhores estavam acima de qualquer suspeita, o Brasil n&#227;o teria nenhum preju&#237;zo com isso. Isso foi feito, acabou acontecendo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Bom, mas voltando
Washington - Ao Correio da Manh&#227;. Como o Diretor Econ&#244;mico estava tendo muito &#234;xito, era o &#250;nico caderno econ&#244;mico di&#225;rio na imprensa do Rio de Janeiro, fui autorizado a contratar algumas pessoas e levei o Aloysio para l&#225;, como editor de mercado de capitais e com&#233;rcio exterior.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o ele ficou um pouquinho na Veja e foi para o Correio da Manh&#227;?
Na &#225;rea de com&#233;rcio exterior j&#225; trabalhava um jornalista muito competente, que fez uma carreira bonita, que &#233; o Fl&#225;vio Pinheiro. Um que depois foi editor no Jornal do Brasil, o Roberto Mello. E o Diretor Econ&#244;mico foi crescendo, crescendo, e o Aloysio come&#231;ou a jogar pesado. Principalmente nessa &#225;rea de mercado de capitais.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Fl&#225;vio Pinheiro estava na luta armada j&#225; ou n&#227;o (risos)?
N&#227;o, o Fl&#225;vio n&#227;o. Mas a Ana Maria, que fazia hor&#243;scopo, estava e trabalhava com o Aloysio (risos). E tinha outras pessoas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tinha muitas pessoas pr&#243;ximas de voc&#234;s que estavam na luta armada. Voc&#234;s conversavam sobre isso?
Mas a gente n&#227;o sabia exatamente onde eles estavam. Tinha uma outra mo&#231;a, chamada Marilene, estava no Partid&#227;o, tinha v&#225;rias coisas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas o que era, para voc&#234;s, a luta armada nessa &#233;poca? Qual era a opini&#227;o de voc&#234;s? Bom, eu n&#227;o era a favor. Achava que n&#227;o havia a menor condi&#231;&#227;o pol&#237;tica e social para a luta armada. Tanto que na quest&#227;o dos estudantes, j&#225; em 68.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; um par&#234;ntese na hist&#243;ria: tinha havido um epis&#243;dio em que eu tomei ali uma posi&#231;&#227;o. Eu tinha uma posi&#231;&#227;o estudantil, eu ia a tudo quanto era estr&#233;ia, tudo quanto era discuss&#227;o de intelectuais. A&#237; veio a morte do Edson Lu&#237;s e em cima do epis&#243;dio da morte do Edson Lu&#237;s veio a Passeata dos Cem Mil. Na Passeata dos Cem Mil foi formada uma comiss&#227;o para ir discutir com o presidente da Rep&#250;blica as condi&#231;&#245;es para um acordo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi uma comiss&#227;o que era o H&#233;lio Pellegrino, o Edson Batista, que era padre do col&#233;gio S&#227;o Vicente e hoje &#233; psicanalista, mas tinha os estudantes. Um deles era o Franklin Martins, que hoje &#233; comentarista da Globo (atual ministro da secretaria de Comunica&#231;&#227;o Social da Presid&#234;ncia da Rep&#250;blica). Tinha outros tamb&#233;m.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nessa reuni&#227;o, os estudantes come&#231;aram a encostar o Costa e Silva na parede, porque come&#231;aram a exigir a liberta&#231;&#227;o de todos os presos pol&#237;ticos. E o Costa e Silva come&#231;ou a dizer que n&#227;o podia ser assim, o governo n&#227;o podia ser encostado na parede. Que podia negociar algumas coisas, mas aquilo como condi&#231;&#227;o &#250;nica e pr&#233;via o governo n&#227;o podia aceitar. Chegou um momento em que se deu o impasse, o Costa e Silva dizendo que n&#227;o aceitava ser acuado contra a parede, e os estudantes dizendo que ent&#227;o n&#227;o tinha conversa, e a coisa se rompeu ali.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que, a meu ver, era um erro pol&#237;tico: voc&#234; radicalizava o movimento e era muito dif&#237;cil que a sociedade acompanhasse. Seria ficar mais isolado. E tanto isso &#233; verdade que a&#237; convocaram uma segunda passeata, que em vez de ter 100 mil teve 30 mil. Ou seja, houve um esvaziamento enorme. N&#243;s n&#227;o sab&#237;amos que no movimento estudantil havia v&#225;rias fac&#231;&#245;es que j&#225; tinham optado pela luta armada, estavam querendo radicalizar mesmo. E a gente querendo ampliar para a sociedade o movimento.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237; houve um epis&#243;dio em que foi preso em Copacabana, num s&#225;bado &#224; tarde, o Vladimir Palmeira, que estava sendo procurado por eles. Quando prenderam o Vladimir Palmeira, o movimento estudantil programou uma terceira passeata que seria na segunda ou na ter&#231;a-feira. E era, do ponto de vista de voc&#234; ter apoio social, um erro enorme porque o ex&#233;rcito anunciou que ia ocupar o centro da cidade, que n&#227;o haveria essa terceira passeata. Ent&#227;o, como &#233; que voc&#234; ia enfrentar um ex&#233;rcito ocupando o centro da cidade.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque, at&#233; ali, nas passeatas a pol&#237;cia ia desarmada, s&#243; com cassetete. Mas o ex&#233;rcito armado era outra coisa. Eu me lembro que fui com o H&#233;lio Pelegrino, mais o J&#226;nio de Freitas, fomos l&#225; no comando estudantil, que funcionava na rua das Palmeiras, na faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e quem estava na lideran&#231;a com a pris&#227;o do Vladimir era o Marcos Medeiros, que j&#225; morreu. Depois, virou cineasta.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chegamos l&#225;, estava o Marcos, muito posudo, com os p&#233;s em cima da mesa, camisa aberta, um medalh&#227;o enorme assim no peito. Come&#231;amos a falar que a gente achava um erro insistir naquela passeata, que o ex&#233;rcito j&#225; tinha anunciado que ia ocupar o centro, que n&#227;o t&#237;nhamos vencer uma coisa dessa, que era melhor recuar e tentar reorganizar a coisa. E ele dizia que n&#227;o, que ia fazer a passeata de qualquer jeito. E da&#237; disse: &#8220;C&#234;s querem saber de uma coisa, caguei pro ex&#233;rcito!&#8221; Eu me lembro que disse pra ele: &#8220;Olha, Marcos, voc&#234; n&#227;o pode cagar pro ex&#233;rcito. N&#227;o d&#225; pra cagar pro ex&#233;rcito. O ex&#233;rcito &#233; uma realidade, c&#234; tem que tomar em conta o que que o seu advers&#225;rio vai fazer. C&#234; n&#227;o pode cagar, n&#227;o&#8221;. E ele disse: &#8220;Quem sabe faz a hora, n&#227;o espera acontecer&#8221;. Aquela coisa da m&#250;sica do Vandr&#233;. E citava o L&#234;nin.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se &#233; para entrar nessas cita&#231;&#245;es a gente pode citar tamb&#233;m o Trotsky, que dizia que voc&#234; tem que conhecer seu inimigo melhor do que a si mesmo. Ele falou: &#8220;Caguei pro Trotsky&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s fomos embora. Na quarta-feira eles tentaram fazer a passeata e nem chegaram no centro. O ex&#233;rcito ocupou o centro, cercou tudo, e revistava todos os &#244;nibus que ia pro centro e foi tirando todos os estudantes e n&#227;o teve nem com quem fazer a passeata. Foi um fracasso! A partir da&#237;, o movimento, em termos de movimento de massa, se esgotou. E ficaram os grupos que estavam dispostos a ir pro pau com o governo, come&#231;aram a fazer a&#231;&#245;es isoladas, tocar fogo em carro de pol&#237;cia, at&#233; o AI-5, quando tudo mudou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; se lembra de o Aloysio ter participado de coisas similares a essa? Ele ia com voc&#234;? Voc&#234;s conversavam sobre isso? Washington &#8211; N&#243;s &#237;amos em assembl&#233;ias de intelectuais, que era mais a nossa &#225;rea, de jornalistas. Me lembro que tivemos uma discuss&#227;o com um alto dirigente do partid&#227;o, que queria nos levar para o partido e terminou com um bate-boca enorme, todo mundo gritando. (risos) O cara come&#231;ou a falar um mont&#227;o de coisas que n&#227;o correspondiam aos fatos, e a gente dizia, n&#227;o foi assim, e sempre engrandecendo as coisas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voltando de novo
Washington &#8211; Pois &#233;, voltando ao Correio da Manh&#227;, o Aloysio come&#231;ou a ir fundo na quest&#227;o do notici&#225;rio do mercado de capitais, mostrando as sacanagens todas e houve um momento &#8211; n&#227;o me lembro se houve um acordo para fazer isso ou simplesmente ele que deu o destaque &#8211; a&#237; houve um boom na bolsa de valores no Rio de Janeiro, neg&#243;cio especulativo, e teve um dia que foi negociado um volume enorme de a&#231;&#245;es de uma empresa chamada Merposa. E depois se revelou no Correio da Manh&#227; que era uma inven&#231;&#227;o. Merposa era Merda em P&#243; S.A.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembro dele contando essa hist&#243;ria&#8230;
Washington &#8211; Agora eu n&#227;o me lembro se foi ele que inventou ou se ele que deu repercuss&#227;o a essa hist&#243;ria.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas voc&#234; se lembra de quem vendia essas a&#231;&#245;es? Elas existiam? Washinton &#8211; Elas existiam. Algu&#233;m come&#231;ou a gritar: &#8220;Merposa! Merposa!&#8221; E tal. E come&#231;ou a vender Merposa. (mais risos) &#8230;enfim, foi indo a mesma trajet&#243;ria, de ir cada vez mais fundo, e essa coisa. A&#237; no meio disso da&#237; houve algumas coisas complicadas. A primeira delas, foi a seguinte: um dia os donos do jornal me chamaram para dizer que estava indo muito bem. Que o Diretor Econ&#244;mico tinha uma repercuss&#227;o enorme, que dava prest&#237;gio ao jornal. E fazia vender publicidade e essa coisa. E eles me propunham em transformar o Diretor Econ&#244;mico em um jornal separado. E isso significava uma coisa muito complicada que era levar &#224; fal&#234;ncia o Correio da Manh&#227;, que tinha se transformado em um s&#237;mbolo de resist&#234;ncia &#224; ditadura. Ent&#227;o, colaborar para isso era uma coisa muito ruim. E eu disse que ia pensar no assunto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fiquei remoendo essa hist&#243;ria. O Aloysio sabia disso a&#237;. Nesse meio tempo, entrou para o Correio da Manh&#227;, o Ari de Carvalho, que tinha vindo do Sul, porque ele era o cara do &#218;ltima Hora em Porto Alegre em 64. E foi o cara que fez todo o jogo da ditadura, entregou os arquivos do jornal para identificarem pessoas. E o Ari veio e come&#231;ou a fazer esse jogo de esvaziar o Correio da Manh&#227;. Porque ele queria que eles comprassem a &#218;ltima Hora para ele dirigir. Tive alguns atritos em fun&#231;&#227;o disso a&#237;. As coisas come&#231;aram a se complicar tamb&#233;m. Estamos no final de 1971. Porque come&#231;ou a ficar bastante ostensivo o trabalho pol&#237;tico que estava na luta armada, fora do jornal. Gente que era preso, era isso.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Explique melhor
Washington &#8211; Eu tenho a impress&#227;o que os donos do jornal, que naquela &#233;poca eram os irm&#227;os Alencar, (Marcelo &#8211; que acabou sendo governador do Rio &#8211;, o M&#225;rio e o Maur&#237;cio &#8211; que era um grande empres&#225;rio) recebiam informa&#231;&#245;es do servi&#231;o secreto. Umas duas ou tr&#234;s vezes eu fui convocado a ir ao Estado Maior das For&#231;as Armadas, outra no Comando Regional, outra vez na Pol&#237;cia Federal. A&#237; vinham aqueles papos, se eu era comunista, o que eu fazia, o que eu n&#227;o fazia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu nunca pertenci a nenhum partido pol&#237;tico, nunca pertencia formalmente a nenhuma organiza&#231;&#227;o, mas dava para ver que o cerco estava se fechando. At&#233; que quando chegou no come&#231;o de dezembro de 1971 eu recebi uma comunica&#231;&#227;o, dizendo que eu estava demitido. Logo em seguida demitiram o Aloysio e mais uma por&#231;&#227;o de gente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; lembra de situa&#231;&#245;es em que o Aloysio tenha sido convocado nesse per&#237;odo? Ele chegou a ser convocado?
Washington &#8211; Acho que n&#227;o. Acho que o Aloysio tinha uma milit&#226;ncia pol&#237;tica menor. Ele era concentrado mesmo no conte&#250;do, no que fazia. Fomos demitidos no final de 1971, eu voltei pra Folha, para de novo chefiar a sucursal da Folha, e o Aloysio voltou para S&#227;o Paulo. Eu trabalhei pra Folha um per&#237;odo e o Aloysio n&#227;o voltou mais pro Rio. Eu tenho a impress&#227;o, mas n&#227;o &#233; nada certo isso, que o Aloysio teve uma passagem breve pelo Jornal do Commercio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234;s moravam em que lugar no Rio?
Washington &#8211; A partir de 1966 eu morei no Leblon, na G&#225;vea e depois em Santa Teresa. O Aloysio morou em Copacabana, Leblon. Mas eu acho que ele teve uma passagem pelo Jornal do Commercio e depois voltou para S&#227;o Paulo. Foi mais ou menos nessa &#233;poca que ele come&#231;ou a namorar a &#194;ngela e eu me lembro de ter ido ao casamento em 1974. Virg&#237;nia, minha mulher, estava gr&#225;vida do Pedro. Nos vimos muito pouco nesse per&#237;odo, at&#233; que ele foi dirigir o DCI e a Vis&#227;o e me convidou para fazer uma coluna na Vis&#227;o, n&#227;o tenho certeza mas acho que foi em 1988, 1989 e foi at&#233; 1992. Antes disso, tem a vinda dele pra c&#225;. Em 1982, eu queria sair do Rio de Janeiro. Estava na TV Globo desde 1975 como editor-chefe do Globo Rep&#243;rter. Fiquei l&#225; at&#233; 1981, quando uma s&#233;rie de circunst&#226;ncias, crises no Globo Rep&#243;rter e crises internas com Paulinho Soares, que era o diretor, chegou um momento em que eu n&#227;o quis mais ficar no Globo Rep&#243;rter.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>Dois irm&#227;os - Parte 3Entrevisa com Washington Novaes</title>
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		<dc:date>2007-12-14T21:46:07Z</dc:date>
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		<dc:creator>Aloisio Milani</dc:creator>



		<description>Entrevista realizada em 2004 por Aloisio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni. O texto est&#225; dividido em quatro partes: I &#8211; Primeiros Anos II &#8211; A Ditadura III &#8211; A Democracia IV &#8211; &#218;ltimos Anos III &#8211; A Democracia O ano &#233; 1982. Washington inicia uma nova fase em sua vida. Muda-se para Goi&#226;nia, para dirigir o jornal Di&#225;rio da Manh&#227; (ver artigo sobre no livro Vozes da Democracia). A experi&#234;ncia resulta inesquec&#237;vel. Depois dela, Washington jamais voltou &#224;s reda&#231;&#245;es. Aloysio participa com ele (...)

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		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Entrevista realizada em 2004 por Aloisio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni.&lt;/i&gt;	&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O texto est&#225; dividido em quatro partes:&lt;br&gt;
I &#8211; Primeiros Anos&lt;br&gt;
II &#8211; A Ditadura&lt;br&gt;
III &#8211; A Democracia&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article911&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;IV &#8211; &#218;ltimos Anos&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;hr class=&quot;spip&quot; /&gt;
&lt;p&gt;III &#8211; A Democracia&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O ano &#233; 1982. Washington inicia uma nova fase em sua vida. Muda-se para Goi&#226;nia, para dirigir o jornal Di&#225;rio da Manh&#227; (ver artigo sobre no livro Vozes da Democracia). A experi&#234;ncia resulta inesquec&#237;vel. Depois dela, Washington jamais voltou &#224;s reda&#231;&#245;es. Aloysio participa com ele desse sonho. Prim&#243;rdios da redemocratiza&#231;&#227;o do Brasil. Anos de muita expectativa, de transforma&#231;&#245;es.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antonio - Esse per&#237;odo entre o Correio da Manh&#227; e o Di&#225;rio da Manh&#227;. Como se manteve a rela&#231;&#227;o de voc&#234;s. Voc&#234;s continuaram amigos? WN: Muito.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antonio &#8211; Voc&#234;s se viam?
Washington &#8211; Muito amigos, mas nos vendo muito poucos. Era um em S&#227;o Paulo e outro no Rio. Ele quase n&#227;o ia ao Rio eu quase n&#227;o ia a S&#227;o Paulo. Ent&#227;o nos v&#237;amos muito pouco. Fui ao casamento. Nos encontr&#225;vamos. Toda vez que eu ia a S&#227;o Paulo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antonio &#8211; Telefone, trocavam cartas? Washington &#8211; Pouco. Realmente pouco. S&#243; quando encontrava mesmo. A&#237; em 82 o Aloysio veio e veio como editor assistente, j&#225; cuidando da parte de economia do jornal. Quando eu vim para c&#225;, eu tava no Globo Rep&#243;rter e o Marco Antonio Coelho, pai do Marco Antonio Coelho Filho, da TV Cultura, tinha vindo para c&#225;, porque ele tinha sa&#237;do da cadeia depois de anos de pris&#227;o, onde foi muito torturado. Ele n&#227;o conseguia emprego em S&#227;o Paulo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Marco Antonio tinha sido alto dirigente do Partido Comunista. E ele conhecia o Batista, de quando ele tinha sido Deputado. Ele ajudou o Batista em alguma coisa naquela &#233;poca e ele pediu emprego para o Batista, que deu emprego para ele e ele veio para c&#225;. O Marco Antonio estava aqui e era muito amigo do Cl&#225;udio Abramo. E o Cl&#225;udio sugeriu que ele chamasse algumas pessoas para escrever no jornal, e entre essas pessoas estava o meu nome. Eu n&#227;o conhecia o Marco Antonio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da&#237; um dia ele me telefonou, falando isso, que o Cl&#225;udio tinha sugerido, que ele gostaria, e um dia, numas f&#233;rias, eu passei aqui por Goi&#226;nia, fui l&#225; ao jornal, conversei com ele, me apresentou o Batista. Ent&#227;o, em janeiro de 82 eu comecei a escrever um artigo por semana no jornal. E a&#237; pelo quinto ou sexto artigo, eu escrevi um onde eu falava sobre o que eu entendia por &#233;tica no jornalismo e contava um epis&#243;dio da &#233;poca da Folha, desse come&#231;o, quando fui trabalhar com o M&#225;rio Lobo, tio do Aloysio, que era o secret&#225;rio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o o Lobo me passava para preparar as not&#237;cias que chegavam dos rep&#243;rteres. Um dia ele me passou uma not&#237;cia que era de um sujeito desempregado e desesperado que matou os quatro filhos a tiros, matou a mulher e com a &#250;ltima bala do revolver se matou. Eu preparei a not&#237;cia entreguei para o Lobo e naquela &#233;poca n&#227;o tinha diagrama&#231;&#227;o em jornal, diagrama&#231;&#227;o era o secret&#225;rio, o sub-secret&#225;rio e eu que faz&#237;amos na oficina.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A gente ia l&#225; e montava a p&#225;gina fisicamente, com material composto. A&#237; eu vi quando o Lobo marcou o original: uma coluna, p&#225;gina 14. Eu falei: &#8220;O Lobo, uma not&#237;cia dessa voc&#234; vai dar em uma coluna na p&#225;gina 14?&#8221; A&#237; ele me olhou assim, muito s&#233;rio e falou: &#8220;Voc&#234; faria o que?&#8221; Eu disse: &#8220;Eu daria na primeira p&#225;gina com o maior destaque&#8221;. E ele disse: &#8220;Por que?&#8221; &#8220;Porque uma not&#237;cia como essa revela um problema social muito grave, pode chamar aten&#231;&#227;o da sociedade para essa coisa&#8221;, eu respondi. Ele me disse: &#8220;Pode ser que voc&#234; tenha raz&#227;o, mas quando eu era o secret&#225;rio da Folha da Tarde, chegou uma not&#237;cia igual a essa, um cara que matou a fam&#237;lia inteira e se matou porque estava desempregado. E eu fiz o que voc&#234; est&#225; dizendo que faria. Eu dei na primeira p&#225;gina, com muito destaque. Nos dias que se seguiram chegaram v&#225;rias not&#237;cias de outras pessoas que tomaram o mesmo caminho. Eu nunca vou saber se alguma dessas pessoas leu aquela not&#237;cia no jornal, mas eu n&#227;o tenho mais coragem de dar esse destaque. Agora eu tamb&#233;m n&#227;o posso deixar de publicar. Porque eu estou aqui para publicar. Ent&#227;o a solu&#231;&#227;o que eu tenho &#233; essa. Publicar numa p&#225;gina interna, sem destaque. Se algu&#233;m tiver uma solu&#231;&#227;o melhor do que a minha eu estou disposto a discutir&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237; eu contava isso no artigo e dizia que passados naquela &#233;poca vinte e tantos anos desse fato e da morte do Lobo que eu tinha colocado essa quest&#227;o para muita gente, para muitos jornalistas, os mais brilhantes do Brasil, e ningu&#233;m tinha uma resposta. Ningu&#233;m tinha uma resposta para a seguinte quest&#227;o: qual &#233; a responsabilidade pessoal do jornalista naquilo que ele faz. E n&#227;o &#233; a da imprensa. E n&#227;o adianta a gente ficar escondido atr&#225;s da responsabilidade da empresa. Tem uma coisa que &#233; do jornalista de responsabilidade dele. Decis&#227;o dele. Que voc&#234; faz e como influencia. E que isso precisa ser discutido pelos jornalistas, que precisa ser avaliado, mas que isso estava fora da discuss&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meu artigo era isso a&#237;. Para minha surpresa, recebi um telefonema do Batista dizendo &#8220;se &#233; isso que voc&#234; pensa por que n&#227;o vem fazer?&#8221; Eu fiquei muito assim, n&#233;. Ele falou &#8220;vou a&#237; no Rio, conversar com voc&#234;&#8221;. E a&#237; foi l&#225;, falou que era isso que ele queria, um jornalismo respons&#225;vel. E eu falei, mas n&#227;o &#233; s&#243; isso. Eu acho que um jornal s&#243; pode ter um compromisso: com o leitor e com a sociedade. N&#227;o pode ter compromisso com governo, com poder econ&#244;mico, compromisso tem que ser com o leitor.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o Batista disse que topava. Que daria inteira liberdade para eu fazer o jornal que eu quisesse. Acabei vindo e tocando o jornal dando essa dire&#231;&#227;o ao jornal. E o Aloysio veio. Isso n&#227;o &#233; agosto de 82 &#233; agosto de 83. Ele veio no segundo ano.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E qual que era a raz&#227;o pela qual o Aloysio disse que queria vir? Washington &#8211; Ele n&#227;o estava contente com as coisas dele l&#225; em S&#227;o Paulo e acha que essa coisa de seguir esse rumo seria uma coisa interessante.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi a &#233;poca da crise da Folha...
Washington &#8211; Foi antes da crise da Folha. Ele veio e entrou de cabe&#231;a nessa coisa. E o jornal era muito forte. O Di&#225;rio da Manh&#227; tinha uma for&#231;a aqui em Goi&#225;s que era...quando eu vim para c&#225; o jornal tinha uma circula&#231;&#227;o de seis mil exemplares por dia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando n&#243;s sa&#237;mos, no final de 83, j&#225; tinha trinta mil de circula&#231;&#227;o durante a semana e quase quarenta mil no domingo. Durante a semana ele j&#225; ganhava do O Popular, que era o jornal mais importante daqui, mais forte, que &#233; da mesma empresa afiliada da Globo, e no domingo ele perdia por uma pequena diferen&#231;a porque o outro tinha um caderno de televis&#227;o. N&#243;s t&#237;nhamos tomado 60% dos classificados e est&#225;vamos come&#231;ando a entrar na m&#237;dia nacional.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;T&#237;nhamos inclusive uma sucursal muito forte em Bras&#237;lia, chefiada pelo Pompeu de Souza, um dos fundadores da Veja! Tinha gente muito boa l&#225;, a Helena Chagas, que hoje &#233; do Globo...E aqui em Goi&#226;nia, a for&#231;a do jornal era uma coisa enorme. Era o dono do mercado aqui em Goi&#225;s. E o jornal tinha essa caracter&#237;stica de o &#250;nico compromisso dele ser com o leitor e com a sociedade. N&#227;o havia essa coisa de isso n&#227;o pode publicar, isso n&#227;o sai. Isso n&#227;o existia. E voc&#234; criar esse conceito de um jornal na sociedade &#233; uma coisa que tem uma resposta muito forte.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A sociedade sabia que o compromisso do jornal era com ela. O jornal fazia debate nos bairros sobre os problemas dos bairros. Levava gente do governo. Cobrava solu&#231;&#227;o. Jornal fazia debates p&#250;blicas em audit&#243;rios, chamava gente de todos os setores, jornal tinha um conselho de leitores que se reunia todos os dias &#224; uma hora da tarde, com todos os editores. Cada editor era obrigado a levar um rep&#243;rter ou um redator da sua &#225;rea. E nessa reuni&#227;o se discutia todo o jornal que tinha sido feito e o que ia sair no dia seguinte.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Qualquer diverg&#234;ncia era resolvida por vota&#231;&#227;o. O dono do jornal se quisesse ir na reda&#231;&#227;o poderiam ir, ele e a mulher dele, que eram os donos, mas eles tinham um voto. E frequentemente foram derrotados nessas reuni&#245;es. Esse compromisso era t&#227;o forte e n&#243;s mesmos denunciamos na primeira p&#225;gina uma pesquisa sobre a sucess&#227;o estadual que n&#243;s t&#237;nhamos encomendado, e public&#225;vamos todo m&#234;s, at&#233; que ficou evidente que o cara estava roubando. (risos) Ent&#227;o n&#243;s colocamos um editorial denunciando o cara. N&#243;s n&#227;o podemos deixar de publicar a pesquisa, porque vai ser dito porque n&#243;s paramos de publicar para favorecer o candidato de oposi&#231;&#227;o, que era o &#205;ris Rezende. Se n&#243;s publicarmos n&#243;s vamos ser acusados de favorecer o candidato do governo, do PDS.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o qual &#233; a solu&#231;&#227;o? N&#243;s estamos aqui denunciando, vamos continuar publicando, agora no dia seguinte n&#243;s vamos conferir cidade por cidade, urna por uma, a pesquisa e o que aconteceu e se n&#227;o tiver correto...e assim foi feito.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No dia seguinte conferimos uma por uma e denunciamos os caras como uns safados e o instituto acabou por causa disso a&#237;. Todo dia tinha epis&#243;dios muito fortes, onde a gente contava para o leitor o que estava acontecendo, quando algu&#233;m tentava interferir no jornal contava, que era para n&#227;o interferir mais mesmo, para ter medo...isso foi indo at&#233; se somarem v&#225;rias crises. Uma crise com o governo do Estado, que era o maior anunciante e estava puto com o jornal. Com os empres&#225;rios que estavam putos com o jornal, porque &#233;ramos muito independentes, e o que tornou insuport&#225;vel, uma crise conjugal do Batista com a ent&#227;o mulher dele a Consuelo, que era contra fazer o jornal daquele jeito...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi o melhor ve&#237;culo que voc&#234; chegou a trabalhar?
Washington &#8211; Ah, eu acho. Nunca mais eu quis dirigir um jornal. N&#227;o vou conseguir chegar a ir de um jornal com essa independ&#234;ncia, fora a qualidade que o jornal tinha. O J&#226;nio voltou para a comunica&#231;&#227;o com uma coluna sobre o Rio, o Newton Carlos fazia uma coluna internacional, o Cl&#225;udio escrevia as vezes, o Fernando Sabino. Tinha epis&#243;dios muito interessantes na vida do jornal.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Teve um dia que uma rep&#243;rter do jornal, a Lisa Fran&#231;a, que hoje &#233; minha vizinha, foi &#224; casa de deten&#231;&#227;o e ela ficou muito impressiona porque encontrou uma mo&#231;a dos seus 19 ou 20 anos com uma crian&#231;a de uns dois anos e meio, outra de um ano e pouco e uma terceira na barriga e todos eles vivendo da caridade dos presos. Comiam os restos que os presos deixavam.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso tudo porque o marido dela estava preso e a hist&#243;ria era a seguinte: o marido dela, quando nasceu aquele menino que estava com um ano e pouco, ele tentou comprar leite fiado num botequim e o dono n&#227;o quis vender e ainda come&#231;ou a chamar de vagabundo, debochou. A&#237;, ele puxou um canivete e enfiou na barriga do cara e fugiu. Alguns dias depois ele foi preso e j&#225; estava preso h&#225; v&#225;rios meses. Ent&#227;o, essa mat&#233;ria chegou na reuni&#227;o do conselho editorial e tinha uma foto impressionante daquela mulher com uma crian&#231;a em cada m&#227;o e aquele corredor de celas, e os presos com aquelas m&#227;os crispadas segurando nas barras de ferro.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, n&#243;s demos essa foto na largura inteira da p&#225;gina, toda a p&#225;gina do jornal e dentro contava essa hist&#243;ria. A&#237;, apareceu no jornal no dia seguinte um promotor p&#250;blico que tinha ficado impressionado com aquilo e queria mais informa&#231;&#245;es. Ele foi atr&#225;s do processo e a Lisa o acompanhou. A&#237; ele viu que o cara s&#243; tava preso porque era pobre, porque era r&#233;u prim&#225;rio, ent&#227;o ele podia responder em liberdade. O cara n&#227;o tinha morrido, eram apenas les&#245;es corporais, n&#227;o era homic&#237;dio. Os prazos processuais estavam todos vencidos e ele nem advogado tinha.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, o promotor pediu ao juiz que o libertasse e o juiz autorizou a liberta&#231;&#227;o dele. A&#237; a Lisa e o promotor foram at&#233; a casa de deten&#231;&#227;o e ele foi libertado nesse dia mesmo. A Lisa voltou para o jornal com a mat&#233;ria contando essa hist&#243;ria e com as fotos desse reencontro da fam&#237;lia. Estampamos na primeira p&#225;gina uma seq&#252;&#234;ncia de fotos desse reencontro.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No dia seguinte apareceu um outro procurador do Estado, aposentado, e um outro rep&#243;rter acompanhou a fam&#237;lia na volta pra casa. Eles moravam num barraco de papel&#227;o, numa comunidade de mendigos e catadores de papel embaixo de uma ponte daqui.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, esse outro rep&#243;rter fez a mat&#233;ria desse retorno deles, todos em volta de uma fogueira numa noite de inverno. A&#237; um procurador do Estado reconheceu na foto em volta da fogueira um irm&#227;o de cria&#231;&#227;o dele que ele n&#227;o via h&#225; uns 40 anos. Ele foi l&#225; pegou o cara e levou pra casa dele. No outro dia fomos l&#225; e publicamos o encontro deles, ele tomando banho, fazendo barba etc. No outro dia, o governador do estado baixou uma ordem para que um desses programas habitacionais destinasse uma parte da verba para essas pessoas que moravam embaixo da ponte. Isso foi para a primeira p&#225;gina de novo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, essa &#233; apenas uma dessas hist&#243;rias, das v&#225;rias que eu poderia contar, desse caso do jornalismo seguir atr&#225;s da hist&#243;ria e transformar isso em coisas importantes. Tem uma outra hist&#243;ria muito bonita... um dia eu cheguei no jornal e o Batista veio falar comigo, dizendo que tinha um doido que havia ido ao jornal reclamar que tinha levado umas porradas na Caixa Econ&#244;mica Federal e o seguran&#231;a tinha dados uns tapas nele porque ele andava com um saco nas costas e um penico.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas ele queria abrir uma conta na Caixa e n&#227;o conseguia porque diziam que n&#227;o podia se abrir uma conta para um doido, que n&#227;o dava para dar um tal&#227;o de cheques para um doido. Eu conhe&#231;o o gerente da Caixa, &#233; um cara decente, ent&#227;o eu pensei: &#8220;eu vou ver&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, eu peguei a mat&#233;ria para dar uma lida, a rep&#243;rter era Lisa, e ela me dizia que aquilo mesmo, que cada vez que o cara chegava para abrir a conta tinham mais exig&#234;ncias que ele tinha que cumprir. Ent&#227;o, se ele 5, diziam que ele tinha que ter 10, se tinha os 10 diziam que era 15 e assim sucessivamente. A&#237;, naquele dia ele havia perdido a paci&#234;ncia foi l&#225; reclamar e o seguran&#231;a deu umas porradas nele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lendo a mat&#233;ria, aparentemente estava tudo ok, tinha a Caixa, o cara, o seguran&#231;a... a&#237; virei pra Lisa e falei: &#8220;Bom Lisa, o tinha que ser feito est&#225; feito, mas o que me ocorre &#233; o seguinte: ser&#225; que n&#227;o &#233; o caso de procurar a fam&#237;lia dele, ver se o cara &#233; doido ou n&#227;o?&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A Lisa virou e disse assim pra mim: &#8220;Ah, eu n&#227;o vou n&#227;o. Esse crit&#233;rio n&#227;o &#233; seguido nas outras mat&#233;rias... tem pessoas mais doidas que falam todos os dias no jornal, como Delfim, e ningu&#233;m vai procurar as fam&#237;lias deles pra ver se eles s&#227;o doidos. Por que vai fazer com esse cara?&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era um argumento interessante. A&#237; eu falei: &#8220;vamos fazer o seguinte: essa mat&#233;ria ningu&#233;m vai dar mesmo. Ent&#227;o, vamos levar esse assunto para a reuni&#227;o no conselho editorial e eu quero que voc&#234; v&#225; l&#225; discutir o assunto e vamos o que acontece&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237; n&#243;s chegamos, eu botei o assunto em discuss&#227;o e como toda vez que se fala doido pega fogo, come&#231;ou uma discuss&#227;o incendiada. Metade do conselho dizendo que n&#227;o devia se publicar a mat&#233;ria, porque aquilo l&#225; iria virar um ref&#250;gio de doidos e outros dizendo que deveria se publicar. A&#237; um dos editores virou e falou: &#8220;Oh, mas voc&#234;s n&#227;o t&#227;o vendo. T&#225; escrito. O cara anda com um penico nas costas porque ele foi aposentado por incontin&#234;ncia urin&#225;ria e ele n&#227;o que ficar mijando em qualquer lugar porque em Goi&#226;nia n&#227;o tem banheiro p&#250;blico. Ent&#227;o &#233; um cidad&#227;o exemplar!&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da&#237; nasceu uma campanha do jornal para constru&#231;&#227;o de banheiros p&#250;blicos. Mas chegou uma hora na discuss&#227;o que sugeri que public&#225;ssemos a mat&#233;ria no domingo, contando o que aconteceu e quem quiser dar sua opini&#227;o tamb&#233;m escreva. Isso gerou uma coisa que pra mim &#233; umas das mais bonitas no jornal. Fizemos duas p&#225;ginas de discuss&#227;o em torno desse assunto que era, aparentemente, de um doido. Sa&#237;ram essas duas p&#225;ginas e come&#231;ou um debate na se&#231;&#227;o de cartas, os leitores debatendo a quest&#227;o, in&#250;meras cartas chegando todos os dias sobre esse assunto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E uma dessas cartas dizia: &#8220;voc&#234;s querem ver doidos? Ent&#227;o por que voc&#234;s n&#227;o v&#227;o no manic&#244;mio judici&#225;rio?&#8221;. E n&#243;s fomos. No dia seguinte foi um rep&#243;rter e um fot&#243;grafo e voltaram com uma foto incr&#237;vel, que eram os internos do manic&#244;mio judici&#225;rio, eram mais de 100, todos nus no p&#225;tio, tomando um banho de esguicho.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Publicamos na primeira p&#225;gina. Saiu no jornal, a&#237; o secret&#225;rio de sa&#250;de mandou uma carta ao jornal, dizendo que o jornal n&#227;o tinha &#233;tica ao publicar uma foto como aquela. Isso gerou um editorial do jornal do dia seguinte, que falava que dizer que o jornal n&#227;o tinha &#233;tica era como dizer que n&#227;o tinham &#233;tica os fot&#243;grafos que fotografaram os campos de concentra&#231;&#227;o, na Alemanha nazista, e n&#227;o Hittler. E quem n&#227;o tinha &#233;tica era ele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O secret&#225;rio foi demitido pelo governo do estado e o governo mandou fazer uma reforma no manic&#244;mio. Ent&#227;o, era esse processo de voc&#234; ouvir a sociedade e ir atr&#225;s das coisas. E quando havia tentativas de desviar o jornal, o jornal denunciava e publicava. Isso acabou nos levando tamb&#233;m a criar uma coisa, que eu tenho a impress&#227;o que nunca houve na imprensa, que era o conselho de leitor.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Convidamos 50 pessoas para participar disso, representando os sindicatos de empregados e os sindicatos patronais, as igrejas, as universidades, os v&#225;rios setores sociais, engenheiros, advogados etc. E o conselho passou a se reunir uma vez por m&#234;s para fazer a cr&#237;tica do jornal, e essa cr&#237;tica era publicada no jornal.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso &#233; genial...
Washington &#8211; Pois &#233;. As reuni&#245;es tinham come&#231;ado com uma por m&#234;s, depois virou quinzenal, a&#237; virou semanal. E as discuss&#245;es no conselho eram muito intensas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pra citar um exemplo s&#243;, tinha um conselheiro que era da Uni&#227;o Brasileira dos Escritores e era da universidade daqui, prop&#244;s que o jornal voltasse a editar um suplemento liter&#225;rio que j&#225; tinha existido e que tinha acabado. A&#237;, um cara que era do sindicato dos banc&#225;rios e disse que gostava de ver o nome do Fernando Sabino no jornal etc, mas que se existisse um caderno com nome liter&#225;rio ele jogava no lixo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A&#237;, um outro cara que era representante da associa&#231;&#227;o das micro e pequenas empresas tirou um t&#234;nis e come&#231;ou a bater na mesa e a falar: &#8220;que suplemento liter&#225;rio o que, n&#243;s temos &#233; que falar desse t&#234;nis. Porque esse t&#234;nis foi desenhado por um criol&#227;o daqui do Goi&#225;s que tinha uma pequena f&#225;brica no quintal da casa dele e fez o maior sucesso com esse t&#234;nis e come&#231;ou a vender adoidado. Ele quer expandir o neg&#243;cio, mas n&#227;o tem gente especializada em Goi&#225;s, o que est&#225; dificultando o trabalho dele. Tem que falar dessas coisas, das pequenas empresas etc&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso levou &#224; cria&#231;&#227;o de uma se&#231;&#227;o semanal que falasse das micro e pequenas empresas do Goi&#225;s e das coisas que elas estavam fazendo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; ficou quanto tempo no jornal?
Washigton: Eu fiquei um ano e sete meses.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o Aloysio?
Washigton: O Aloysio ficou uns seis meses no jornal e come&#231;ou a formar gente no jornal. N&#243;s t&#237;nhamos muito conflito no jornal com o pessoal do PT, que queria fazer um jornal partid&#225;rio. E a gente dizia que jornal n&#227;o era partid&#225;rio, mas sim um espa&#231;o aberto a tudo. Mas chegou um momento que chegou essa soma de crises e gerou um impasse porque a mulher do Batista exigia que demitisse metade da reda&#231;&#227;o e acabasse com aquele projeto. Eu cheguei a negociar com a reda&#231;&#227;o e o pessoal abriu m&#227;o de um aumento salarial em troca de n&#227;o demitir ningu&#233;m durante um ano, mas ela n&#227;o aceitou e exigiu do Batista que demitisse. E quando ele fechou a quest&#227;o eu disse que ia embora, e a&#237; sa&#237;mos todos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por que ela exigia isso?
Washington: Porque ela queria dirigir o jornal. A&#237; o Aloysio foi pra Folha. E isso eu acompanhei um pouco porque foi a grande do Aloysio com os economistas do PMDB. O Aloysio foi ser editor de economia do jornal e ele seguiu uma linha que ele j&#225; vinha trabalhando dentro da Gazeta Mercantil e aqui no Di&#225;rio da Manh&#227; e quando chegou l&#225;, ele defendia uma tese de que a economia brasileira que tinha entrado em crise em 1982, com a crise da d&#237;vida externa, como foi chamada, ent&#227;o se declarou um impasse, a economia entrou em recess&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o Aloysio vinha escrevendo que a economia estava em fase de recupera&#231;&#227;o, estava crescendo um pouco e isso deixou indignados os economistas do PMDB que confundiam isso com apoio a ditadura. A&#237; o Aloysio, quando voltou pra Folha, em 1984, come&#231;ou a traduzir isso no jornal. E come&#231;ou a provocar uma rea&#231;&#227;o nesse pessoal que achava que isso era apoio a ditadura. Essa pol&#234;mica foi crescendo e o Aloysio n&#227;o tinha medo disso e mostrava para eles que eles estavam errados. A&#237; ouve uma coisa muito triste, a Concei&#231;&#227;o, que era nossa amiga, escreveu um artigo dizendo que de m&#233;dico e louco todo mundo tem um pouco e que o Aloysio estava exagerando... e o que foi pior &#233; que ela foi &#224; dire&#231;&#227;o da Folha pedir que demitissem o Aloysio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por que ela fez isso, ent&#227;o?
Washington: Porque eles achavam que defender essa posi&#231;&#227;o era ajudar a ditadura. Bom, mas algum tempo depois, eu encontrei o Carlos Lessa e eu disse pra ele que aquela coisa n&#227;o tinha cabimento, que o Aloysio estava certo. A&#237; ele disse: &#8220;mas ele n&#227;o pode defender a ditadura&#8221;. E eu respondi que ningu&#233;m estava defendendo a ditadura, que aquilo era realidade e que a fun&#231;&#227;o do jornalista n&#227;o era esconder aquilo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o Lessa a dizer que n&#227;o, que ele tava defendendo a ditadura. E foi uma briga que o Aloysio, na &#233;poca, sustentou praticamente sozinho. Quando ele morreu, num artigo que eu escrevi, eu at&#233; disse isso. Porque ele tinha raz&#227;o e at&#233; hoje ningu&#233;m pediu desculpas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com a Concei&#231;&#227;o ele se entendeu depois de alguns anos, com os outros eu n&#227;o sei. Mas eu acho que esse pessoal tinha uma vis&#227;o errada porque eles achavam que, como estava em curso um movimento que devia desaguar nas diretas j&#225; era que isso ajudava o governo. Agora, saber a quem ajuda ou n&#227;o, isso n&#227;o &#233; fun&#231;&#227;o do jornalista.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O jornalista tem que escrever o que est&#225; certo e era o que o Aloysio estava fazendo. O Aloysio tinha um acervo pessoal, que todo mundo sabe que ele juntava um monte de papel sem nenhuma sistematiza&#231;&#227;o, mas ele valia por uma institui&#231;&#227;o de pesquisa e an&#225;lise sozinho. O tempo provou que ele tinha raz&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Depois disso, ele voltou pra Gazeta e de l&#225; foi para o DCI e de l&#225; para a Vis&#227;o. Nessa &#233;poca a gente vivia um pouco a dist&#226;ncia, mas eu escrevia para a Vis&#227;o, mas como eu continuei morando em Goi&#226;nia era uma coisa distante.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>Dois irm&#227;os - Parte 4Entrevisa com Washington Novaes</title>
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		<dc:date>2007-12-14T21:43:40Z</dc:date>
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		<dc:language>pt_br</dc:language>
		<dc:creator>Aloisio Milani</dc:creator>



		<description>Entrevista realizada em 2004 O texto est&#225; dividido em quatro partes: I &#8211; Primeiros Anos II &#8211; A Ditadura III &#8211; A Democracia IV &#8211; &#218;ltimos Anos IV &#8211; &#218;ltimos Anos O Brasil &#233; pouco generoso com quem n&#227;o se rende ao mercado. Nos anos 90, Biondi &#233; banido dos grandes ve&#237;culos comerciais de comunica&#231;&#227;o, muitos dos quais ele ajudou a construir. Foi tamb&#233;m o per&#237;odo em que ele aprofundou sua rela&#231;&#227;o com setores da esquerda e dos movimentos sociais, por meio de um agir jornal&#237;stico a partir da imprensa (...)

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&lt;a href="https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?rubrique6" rel="directory"&gt;Entrevistas&lt;/a&gt;


		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Entrevista realizada em 2004&lt;/i&gt;	&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O texto est&#225; dividido em quatro partes:&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article914&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;I &#8211; Primeiros Anos&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article913&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;II &#8211; A Ditadura&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
&lt;a href=&quot;http://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article912&quot; class='spip_out' rel='external'&gt;III &#8211; A Democracia&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
IV &#8211; &#218;ltimos Anos&lt;br&gt;
&lt;br&gt;&lt;/p&gt; &lt;hr class=&quot;spip&quot; /&gt;
&lt;p&gt;IV &#8211; &#218;ltimos Anos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Brasil &#233; pouco generoso com quem n&#227;o se rende ao mercado. Nos anos 90, Biondi &#233; banido dos grandes ve&#237;culos comerciais de comunica&#231;&#227;o, muitos dos quais ele ajudou a construir. Foi tamb&#233;m o per&#237;odo em que ele aprofundou sua rela&#231;&#227;o com setores da esquerda e dos movimentos sociais, por meio de um agir jornal&#237;stico a partir da imprensa alternativa. &#201; a &#233;poca, tamb&#233;m, do embate contra as privatiza&#231;&#245;es.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Acho que vale a pena voc&#234; falar um pouco mais desse segundo momento do Di&#225;rio da Manh&#227;...
Washington - Bom, num segundo momento, ele voltou ao jornal e deu um impulso muito grande ao jornal e come&#231;ou a crescer. Mas alguns meses depois come&#231;ou a se evidenciar a crise econ&#244;mica do jornal. Ou seja, o jornal n&#227;o se sustentava. E o Aloysio, com a disposi&#231;&#227;o dele, acabou assumindo a dire&#231;&#227;o financeira do jornal.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estamos falando de 1994. Era uma coisa muito dura. A gente se encontrava pouco, inclusive, porque ele trabalhava muito. Sa&#237;a do jornal muito tarde. Convers&#225;vamos pouco, eu tinha voltado a escrever para o jornal. E era engra&#231;ado porque como n&#243;s &#233;ramos amigos eu era a &#250;ltima pessoa a receber. Nesse per&#237;odo que ele coordenou a parte financeira eu quase n&#227;o recebi (risos).&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi um per&#237;odo de muita frustra&#231;&#227;o para ele. O Aloysio gostava muito de Goi&#226;nia, queria ficar aqui, mas n&#227;o teve jeito. N&#227;o tinha a menor condi&#231;&#227;o. Ele voltou para S&#227;o Paulo, para o DCI por um tempo, e n&#243;s nos encontr&#225;vamos quando eu passava por S&#227;o Paulo, que era muito pouco, muito raro&#8230;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tem tr&#234;s projetos seguidos que o Aloysio acaba assumindo a posi&#231;&#227;o de tentar elaborar um projeto do in&#237;cio ao fim. De todo o controle de todo o conjunto da reda&#231;&#227;o, de toda a parte administrativa, de ocupar uma fun&#231;&#227;o ainda mais ampla, e tanto o Di&#225;rio da Manh&#227; e o Shopping News DCI s&#227;o marcados por problemas em rela&#231;&#227;o ao recebimento de sal&#225;rios, dificuldades de tocar o projeto. Voc&#234; identifica a&#237; o momento em que o Biondi apostou em projetos maiores, tentando criar um projeto, mesmo com o risco&#8230;
Washington &#8211; Eu acho que no DCI, principalmente, ele apostou muito. Ele queria fazer e fez uma por&#231;&#227;o de acordos. E quando a gente conversava eu dizia: &#8220;Voc&#234; &#233; louco! N&#227;o fa&#231;a uma coisa dessas&#8221;. Primeiro porque com um enorme sacrif&#237;cio pessoal sempre, de muito trabalho. Segundo, de sacrif&#237;cio financeiro, abrindo m&#227;o de uma por&#231;&#227;o de coisas. L&#225; no DCI ele fez dois acordos. Quando ele fez o segundo, o cara j&#225; tinha sacaneado muito ele da primeira vez.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu dizia para ele: &#8220;P&#244;, ce vai de novo? Aceitar essa coisa desse cara?&#8221; Mas ele queria de qualquer jeito, que o projeto n&#227;o morresse, e fez um trabalho muito bonito, do pouco que eu acompanhava. Tanto o Shopping News quanto o DCI tiveram fases muito bonitas, muito brilhantes.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; diferenciaria dos outros momentos da carreira, de tentar criar um projeto pr&#243;prio, ou esse esp&#237;rito sempre existiu, mesmo na fase do Di&#225;rio da Manh&#227;, da Folha?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o sei. N&#227;o sei se o Aloysio chegou a ter um projeto pr&#243;prio de fazer ou um jornal ou uma revista dele. Sempre teve essa coisa de n&#227;o ter recursos e de ter sempre que se engajar em um projeto atrav&#233;s do qual ele pudesse realizar as coisas com as quais ele sonhava. Agora eu acho que tem uma coisa do Aloysio que precisa ser destacada, desde que eu o conheci at&#233; ele morrer, ele sempre teve uma caracter&#237;stica de n&#227;o buscar nem aceitar o poder. O poder, eu digo, atrav&#233;s da comunica&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Buscar o poder ou se associar com o poder. Isso foi uma marca dele, essa coisa sempre de estar do outro lado, de estar de fora, de ter uma posi&#231;&#227;o cr&#237;tica, estar numa posi&#231;&#227;o diferenciada, a servi&#231;o da sociedade, n&#227;o aceitar coopta&#231;&#227;o, n&#227;o buscar a coopta&#231;&#227;o, n&#227;o buscar ganhar dinheiro, nunca se importou em ganhar dinheiro, ficar rico. Morreu do jeito que eu o conheci, sem nada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Aloysio, dele, n&#227;o tinha nada. O Aloysio n&#227;o era uma pessoa que tinha propriedades, que tinha bens, que tinha carro, apartamento pr&#243;prio, receita pr&#243;pria, tinha dificuldades de sobreviv&#234;ncia. Preferia fazer artigos para jornais de sindicatos do que se dobrar a outras imposi&#231;&#245;es. Isso foi uma marca dele. Uma coer&#234;ncia nessa posi&#231;&#227;o de chegar a ter momentos de extrema dificuldade financeira, extremas dificuldades na vida dele, v&#225;rios desses momentos. Mas essa fidelidade a essa posi&#231;&#227;o do jornalista como algu&#233;m que est&#225; ali para servir &#224; sociedade, n&#227;o &#233; para servir ao poder, a si mesmo, nada disso a&#237;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E nem sequer a partidos pol&#237;ticos, a fac&#231;&#245;es pol&#237;ticas. O Aloysio nunca pertenceu a nenhum partido pol&#237;tico, mesmo no final da vida quando ele esteve mais pr&#243;ximo do PT, da Funda&#231;&#227;o Perseu Abramo, mesmo a&#237; ele n&#227;o tinha um engajamento direto, pessoal, nessa linha.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A raz&#227;o da segunda vinda dele, da segunda passagem dele por aqui. O jornal j&#225; n&#227;o estava muito bem. Washington &#8211; Mas ele n&#227;o sabia. Ele achava que teria condi&#231;&#227;o de fazer. De de novo levar o Di&#225;rio da Manh&#227; &#224;quilo que a gente tinha sonhado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; identificaria algum momento de maior dificuldade de realizar os projetos, de conseguir alguma estabilidade? Washington &#8211; Acho que o per&#237;odo mais dif&#237;cil foram os &#250;ltimos anos. Foi o per&#237;odo em que ele n&#227;o estava em nenhuma coisa mais fixa. Ele tinha uma coluna no Di&#225;rio Popular e fazia os textos dele para os jornais de sindicato. Foi um tempo muito dif&#237;cil, de grande dificuldade financeira, mas n&#227;o mudava. Mais ou menos nesse tempo, no fim da vida dele, a Folha chegou a convida-lo para voltar para l&#225;, para escrever um artigo por semana e ele n&#227;o quis. S&#243; toparia se fosse uma p&#225;gina.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ele n&#227;o topou voltar. Nesses &#250;ltimos anos, quase todas as conversas que n&#243;s t&#237;nhamos centravam num ponto onde eu tentava convence-lo de uma coisa, mas ele n&#227;o se convencia. Eu dizia: &#8220;Aloysio, eu acho que voc&#234; deveria mudar o tom do que voc&#234; escreve. Voc&#234; escreve de uma forma muito enf&#225;tica, muito agressiva. Eu acho que isso vai te tirando espa&#231;os. Eu acho que o que voc&#234; pensa &#233; importante demais para voc&#234; sacrificar isso pelo tom. De voc&#234; aceitar perder os seus espa&#231;os em fun&#231;&#227;o de um tom. Eu acho que voc&#234; devia baixar o seu tom, acalmar um pouco, e ganhar espa&#231;o. Dizer isso em mais lugares, com maior freq&#252;&#234;ncia, e voc&#234; tamb&#233;m ter uma vida mais f&#225;cil com essa coisa&#8221;. Em princ&#237;pio ele sempre concordava, mas na pr&#225;tica n&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu acho que isso se refletia at&#233; em algumas conversas que ele teve com a gente. Ele terminava de escrever um artigo, come&#231;ava a reler, colocava a m&#227;o na cabe&#231;a &#8211; me lembro de ele ter feito umas duas ou tr&#234;s vezes isso &#8211; e dizer: &#8220;Eu acho que eu acabei de escrever um panfleto&#8221;. (risos)
Washington &#8211; Essa nossa conversa foi muito freq&#252;ente nos &#250;ltimos anos, no final da vida dele. Porque eu continuo achando isso. Acho que &#233; uma pena que ele n&#227;o tivesse tido mais espa&#231;o, e o pensamento dele mais disseminado, que era um pensamento importante, uma vis&#227;o importante, de realidade brasileira.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembro-me de uma vez, encontrei num corredor do Congresso o Z&#233; Dirceu, que &#233; ministro da Casa Civil (na &#233;poca em que a entrevista ocorreu o termo Mensal&#227;o jamais tinha sido ouvido na Rep&#250;blica Federativa do Brasil), e ele veio me dizer que ele gostava muito do que o Aloysio e eu escrev&#237;amos porque era uma vis&#227;o muito diferenciada do Brasil do que a imprensa passava.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Agora, acho que isso era um pouco do temperamento italiano do Aloysio. Essa coisa (gesticulando e imitando um italiano nervoso) rrrroum! Ele n&#227;o conseguia dominar ou abrir m&#227;o dessa coisa. E eu acho que se ele tivesse conseguido ele teria ocupado um espa&#231;o muito maior e mais influente e, por paradoxal que possa parecer, com menos dificuldade de vida. Mas isso &#233; uma vis&#227;o que eu tenho. Mas ele n&#227;o conseguia. Ele concordava, em tese com o que eu dizia, mas na pr&#225;tica, n&#227;o funcionava.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>&#8220;Vivemos uma fraude na imprensa??por S&#233;rgio Buarque Gusm&#227;o</title>
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		<dc:date>2007-12-14T00:52:41Z</dc:date>
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		<dc:language>pt_br</dc:language>
		<dc:creator>admin</dc:creator>


		<dc:subject>91-00</dc:subject>
		<dc:subject>Economia</dc:subject>

		<description>Em entrevista concedida em 1999 a S&#233;rgio Buarque de Gusm&#227;o, diretor do Instituto Gutemberg, Aloysio Biondi explica como e por que a imprensa brasileira deixou de fazer jornalismo quando se tratava de noticiar os fatos da economia nacional durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presid&#234;ncia [1994-2002]. Para Biondi, por interesses variados das empresas e dos pr&#243;prios jornalistas, &#8220;a imprensa fechou a favor do governo do FHC&#8221; S&#233;rgio Buarque Gusm&#227;o: Numa entrevista que voc&#234; deu &#224; (...)

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&lt;a href="https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?mot7" rel="tag"&gt;Economia&lt;/a&gt;

		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Em entrevista concedida em 1999 a S&#233;rgio Buarque de Gusm&#227;o, diretor do Instituto Gutemberg, Aloysio Biondi explica como e por que a imprensa brasileira deixou de fazer jornalismo quando se tratava de noticiar os fatos da economia nacional durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presid&#234;ncia [1994-2002]. Para Biondi, por interesses variados das empresas e dos pr&#243;prios jornalistas, &#8220;a imprensa fechou a favor do governo do FHC&#8221;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;S&#233;rgio Buarque Gusm&#227;o&lt;/strong&gt;: Numa entrevista que voc&#234; deu &#224; revista Imprensa, em agosto de 1988, perguntaram o seguinte: &quot;Voc&#234; &#233;, h&#225; anos, uma voz discordante no jornalismo econ&#244;mico. Isto n&#227;o te cansa?&quot;. Dez anos depois, somos obrigados &#8211; lamentando pela imprensa &#8211; a repetir a pergunta: isso n&#227;o te cansa?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi&lt;/strong&gt;: N&#227;o, isto n&#227;o me cansa. Acho que o jornalismo s&#243; tem sentido se for realmente para cuidar corretamente da informa&#231;&#227;o, e n&#227;o adianta vir com hist&#243;ria de que tudo &#233; relativo. A defini&#231;&#227;o de &#233;tica n&#227;o comp&#245;e essa filosofagem. Ou voc&#234; tem &#233;tica, ou n&#227;o tem. Eu at&#233; gostaria de falar o seguinte: na &#233;poca da ditadura, eu fui violentamente contra a pol&#237;tica econ&#244;mica do Delfim Netto. Eu n&#227;o era bem uma voz discordante, era uma pessoa que falava mais que as outras.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E havia at&#233; os ir&#244;nicos que achavam que eu era agente provocador. Principalmente os partidos de esquerda moderada achavam que n&#227;o se devia cutucar os militares daquele jeito.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na d&#233;cada de 80, eu fui uma voz discordante, mas s&#243; que ao contr&#225;rio. A esquerda ca&#237;a em cima de mim porque, mais uma vez, n&#227;o se trabalhava com os dados. Voc&#234; tinha todo um ajuste na economia brasileira, voc&#234; tinha investido maci&#231;amente, voc&#234; come&#231;ou a ter saldo na balan&#231;a comercial, e a esquerda era realmente catastrofista, ela n&#227;o olhava esses dados. E cheguei a editor de Economia da Folha, e uma das coisas mais horrorosas da minha vida foi que na &#233;poca alguns economistas de esquerda que eu admirava muito, que eu respeitava, com alguns at&#233; eu tinha tido um relacionamento pessoal, escreveram que eu tinha sido cooptado, e, eu colocava exatamente, que nos fins dos anos 60 para 70, que at&#233; certo ponto a esquerda ficou esperando uma grande crise econ&#244;mica, e at&#233; certo ponto acabou motivando a juventude a ir para a luta armada, &#224; espera de uma crise econ&#244;mica, que faria o povo apoiar a luta armada. Um levante que n&#227;o houve, porque est&#225;vamos numa fase de expans&#227;o da economia mundial, e as multinacionais estavam investindo nos pa&#237;ses subdesenvolvidos, na &#233;poca, e a esquerda tinha errado nesta avalia&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Depois da crise dos anos 80, da explos&#227;o da d&#237;vida, tem uma coisa, assim, &#243;bvia, a d&#237;vida do Brasil, do M&#233;xico e dos pa&#237;ses subdesenvolvidos &#8211; como se dizia na &#233;poca &#8211; explodiu, porque o presidente americano, Ronald Reagan, elevou a taxa de juros de 6 a at&#233; 18 e 21%, numa pol&#237;tica para for&#231;ar a restrutura&#231;&#227;o da economia norte-americana, e isto estourou os pa&#237;ses pobres.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A partir de julho de 1982, o Reagan, come&#231;ou a reduzir as taxas, e em outubro de 1983 tinham voltado aos n&#237;veis normais. Ent&#227;o com essa hist&#243;ria do voluntarismo, de voc&#234; ter uma tese, e n&#227;o ver os dados... &#201; engra&#231;ado porque todos os economistas de oposi&#231;&#227;o, nas suas an&#225;lises, atribu&#237;am a crise mundial, a crise dos endividados, &#224; eleva&#231;&#227;o das taxas de juros do Reagan, e n&#227;o admitiam que na medida que ele estava reduzindo, que elas voltavam para o n&#237;vel anterior, na faixa dos 6 a 8%, a economia mundial, e a dos Estados Unidos, ia voltar a crescer. E eu escrevi isso na Folha e provoquei uma indigna&#231;&#227;o na esquerda. Diziam que eu estava fazendo jogo contra a abertura. E eu estava fazendo exatamente o contr&#225;rio, uma an&#225;lise pol&#237;tica, n&#227;o voluntarista, e o tempo me deu raz&#227;o logo em seguida.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Resumindo, eu n&#227;o me cansei, eu, &#224;s vezes sou voz discordante quando todo mundo est&#225; prevendo cat&#225;strofe e eu n&#227;o estou prevendo, mas &#233; em cima de dados da realidade, porque eu sou contra o voluntarismo, e brinco sempre que &quot;trabalhar d&#225; trabalho&quot;. Jornalista econ&#244;mico tem que acompanhar a conjuntura. Nas d&#233;cadas de 1970 e 80, havia um desprezo, inclusive de jornalistas muito importantes, economistas muito importantes, pelo o que eles chamavam de &quot;conjuntura arisca&quot;, porque eles j&#225; sabiam que o capitalismo ia acabar, e o neg&#243;cio era ir para o boteco da roda e dizer que o capitalismo tinha acabado. Ent&#227;o para que voc&#234; vai acompanhar o dia-a-dia? Acho que o equ&#237;voco do jornalismo de economia nessa fase decorreu de voluntarismo e pregui&#231;a de acompanhar os dados e os fatos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: E como &#233; que voc&#234; acompanha? Tem arquivo, guarda os recortes?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Eu levo tr&#234;s horas e meia para ler, realmente, a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, o &lt;i&gt;Estado&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt;, e, em algumas fases, tamb&#233;m &lt;i&gt;Jornal do Brasil&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;O Globo&lt;/i&gt;. Mas, eu leio realmente. At&#233; porque, hoje mais do que nunca, o que &#233; importante est&#225; escondido, est&#225; no meio da not&#237;cia. N&#227;o adianta voc&#234; bater na diagonal, ler manchete e ler o lide, porque aquilo ali &#233; geralmente o contr&#225;rio da verdade.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Voc&#234; tem falado muito isso, o importante vem no meio...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: No meio ou no p&#233;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: E por que isso ocorre?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: &#201; uma manipula&#231;&#227;o. Por exemplo, h&#225; dois anos e meio atr&#225;s havia 2,5 milh&#245;es de inadimplentes hoje j&#225; tem 6,5 milh&#245;es de carn&#234;s em atraso. A m&#233;dia hist&#243;rica &#233; 700 mil, olha s&#243;. Os jornais de S&#227;o Paulo divulgam tamb&#233;m o n&#250;mero de carn&#234;s pagos, e os reabilitados, quem voltou a pagar. N&#243;s chegamos ao ponto, de por exemplo, a &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt;, dar esse dado no p&#233; da p&#225;gina de conjuntura, que retrata como &#233; que est&#225; esse governo. A informa&#231;&#227;o que foi para o lide foi que um n&#250;mero maior de pessoas pagou em atraso, e n&#227;o o recorde absoluto de inadimpl&#234;ncia. &#201; muito clara essa manipula&#231;&#227;o. Eles [os rep&#243;rteres] v&#227;o l&#225; e o cara fala: esse m&#234;s caiu 20% mas no m&#234;s vem n&#243;s achamos que vai crescer 30%. S&#243; que a entrevista foi convocada, para dar a informa&#231;&#227;o concreta do que aconteceu no m&#234;s anterior e n&#227;o fazer uma previs&#227;o que &#233; um chute.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a not&#237;cia &#233; sempre constru&#237;da assim: &#8216;Ind&#250;stria espera 30% de aumento nas vendas de carro'. Ent&#227;o o t&#237;tulo &#233; a proje&#231;&#227;o otimista, e l&#225; no meio ou l&#225; no fim que voc&#234; vai encontrar a informa&#231;&#227;o verdadeira que &#233; aquela que d&#225; uma id&#233;ia do que est&#225; acontecendo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Voc&#234; acha que a imprensa dourou a p&#237;lula do Plano Real?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: O tempo todo. Olha as vendas de Natal: n&#227;o tinham sido cois&#237;ssima nenhuma recordes. A Gazeta Mercantil e o Estad&#227;o, o maior manipulador, deram que este era o segundo melhor Natal do Real, mas baseados apenas no n&#250;mero de consultas ao SPC, que em primeiro lugar, todo mundo sabe que &#233; um dado, hoje, distorcid&#237;ssimo, porque nos &#250;ltimos tr&#234;s anos um monte de setores &#8211; postos de gasolina, farm&#225;cias... &#8211; se filiaram ao SPC ou ao Telecheque. Ent&#227;o o crescimento &#233; vegetativo, n&#227;o indica aumento. Duas manchetes do Estad&#227;o, de janeiro deste ano e do ano passado, eram iguais: vendas recordes. No entanto desde 1995, as vendas de Natal na Grande S&#227;o Paulo v&#234;m caindo, de um ano em rela&#231;&#227;o ao outro, a ponto de o Natal de 1998 estar 26% abaixo do Natal de 1995. E no per&#237;odo de Natal de todos esses anos, em janeiro, a imprensa deu que as vendas tinham sido maravilhosas. Quando os dados definitivos da Federa&#231;&#227;o do Com&#233;rcio saem, a&#237; por volta de 10, 15 de fevereiro, os jornais n&#227;o d&#227;o com destaque. V&#234;em que a queda foi de 7% ou 10% ou de 12%. A&#237; os jornais d&#227;o em uma coluna, dentro.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No ano passado, o presidente Fernando Henrique Cardoso, para variar, para gozar os catastrofistas etc. e tal, quando saiu o dado definitivo com a queda dos 12%, eu escrevi na coluna da Folha que isso tinha de ser uma dado com destaque, porque contradizia as manchetes otimistas do final do ano, porque estava levando inclusive a acreditar que estava tudo bem, e o governo, se vangloriar. Mas a mentira continua intoc&#225;vel. Este ano um gr&#225;fico da Folha mostrava claramente que n&#243;s tivemos pico em 1994, queda de 7% em 1995, em 1996 e o Natal de 1998 ficou 26% abaixo do Natal de 1994.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chega o Dia das M&#227;es, a consulta [ao SPC e ao Telecheque] sobe 30% e os jornais dizem que as vendas crescem 30%. Depois falam que caiu. Na Copa do Mundo [1998], na primeira semana de julho, as consultas do SPC subiram 29%, os jornais deram a manchete, e depois os caras venderam na verdade 20% a menos. A ind&#250;stria precisou dar f&#233;rias coletivas, e isso n&#227;o foi retificado. &#192;s vezes eu fa&#231;o palestra para empres&#225;rio, e o cara diz: &#8220;foi at&#233; bom voc&#234; falar isso, porque eu estava achando que s&#243; a minha empresa vai mal, porque tudo que a imprensa publica est&#225; maravilhoso, todo mundo est&#225; estourando e n&#227;o &#233; a realidade que eu vivo...&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Voc&#234; ouve muito isso?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Em &#225;rea empresarial sim. O cara diz: &#8220;at&#233; minha mulher fica brava, fala que s&#243; eu que sou fracassado...&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: O quadro que voc&#234; descreve &#233; um quadro de fraude com a not&#237;cia?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: &#201; um quadro de fraude. Vou dar dois exemplos que considero hist&#243;ricos: em outubro atrasado [1997], uma consultoria fez uma pesquisa sobre o endividamento do consumidor, j&#225; em fun&#231;&#227;o dos cheques pr&#233;-datados. Era um dado importante para avaliar o que acontecia na economia. O resultado da pesquisa mostrou, que em anos anteriores, o consumidor j&#225; tinha 20% do or&#231;amento comprometidos com qualquer tipo de presta&#231;&#227;o: cart&#227;o, casa pr&#243;pria, carro, etc. E naquela brincadeira do pr&#233;-datado, em 97, dobrou esse comprometimento de 20 para 40%. Ent&#227;o a inadimpl&#234;ncia j&#225; tinha passado dos 700 mil carn&#234;s para 3,5 mi a 4 mi. Na &#225;rea de cheques sem fundos, voc&#234; tinha antigamente 1,3 cheques a cada 1.000 e j&#225; est&#225; acima de dez. Quer dizer, cresceu praticamente dez vezes o n&#250;mero de cheques sem fundo, em propor&#231;&#227;o. N&#227;o quer dizer que aumentou o n&#250;mero de cheques, e que por isso aumentou o n&#250;mero de cheque sem fundos, n&#227;o. &#201; propor&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o voc&#234; j&#225; tinha um quadro de recess&#227;o da economia em outubro do ano atrasado, com uma inadimpl&#234;ncia incr&#237;vel dos carn&#234;s e dos cheques sem fundo. Sai esta pesquisa, que seria um indicador das tend&#234;ncias de consumo, sobre o grau de endividamento das fam&#237;lias, e o Estad&#227;o d&#225; a manchete assim: &#8220;Real dobra o acesso do consumidor ao cr&#233;dito&#8221;. O texto, aquela coisa, exaltando as virtudes do Real: 'agora com a estabilidade da moeda, as fam&#237;lias j&#225; conseguem planejar seu or&#231;amento, e elas, com isso, est&#227;o tendo mais chances de tomar empr&#233;stimo'. A pesquisa mostrava que o problema era o grau de endividamento das fam&#237;lias. Foi transformada em mais uma pe&#231;a laudat&#243;ria do Real. &#201; evidente que isto &#233; fraude.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A outra &#233; mais incr&#237;vel... Eu acho que a gente teve um processo de lavagem cerebral, nos &#250;ltimos anos, contra as estatais, contra o Estado, contra o empres&#225;rio nacional. Vem desde o Collor a hist&#243;ria de que ele &#233; ineficiente, que ficou acomodado com o protecionismo, etc. ... Ent&#227;o, saiu um estudo magn&#237;fico, com o quanto do Fundo de Garantia foi roubado dos trabalhadores nos sucessivos choques. Os dep&#243;sitos perderam nada mais nada menos que de 90 a 95% do valor. Este estudo mostrava exatamente o autoritarismo e a les&#227;o dos direitos do trabalhador, que &#233; o dono do dep&#243;sito do FGTS. A manchete da Gazeta Mercantil, que tinha uma mat&#233;ria maravilhosa da rep&#243;rter, foi assim: 'Estado &#233; mal administrador da poupan&#231;a do trabalhador', como se o Estado tivesse aplicado a poupan&#231;a e sofrido preju&#237;zo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na manipula&#231;&#227;o da informa&#231;&#227;o, com essa t&#233;cnica de n&#227;o p&#244;r no lide, p&#244;r no p&#233; a informa&#231;&#227;o negativa, n&#243;s temos a invers&#227;o da verdade. N&#227;o &#233; s&#243; manipula&#231;&#227;o, &#233; fraude mesmo contra o leitor e contra a opini&#227;o p&#250;blica.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: A imprensa atua como partido pol&#237;tico, ideol&#243;gico, com uma causa, e trai o seu papel de informar o contribuinte?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Eu acho que a imprensa fechou a favor do governo do FHC. Primeiro, as empresas jornal&#237;sticas, como ia haver privatiza&#231;&#227;o da telefonia, e elas acreditam que o futuro seja da telem&#237;dia, da internet, que o jornal impresso ser&#225; substitu&#237;do a longo prazo pela telem&#225;tica, como iam haver os leil&#245;es, como eram concess&#245;es, tenho a impress&#227;o de que as empresas jornal&#237;sticas quiseram apoiar o governo com medo de ficar de fora. Todas as editoras se candidataram.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quanto aos jornalistas, houve o tal fen&#244;meno que voc&#234; viu em outras &#233;pocas tamb&#233;m, que &#233; o jornalista formador de opini&#227;o se envergonhar de n&#227;o estar abalando a linguagem da superestrutura. Ele quer sentir psicologicamente que faz parte do c&#237;rculo do poder e do c&#237;rculo da modernidade. Alguns mais c&#237;nicos dizem que existe uma parte muito lucrativa nesta atitude. A contrapartida de voc&#234; n&#227;o fechar com o c&#237;rculo do poder &#233; voc&#234; ter problemas de emprego.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: O sujeito deixa de ser jornalista quando passa a fazer isso?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Eu at&#233; os chamo de deformadores de opini&#227;o. Uma coisa &#233; o cara discutir se a taxa de juros realmente precisa subir 10% ou n&#227;o. Outra &#233; ele esconder da sociedade, como a imprensa fez o tempo todo, que o Real s&#243; n&#227;o explodiu muito antes, por que o Banco do Brasil estava vendendo d&#243;lar no mercado, correndo o risco de preju&#237;zos fant&#225;sticos. Os fundos de pens&#227;o, criminosamente, foram postos pelo governo para comprar e vender a&#231;&#245;es para segurar as bolsas. Quer dizer, quando um jornalista esconde esse tipo de informa&#231;&#227;o, e a imprensa escondeu largamente nos &#250;ltimos anos, n&#227;o me venha com discuss&#227;o filos&#243;fica de: &#8216;qual &#233; a verdade?'. Isso &#233; conversa fiada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Existe uma verdade factual.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Existe um fato que eles est&#227;o, desonestamente, escondendo, encobrindo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: E essa novela do Itamar Franco, que a grande imprensa acusou de ser o estopim que arruinou o Plano Real, chamando-o inclusive de &#8216;palha&#231;o'?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Isso &#233; mais uma tremenda desonestidade da imprensa. Desde dezembro, o Brasil perdeu de novo 5 bilh&#245;es de [d&#243;lares de] capital estrangeiro. Vinha perdendo a m&#233;dia de 200 milh&#245;es por dia e no dia 29 de dezembro houve a sa&#237;da de 1 bilh&#227;o de d&#243;lares. O que &#233; essa sa&#237;da? A imprensa tem confundido a opini&#227;o p&#250;blica quando fala em &#8216;fuga de d&#243;lares'. Leva a sociedade a pensar que tinha um especulador aqui que tinha aplicado na Bolsa, num fundo de renda fixa, e que de repente come&#231;ou a sair d&#243;lar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Muito antes do Itamar, a gente perdeu 20 bi em setembro e outubro. N&#227;o tem nada a ver com o Itamar. A&#237; veio o acordo com o FMI, fez-se uma relativa calma mas em dezembro j&#225; voltou a perder peso. E todos os jornalistas da &#225;rea, e os donos de jornais, est&#227;o cansados de saber que o certo seria dizer perda de d&#243;lares. Grandes empresas brasileiras, que tinham tomado empr&#233;stimos l&#225; fora, ou os bancos n&#227;o renovaram ou elas pr&#243;prias, com medo de uma desvaloriza&#231;&#227;o, procuraram pagar os empr&#233;stimos antes da desvaloriza&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, tem um dado de que ningu&#233;m mais fala, o que eu acho uma esculhamba&#231;&#227;o: quando come&#231;ou, por que o pa&#237;s perdeu d&#243;lar em setembro, outubro, novembro e dezembro? De um lado os bancos internacionais, realmente, j&#225; estavam parando de emprestar ao Brasil. O empr&#233;stimo que ia vencendo, t&#237;tulos que iam vencendo, eles n&#227;o renovavam. A empresa daqui tinha que pegar dinheiro, chegar do Banco do Brasil, comprar d&#243;lares e mandar para l&#225;. A partir de certo ponto, com a crise brasileira e os t&#237;tulos todos presos l&#225; fora, as empresas brasileiras conseguiam empr&#233;stimo emitindo b&#244;nus, que &#233; uma promiss&#243;ria depositada no mercado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com a crise, o valor desses t&#237;tulos caiu, como o t&#237;tulo do governo brasileiro caiu. Ent&#227;o teve empresa que pegou real, transformou em d&#243;lar, levou o d&#243;lar l&#225; fora, para recomprar os pr&#243;prios pap&#233;is das d&#237;vidas delas a um custo mais baixo, com desconto de 30% a 40%.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma informa&#231;&#227;o que desapareceu do notici&#225;rio foi que na &#233;poca &#8211; outubro, novembro &#8211; da discuss&#227;o com o FMI, se dizia que os banqueiros internacionais, tamb&#233;m, iam fazer um pacote de ajuda de uns 15 a 20 bilh&#245;es [de d&#243;lares] para o Brasil. Os bancos ficam dizendo que agora n&#227;o est&#227;o renovando, porque vai haver um &#8216;pacot&#227;o' do FMI, do governo, e eles dizem tamb&#233;m vamos fazer um &#8216;pacot&#227;o', ent&#227;o n&#227;o tem sentido a gente ficar renovando esse empr&#233;stimos individualmente e depois entrarmos no &#8216;pacot&#227;o', como eles dizem. Eles chamam de &#8216;disposi&#231;&#227;o' o total que t&#234;m emprestado para cada pa&#237;s. Ent&#227;o a &#8216;disposi&#231;&#227;o' com o Brasil vai ficar muito grande.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; falam do Itamar, ningu&#233;m se lembra que os banqueiros foram cancelando os empr&#233;stimos para as empresas brasileiras, inclusive fora do prazo, em setembro, outubro, novembro e dezembro. Falaram que iam fazer um &#8216;pacot&#227;o' para o Brasil, e n&#227;o fizeram. O bilh&#227;o [de d&#243;lares] que saiu dia 29 de dezembro, uma parte desse bilh&#227;o foi a Globo que pagou antecipadamente um empr&#233;stimo dela. Ent&#227;o voc&#234; tem, de um lado, os d&#243;lares que sa&#237;ram muito antes da posse do Itamar. Antes de ele falar qualquer coisa, o Brasil tinha perdido 20 bilh&#245;es em setembro e outubro e perdeu mais 5 bilh&#245;es em dezembro. No dia 24 de dezembro o governo retificou os dados da balan&#231;a comercial: dizia que tinha dado um buraco de 400 milh&#245;es [de d&#243;lares] em outubro, e retificou o buraco de outubro para 1 bilh&#227;o, e j&#225; divulgou o buraco de novembro, que era de mais 1 bilh&#227;o. Ele est&#225; falando de exporta&#231;&#227;o menos importa&#231;&#227;o. Apesar da restri&#231;&#227;o, as importa&#231;&#245;es em novembro e dezembro superaram as exporta&#231;&#245;es em 1 bilh&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As empresas foram for&#231;adas a pagar os seus empr&#233;stimos, ou, espertamente, j&#225; esperavam a maxi, por causa de todos esse indicadores negativos. Eu nem estou entrando nessa hist&#243;ria de que teve vazamento, porque ao longo de tr&#234;s meses todo mundo estava esperando a maxi. N&#227;o tem nada a ver com o Itamar. Voc&#234; via nos jornais da &#233;poca que as grandes empresas &#8211; fabricantes de artigos de limpeza, detergentes, sab&#227;o e sab&#227;o em p&#243;, ou de latic&#237;nios &#8211; estavam encurtando o prazo. Se antes elas davam trinta dias ao varejo, agora davam vinte e depois dez dias. O que &#233; isso? Estavam todas fazendo ao contr&#225;rio com o fornecedor. O cara fornecia a mat&#233;ria-prima e se antes elas pagavam em um m&#234;s, estavam querendo pagar em dois. O que &#233; isso? Estava todo mundo fazendo caixa, exatamente para comprar d&#243;lar. N&#227;o precisa comprar a c&#233;dula. Vai no mercado futuro e fala: &#8216;eu quero comprar 100 milh&#245;es, para me entregar no dia 25 de dezembro; estou pagando R$1,23'.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Qual &#233; a vantagem dessa jogada? Eles j&#225; estavam esperando o d&#243;lar a R$ 1,60 ou R$1,70 na data do vencimento do contrato. Quem vendeu para esses grandes grupos foi o Banco Central, o Banco do Brasil, foi o governo. Toda essa jogada s&#243; aparece no meio das colunas do notici&#225;rio econ&#244;mico, quando as manchetes deviam dar isso: &#8220;Empresas mandam d&#243;lares para fora para quitar suas d&#237;vidas&#8221;, &#8220;Bancos n&#227;o renovam os empr&#233;stimos&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu acho que o Itamar teve uma grande infelicidade porque o governo e a imprensa j&#225; tinham tentado dizer que a crise brasileira era produto da Crise Asi&#225;tica, depois produto da Crise Russa, e agora, produto do ltamar. Deu o grande pretexto em termos de manipula&#231;&#227;o da informa&#231;&#227;o do povo. &#201; muito mais f&#225;cil o cara entender que o governador falou que n&#227;o ia pagar e que por isso desabou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que Minas Gerais tinha a pagar l&#225; fora eram 100 milh&#245;es de d&#243;lares. Itamar falou que n&#227;o tem dinheiro para pagar, nem o interno e nem o externo. Ent&#227;o, veja bem, no caso da crise russa, por exemplo, que foi at&#233; dia 19 de agosto, a bolsa em maio e junho j&#225; tinha perdido 500 milh&#245;es [de d&#243;lares], em cada m&#234;s. Em julho, meados, de julho, o diretor do FMI, veio ao Brasil, deu uma declara&#231;&#227;o que s&#243; a Folha publicou em duas colunas na primeira p&#225;gina, os outros jornais praticamente n&#227;o deram. Ele disse, dia 18 de julho, em Bras&#237;lia, que o Brasil estava com grande d&#233;ficit fiscal, 7% do PIB na &#233;poca, e agora passou de 8%, e que estava recorrendo a capital especulativo para cobrir os rombos, e que ia ter que fazer o ajuste fiscal, porque de uma hora para outra, como eles falam, a percep&#231;&#227;o de mercado podia mudar e os capitais poderiam ir embora.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Percep&#231;&#227;o de mercado &#233; o qu&#234;? De repente, os investidores, os banqueiros podem dizer: &#8216;esse pa&#237;s n&#227;o v&#227;o conseguir pagar suas contas, ent&#227;o vamos cair fora, porque vai vir uma desvaloriza&#231;&#227;o e n&#243;s vamos ter preju&#237;zo'. E esse diretor do FMI ainda fala que talvez o governo n&#227;o conseguisse fazer o ajuste antes de outubro, por causa das elei&#231;&#245;es, quer dizer, o FMI, j&#225; sabia que o governo estava quebrado em julho. Ele falou assim &#8216;voc&#234;s v&#227;o rolando a&#237;, para o FHC se reeleger, mas de qualquer forma vai ter que fazer'.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos os dados mostram que no final de maio o governo brasileiro n&#227;o conseguiu vender. &#201; assim: v&#227;o vencendo t&#237;tulos e ele tem que vender outros para rolar, pagar os que est&#227;o vencendo. O governo n&#227;o conseguiu vender os t&#237;tulos. Banqueiro n&#227;o queria comprar t&#237;tulo com juro prefixado em 19% a 20%. Depois ia para 40% e o banco teria preju&#237;zo, porque na verdade o banco n&#227;o compra esses t&#237;tulos com o dinheiro dele, ele &#233; administrador de um fundo, que &#233; dinheiro de todos os clientes que aplicaram nessa conta.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No final de maio o governo teve que mudar. Em vez de juro prefixado, combinado antes, o governo teve que aceitar, a p&#243;s-fixa&#231;&#227;o que &#233; uma esp&#233;cie de corre&#231;&#227;o monet&#225;ria posterior, e passou a vender maci&#231;amente t&#237;tulos com corre&#231;&#227;o cambial. O que &#233; corre&#231;&#227;o cambial? Havendo uma maxidesvaloriza&#231;&#227;o, o valor do t&#237;tulo muda de acordo com o resultado dessa maxi. E com essa maxi que teve a&#237;, eles v&#227;o ter um lucro alto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; deu manchete de capa: &#8220;Banco Central cede ao mercado e abaixa juro p&#243;s-fixado&#8221;. Foi a &#250;nica vez que isso saiu como manchete de jornal. Depois desapareceu, quer dizer, o governo j&#225; estava sem condi&#231;&#245;es, j&#225; sabia que era uma bola de neve, o governo come&#231;ou a vender os t&#237;tulos dele por esses juros malucos. J&#225; estava uma bola de neve porque na medida que tinha a press&#227;o do Real, j&#225; tinha alta nas cota&#231;&#245;es do d&#243;lar no mercado futuro, as empresas j&#225; estavam mandando dinheiro para fora para quitar os empr&#233;stimos, os bancos j&#225; n&#227;o estavam renovando os empr&#233;stimos, os investidores estavam fugindo das bolsas, os juros subiam naquela tentativa cega de segurar o d&#243;lar, com isso subiam os juros que o governo ia pagar sobre seus t&#237;tulos. Ent&#227;o a bomba j&#225; est&#225; com o estopim aceso desde maio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Neste quadro, a imprensa coloca nos ombros do governo Itamar Franco [de Minas Gerais] a responsabilidade pela crise...Voc&#234; perguntou se a manipula&#231;&#227;o da informa&#231;&#227;o n&#227;o tinha chegado a um pouco de fraude. &#201; claro, isso &#233; uma fraude contra a opini&#227;o p&#250;blica. Porque a imprensa continua a dar a id&#233;ia de que tudo teria sido diferente se n&#227;o tivesse surgido o Itamar. Ent&#227;o na verdade, a crise continua a ser mal avaliada pela sociedade.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: O que aconteceu no dia 13, para que o governo tomasse a decis&#227;o de mexer na banda cambial?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: O governo foi for&#231;ado a mexer na banda porque a sa&#237;da de d&#243;lar continuava na base de 200 a 300 milh&#245;es por dia. Eles v&#234;m com cada hist&#243;ria da carochinha, que os colunistas amigos do poder, esse caras que est&#227;o por a&#237;, publicaram. Mat&#233;rias de bastidores dizendo que j&#225; estavam discutindo, que iam adotar em mar&#231;o, ou talvez em abril, a mudan&#231;a de banda. &#201; t&#227;o hist&#243;ria da carochinha que algumas provid&#234;ncias que o Banco Central tinha que tomar agora em rela&#231;&#227;o ao mercado ele n&#227;o sabia. A pr&#243;pria ajuda do FMI, para estabelecer a pol&#237;tica cambial, os caras dizem, vergonhosamente, que eles n&#227;o t&#234;m uma estrat&#233;gia. Veja bem, se voc&#234; fala: &#8216;vamos mudar a banda em mar&#231;o', os economistas sabem quais s&#227;o os motivos para mudar, e a estrat&#233;gia j&#225; prev&#234; quais as poss&#237;veis conseq&#252;&#234;ncias, como enfrent&#225;-las, como minimizar os riscos...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o &#233; evidente que esse governo continuava apostando que segurava, que a partir do momento que veio o pacote do FMI, a verdade &#233; essa, isso n&#227;o est&#225; sendo lembrado, tamb&#233;m, que se estourava, j&#225; que era uma inje&#231;&#227;o de 41 bilh&#245;es [de d&#243;lares], que 10 bilh&#245;es foram entregues imediatamente, que as reservas estavam em cima apesar das sa&#237;das. A&#237;, vamos dizer, o pacote dos banqueiros n&#227;o vinha, porque eles sabem que a situa&#231;&#227;o brasileira n&#227;o se resolve nem com a maxi, ent&#227;o, voc&#234; continua com o mesmo fluxo de sangria de d&#243;lares, ao contr&#225;rio de tudo que se esperava que acontecesse &#8211; o que se esperava eu digo dos jornalistas governamentais, dos triunfalistas, de alguns colunistas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A imprensa, os jornalistas econ&#244;micos, os jornais... fecharam os olhos &#224; nossa trajet&#243;ria, que era do caos. N&#227;o por voluntarismo, mas porque todos os dados mostravam isso. Eu acho que era a hora dos jornais, at&#233; pelos males que fizeram ao pa&#237;s, mostrarem a real natureza da crise, e mostrar que o que tem que mudar &#233; o modelo. Por que mudar o modelo? Durante esse tempo todo a opini&#227;o p&#250;blica foi convencida pela imprensa de que importar era muito bom, que importando obrigava o empresariado nacional a melhorar sua qualidade, produtividade e baixar o pre&#231;o. S&#243; que voc&#234; viu, nas entrevistas que a Gazeta Mercantil publicou dos diretores de empresas de telefonia, eletroeletr&#244;nicos, siderurgia, nos dias da crise &#8211; para avaliar quem tinha muito preju&#237;zo com a desvaloriza&#231;&#227;o do real, por causa dos componentes e pe&#231;as importadas &#8211;, que quem importa menos, importa 85% das pe&#231;as. Tem gente que importa 100%, inclusive. Fog&#227;o mesmo, a multinacional que comprou a tradicional Fog&#245;es Dako, hoje importa tudo. Quando voc&#234; importa 85% de pe&#231;as, significa que voc&#234; n&#227;o s&#243; destruiu a f&#225;brica de pe&#231;as daqui, como voc&#234; importou a produ&#231;&#227;o do metal, que era usado nas pe&#231;as, pl&#225;sticos, fios, borracha... todas as mat&#233;rias-primas. E a&#237; acho altamente edificante as entrevistas desses diretores, dizendo: &#8216;&#233; realmente vamos ter problema porque n&#243;s importamos 85% ou porque importamos 100%'.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em primeiro lugar, com essa abertura, o pessoal fica pensando que s&#243; foi trazido camiseta da Cor&#233;ia, ventilador e &#243;culos de Miami, e n&#227;o &#233; isso. Voc&#234; tem uma abertura para a importa&#231;&#227;o, que destruiu a produ&#231;&#227;o local de pe&#231;as e componentes e at&#233; mat&#233;rias-primas tamb&#233;m, de a&#231;o, de pl&#225;stico, de borracha, de tudo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que se disse sempre? Que n&#243;s est&#225;vamos globalizando, e que era tend&#234;ncia mundial, que era preciso preparar nossas empresas para enfrentar a concorr&#234;ncia. S&#243; que um dado que eu repeti ao longo desses quatro anos &#8211; e n&#227;o precisa entender nada do que est&#225; a&#237;, mas p&#245;e um dado na cabe&#231;a, um s&#243;. Ficam dizendo que a ind&#250;stria nacional era superprotegida e por isso o governo reduziu as tarifas, impostos de importa&#231;&#227;o. No Brasil, esse governo a&#237;, reduziu a maioria desses produtos e n&#227;o se paga nem um tost&#227;o para entrar aqui, e a&#237; &#233; o que eles chamam de tarifa modal. Tarifa modal &#233; aquela &#233; cobrada no maior n&#250;mero de produtos, no Brasil, a maioria dos produtos entra hoje sem pagar um tost&#227;o, ou 0% de imposto. No Jap&#227;o &#8211; sobre quem todo mundo tamb&#233;m &#233; enganado, todo mundo acha que o Jap&#227;o &#233; liberal e tem o mercado aberto, e &#233; o contr&#225;rio, o Jap&#227;o &#233; ultraprotegido &#8211;, a tarifa que predomina l&#225; &#233;, quer dizer, um produto brasileiro que entrar l&#225;, a maioria deles vai ter que pagar 16%, e na Cor&#233;ia &#233; 23%.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, nesse quatro anos, o governo e os meios de comunica&#231;&#227;o mentiram insistentemente, que era preciso reduzir os impostos, porque no resto do mundo era assim. &#201; o contr&#225;rio. Conseq&#252;&#234;ncia disso, o tempo todo, o governo e os meios de comunica&#231;&#227;o desmoralizaram o empres&#225;rio nacional dizendo que ele era ultraprotegido, quando os dados estavam para mostrar que n&#227;o &#233; verdade, l&#225; fora &#233; que se protege. Destru&#237;ram, por exemplo, o algod&#227;o, porque reduziram a tarifa para 0%. E depois colocaram em 3%.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Segundo lugar, as importa&#231;&#245;es s&#227;o financiadas em 180 dias, ou 360 dias, ou 400 dias, com juros de 8% ao ano, e esse governo n&#227;o instalou um mecanismo de cr&#233;dito para a empresa nacional, que &#233; obrigada a pagar juros de 40% a 50% ao ano para enfrentar [os importados]. E tem mais: o Banco do Brasil empresta para voc&#234; importar &#224;s taxas l&#225; de fora, a 8% ao ano. Quer dizer, ele empresta para o produtor aqui &#224; taxa de mercado de 40% ao ano, e empresta para quem quiser importar l&#225; de fora &#224; taxa de 8%.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A crise brasileira come&#231;a assim. N&#243;s t&#237;nhamos um saldo de 12 bilh&#245;es de reais, ou seja, export&#225;vamos 12 bilh&#245;es a mais do que import&#225;vamos, por ano. Era um dos maiores saldos comerciais do mundo, e passamos a ter um buraco de 8 bilh&#245;es por ano, com a destrui&#231;&#227;o da produ&#231;&#227;o local e dos empregos locais.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em segundo lugar, as remessas de lucros e de juros &#8211; porque as multinacionais vieram para c&#225; &#8211;, as remessas de lucros e de juros eram de 700 milh&#245;es de d&#243;lares por ano seis ou sete anos atr&#225;s, no ano passado essa remessa bateu os 7 bilh&#245;es de d&#243;lares. Quer dizer, cresceram dez vezes.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Inclusive, as assist&#234;ncias t&#233;cnicas t&#234;m malandragem. O Severo Gomes, quando era ministro, combateu, mas as malandragens voltaram, autorizadas pelo governo, malandragem oficial. Ent&#227;o, quando &#233; que o rombo come&#231;a? O rombo come&#231;a com aumento de gastos, com importa&#231;&#245;es, com o buraco da balan&#231;a comercial, com importa&#231;&#245;es muito acima das exporta&#231;&#245;es, com as remessas que cresceram fantasticamente, com os fretes que destru&#237;ram a Marinha nacional &#8211; e que voc&#234; est&#225; pagando frete para navio estrangeiro, que foram para a faixa de 4 bilh&#245;es de d&#243;lares por ano. E o turismo alucinado, que, exatamente quando voc&#234; tem esse processo de concentrar renda, tem gente ganhando muito dinheiro, viaja mais do que nunca e gasta mais do que nunca l&#225; fora.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quer dizer, voc&#234; passou a precisar oferecer vantagens, para trazer d&#243;lar especulativo para c&#225;, para cobrir o rombo concreto, que &#233; o rombo causado pelas importa&#231;&#245;es, rombo causado pelas remessas de lucros e dividendos, de assist&#234;ncia t&#233;cnica das multinacionais, que &#233; o rombo causado pelos juros provocados por esses capitais, e os fretes, e o turismo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nada disso est&#225; sendo colocado, a imprensa desviou a aten&#231;&#227;o nesse debate todo de novo. A desvaloriza&#231;&#227;o era um processo inevit&#225;vel j&#225; devido a esses dados. Somando o buraco da balan&#231;a comercial, mais as remessas etc., no chamado balan&#231;o de contas correntes, o buraco, hoje, &#233; de 35 bilh&#245;es de d&#243;lares por ano.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Foi isso que levou &#224; crise do Real, porque todo ano o Brasil est&#225; acumulando buracos de 35 bilh&#245;es de d&#243;lares por ano, que v&#227;o se somando a uma d&#237;vida que j&#225; existe. &#201; um buraco verdadeiro, um empr&#233;stimo n&#227;o resolve nada. E isso n&#227;o est&#225; sendo dito. O pr&#243;prio governo agora quer demonstrar otimismo. O governo inclusive alegava que ele n&#227;o podia elevar os impostos de importa&#231;&#227;o, inclusive por causa de compromissos assumidos com a OMC [Organiza&#231;&#227;o Mundial do Com&#233;rcio], agora, o pr&#243;prio governo est&#225; desmentindo a mentira que contou durante quatro anos, com a ajuda dos jornais. Est&#225; dizendo que n&#227;o. Que n&#243;s assumimos o compromisso de 35%, no m&#225;ximo, e que na m&#233;dia n&#243;s estamos s&#243; com 16% e que d&#225; para subir aos 35% tranq&#252;ilamente sem quebrar nenhum compromisso internacional.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Veja a mentira. Primeiro que nossas tarifas n&#227;o eram iguais ao resto do mundo cois&#237;ssima nenhuma, eram muito mais baixas. E segundo, dizer que n&#227;o podia aumentar, pelo compromisso internacional. E agora est&#225; dizendo que &#233; mentira, mentira deles mesmos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Como &#233; que voc&#234; analisa a cobertura depois da ru&#237;na do Plano Real? O que vem &#224; tona &#233; a infla&#231;&#227;o...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: A imprensa n&#227;o est&#225; discutindo com a sociedade, de novo, como &#233; que as importa&#231;&#245;es evolu&#237;ram, e como que as remessas de lucros das multinacionais evolu&#237;ram. Voc&#234; fez a desvaloriza&#231;&#227;o e da&#237;, esses problemas n&#227;o desapareceram, e ao concentrar o notici&#225;rio na poss&#237;vel volta da infla&#231;&#227;o, automaticamente a imprensa mais uma vez colocou a opini&#227;o p&#250;blica do lado do governo, ningu&#233;m vai negar que o pavor da popula&#231;&#227;o &#233; a volta da indexa&#231;&#227;o, &#233; a volta da infla&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Agora, voc&#234; podia dizer coisa assim, numa grande desvaloriza&#231;&#227;o, voc&#234; pode ter at&#233; uma infla&#231;&#227;o de 20 a 30% no m&#234;s, n&#227;o quer dizer que ela vai continuar nesse n&#237;vel. Voc&#234; deve se lembrar que, na Crise Russa, na primeira quinzena de setembro, houve um terremoto na economia, porque desorganizou, a popula&#231;&#227;o correu para fazer compra, eles estavam com problemas de abastecimento por causa de uma seca l&#225;, ent&#227;o, teve uma alta de 43% na primeira quinzena de setembro. E a imprensa, que no caso da R&#250;ssia e da &#193;sia ela &#233; todinha distorcida tamb&#233;m, fica fazendo o jogo dos EUA, previa que a infla&#231;&#227;o russa seria de 100% ao ano. S&#243; numa quinzena, foi 43% s&#243; que n&#227;o foi [de 100%], foi de 58%. Depois de subir 46% numa semana, estabilizou e alguns pre&#231;os at&#233; recuaram.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; &#243;bvio, acho claro que a desvaloriza&#231;&#227;o ocorrida com o Real &#233; exagerada, ela tem um componente especulativo sim, e acho que deve refluir para os n&#237;veis que o mercado falava, ou seja, uns 20 a 25%, ou 30%. Agora, se voc&#234; n&#227;o rediscutir o modelo todo, voc&#234; vai ter daqui a um m&#234;s e meio, dois, a mesma coisa, e n&#227;o vai parar com esses altos e baixos do Real. Por qu&#234;? Porque a gente sabe que com esses juros a&#237;, o teto do governo vai estourar, mais ainda.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Voc&#234; est&#225; dizendo que a imprensa, de m&#227;os dadas com o governo, coloca o foco na infla&#231;&#227;o, porque &#233; um fantasma do povo, e n&#227;o apresenta nem discute as causas do problema?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Sim. &#201; muita sacanagem dizer que o frango subiu 7% [devido &#224; crise] sendo que ele n&#227;o come ra&#231;&#227;o importada. Em primeiro lugar o frango estava a 90 centavos [de real] no atacado em dezembro; em janeiro tinha despencado, e por causa da recess&#227;o e tudo mais estava 60 centavos, depois voltou para 80, que &#233; o pre&#231;o dele em janeiro do ano passado. Dizer que as empresas n&#227;o podem reajustar seus pre&#231;os, aquelas que t&#234;m coisas importadas, isso mais uma vez &#233; aquilo, &#233; querer negar...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A meu ver, a atitude do governo tem que ser: a gente teve uma desvaloriza&#231;&#227;o, a gente chama de crise, a gente trata com grandes problemas que levaram o mercado a se retrair, agora vamos corrigir tudo, e eu, governo, presidente da Rep&#250;blica, eu entendo que a desvaloriza&#231;&#227;o causou problemas &#224;s empresas que tinham d&#237;vidas, porque as grandes empresas, fizeram aquilo que n&#243;s est&#225;vamos falando agora, essas se protegeram, essas lucraram, e as outras n&#227;o. Ent&#227;o, qual a obriga&#231;&#227;o do governo? &#201; minimizar os efeitos da desvaloriza&#231;&#227;o sobre as empresas. O governo tem que ser parceiro da sociedade. Em todos os segmentos, tem que ser parceiro da sociedade, dizer, &#8216;vamos ver o que n&#243;s podemos fazer', n&#227;o &#233; chegar e fazer amea&#231;as para o empres&#225;rio, como se ele estivesse especulando.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; obvio... Se o empres&#225;rio tem aumento de custo por causa dos componentes importados, eu nem vou entrar naquela coisa complicada de falar de pre&#231;o relativo, que quando tem uma infla&#231;&#227;o todo mundo quer recompor o seu poder de compra relativo, ningu&#233;m quer abrir m&#227;o, um ganhou e eu perdi, isso a&#237; j&#225; vai complicar. Mas quem teve aumento direto de custo, tem que ir no governo, discutir com ele como reduzir... Esse setor teve um problema de aumento, ent&#227;o vamos reduzir primeiro para ver o tanto que ele importa, para ele sofrer menos e vamos dar uma vantagem para ele, uma linha de cr&#233;dito para ele, para ele n&#227;o pagar os juros de mercado. Juntos. N&#227;o, simplesmente, juntar numa ca&#231;a &#224;s bruxas, acusando os empres&#225;rios de ser especuladores.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Como se n&#227;o tivesse nada com isso?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Vamos at&#233; esquecer o passado, falar: &#8216;ah, dedicaram quatro anos e perderam tudo'. Isto n&#227;o interessa, o que interessa &#233;: o que estava errado? O que precisar ser mudado? O que n&#243;s vamos fazer para minimizar os efeitos desses erros todos?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Veja bem, com essa mania de ser otimistas, o governo diz e a imprensa repete, que as importa&#231;&#245;es v&#227;o cair 10%, e as exporta&#231;&#245;es v&#227;o subir 10%, e que com isso esse rombo do Brasil de 35 bilh&#245;es por ano, este ano cairia para alguma coisa de 16, 18 bilh&#245;es. A&#237;, mais uma vez, &#233; ignorar a realidade.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como a gente disse h&#225; pouco, as importa&#231;&#245;es maci&#231;as que as multinacionais fazem hoje, chegam a 85%, a 100% do teto dos componentes importados. Essa pol&#237;tica de importa&#231;&#227;o de uma f&#225;brica dessas n&#227;o depende do Real, depende de uma decis&#227;o da matriz, &#233; ela que fala o que voc&#234; vai comprar. A Fiat que fala: &#8216;voc&#234; vai comprar pe&#231;a da nossa f&#225;brica da Argentina, vai comprar volantes da nossa f&#225;brica de n&#227;o sei onde'. E at&#233; talvez nem seja justo falar da Fiat, porque ela &#233; quem vem cumprindo os contratos de exporta&#231;&#227;o, ao contr&#225;rio das outras...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, primeiro, voc&#234; n&#227;o ter um controle dos &#237;ndices de importa&#231;&#227;o dessas empresas significa que, mesmo com o Real desvalorizado, elas n&#227;o v&#227;o deixar de importar as pe&#231;as que a matriz mandar s&#243; porque o Real foi desvalorizado. E tem uma coisa mais grave ainda, porque essas empresas todas t&#234;m tidos financiamento do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&#244;mico e Social], para instalar f&#225;brica aqui que n&#227;o &#233; f&#225;brica nada, &#233; tudo linha de montagem.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Pelo que voc&#234; fala do BNDES, os esc&#226;ndalos, ali, n&#227;o s&#227;o fitas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: N&#227;o. O BNDES liberou em dezembro 220 milh&#245;es [de reais] para um grupo que comprou uma ferrovia no Brasil, esse grupo tinha entrado num cons&#243;rcio, comprou a Fepasa [Ferrovias Paulistas SA] com 20% de entrada, ele tinha 10% do valor total, ou algo como 6 milh&#245;es [de reais], ele pegou um empr&#233;stimo de 220 milh&#245;es. Acho que o Congresso tinha que saber... J&#225; a Light deve 1 bilh&#227;o [de reais] para o BNDES, a Telef&#244;nica deve 500 milh&#245;es.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que a sociedade tem que saber &#233; que essas pol&#237;ticas t&#234;m que mudar. Quando tem financiamento no Nordeste, a Sudene [Superintend&#234;ncia de Desenvolvimento do Nordeste] libera recursos com base em um cronograma de execu&#231;&#227;o de obras. Em um empr&#233;stimo de 100 milh&#245;es de reais, a empresa prev&#234; que vai fazer o alicerce da f&#225;brica em um m&#234;s e que isso custa 10, quando ela termina de fazer o alicerce, ela recebe esses 10. Ent&#227;o, o governo n&#227;o pode liberar 220 milh&#245;es de uma vez na outra situa&#231;&#227;o. Ele j&#225; nem devia emprestar para esse grupo que pretensamente comprou a ferrovia. E, enquanto isso, o governo cancelou este ano o financiamento de 250 milh&#245;es de reais para a compra de sementes para 4 ou 5 milh&#245;es de fam&#237;lias plantar. O governo tirou esse financiamento.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esse problema do ajuste fiscal, eu gostaria de falar alguma coisa dele, mais &#224; frente. Ent&#227;o, &#233; um governo que empresta 220 milh&#245;es para um &#250;nico grupo que teoricamente comprou uma ferrovia estatal e que cancela verba para financiar 4 milh&#245;es de agricultores, com verba de 250 milh&#245;es de reais, que voltariam em 6 ou 7 meses, t&#227;o logo a colheita fosse feita. Al&#233;m da pol&#237;tica do BNDES, de emprestar para quem monta a f&#225;brica para imediatamente ir importando tudo, sem nenhum condicionamento de que ele tem que usar tanto de pe&#231;a nacional.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Veja bem, logo depois da crise, o Jap&#227;o j&#225; determinou a venda de equipamentos para uma refinaria aqui. A Espanha tamb&#233;m estava oferecendo financiamento ligados a programas de irriga&#231;&#227;o para o Nordeste... A gente tem importa&#231;&#227;o de ventiladores, badulaques, essas coisas. N&#243;s temos uma pol&#237;tica viciada por importa&#231;&#227;o, e quando o BNDES empresta para empresas que tem 100% de componentes importados, ou 85% de importados, v&#227;o exigir que elas fa&#231;am encomendas aqui? Outro absurdo: saiu uma nota nos jornais h&#225; uns tr&#234;s dias, as montadoras [de autom&#243;veis] n&#227;o est&#227;o cumprindo as metas de importa&#231;&#227;o delas. Acho que o Sindicato dos Metal&#250;rgicos tamb&#233;m devia falar. E, agora, saiu uma notinha que o BNDES vai financiar as exporta&#231;&#245;es delas. Simplesmente uma loucura. Por qu&#234;? O pa&#237;s est&#225; precisando de d&#243;lares, eleva juros para isso, e a montadora filiada a uma multinacional que tem condi&#231;&#245;es de trazer empr&#233;stimos do exterior para c&#225;, para financiar as pr&#243;prias exporta&#231;&#245;es, o governo isenta de trazer d&#243;lar para c&#225;?! N&#243;s n&#227;o temos uma pol&#237;tica econ&#244;mica at&#233; agora, a verdade &#233; essa. Em vez de voc&#234; obrigar a montadora a trazer, ela, o financiamento para exportar, o BNDES est&#225; estudando o financiamento para ela.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o primeiro, enquanto voc&#234; tiver esse mecanismo de cr&#233;dito para importar e pagar em at&#233; 400 dias, &#233; muito mais grave do que se pensa. Porque no caso do trigo, por exemplo, a gente produzia 6 toneladas, caiu para 3, para 2. Ent&#227;o hoje, a gente importa 6 milh&#245;es de toneladas, a gente est&#225; produzindo o equivalente a 1/4 do que a gente consome. E mesmo assim voc&#234; tem trigo nacional encalhado. No ano passado produziu s&#243; 2 milh&#245;es de toneladas, para o consumo de 8 milh&#245;es, e 1 milh&#227;o ficou encalhado por que porque eles compram o trigo, vendem, fazem a farinha, giram o dinheiro aplicam no mercado financeiro e depois que v&#227;o pagar para a Argentina. Ent&#227;o enquanto voc&#234; tiver esse mecanismo de financiamento para o cara l&#225; de fora vender para a gente, a produ&#231;&#227;o nacional, vai ficar ou encalhada, ou simplesmente substitu&#237;da pelo estrangeiro, porque o nosso empres&#225;rio n&#227;o tem como concorrer com os mecanismos de cr&#233;dito.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O BNDES tamb&#233;m vai financiar as operadoras que compraram as telef&#244;nicas, mesmo que elas usem 70% de pe&#231;as importadas. Para as parceiras que v&#234;m explorar petr&#243;leo, o governo deu isen&#231;&#227;o total de impostos para trazerem equipamento de fora, em vez de fazerem encomendas para a ind&#250;stria daqui. &#201; um setor que est&#227;o falando de investimentos de 5 a 9 bilh&#245;es de d&#243;lares por ano. Quer dizer, telecomunica&#231;&#245;es e petr&#243;leo, que s&#227;o os dois setores que t&#234;m alguns investimentos grandes previstos nesse anos, que podiam servir para colocar encomendas para a ind&#250;stria nacional e puxar a economia e voc&#234; est&#225; permitindo importa&#231;&#227;o, e at&#233; financiando essas importa&#231;&#245;es e at&#233; dando perd&#227;o dos impostos, para essas importa&#231;&#245;es. Ent&#227;o, acho, altamente problem&#225;tico que, mantidas essas diretrizes, as importa&#231;&#245;es caiam 10%.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na &#225;rea agr&#237;cola, voc&#234; tem que importar, e vai ter que continuar tendo que importar este ano: arroz, feij&#227;o, milho, trigo. Uma coisa que at&#233; a mim escandalizou, h&#225; quinze dias teve o primeiro desembarque de cacau importado na Bahia. J&#225; est&#225;vamos importando dos pa&#237;ses asi&#225;ticos mais da metade do coco usado aqui, para fazer leite de coco. Agora estamos importando cacau tamb&#233;m. E n&#243;s estamos importando por que n&#227;o tem o suficiente aqui dentro, ent&#227;o, como &#233; que voc&#234; pode falar que as importa&#231;&#245;es v&#227;o cair 10%, quando em determinados setores, o governo est&#225; apoiando a importa&#231;&#227;o, como &#233; o caso de petr&#243;leo, telecomunica&#231;&#245;es e das energ&#233;ticas tamb&#233;m?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Houve muito zum-zum-zum com as importa&#231;&#245;es de medidores feitos pela Light, no Rio, ela tamb&#233;m n&#227;o comprou nada aqui. Se o pr&#243;prio governo est&#225; apoiando as importa&#231;&#245;es, e se n&#227;o cria um mecanismo para a produ&#231;&#227;o nacional poder concorrer em termos de prazo e taxas de juro e cr&#233;dito l&#225; fora, essa queda de 10% que est&#227;o prevendo &#233; altamente problem&#225;tica. Isto tinha que ser colocado para a sociedade discutir a pol&#237;tica de financiamento, n&#227;o s&#243; do BNDES, como do Banco do Brasil, da Caixa, para incentivo da produ&#231;&#227;o nacional.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nas exporta&#231;&#245;es o mesmo racioc&#237;nio vale, sempre foi assim, as multinacionais decidem qual filial, de que pa&#237;s, vai vender o que, para que pa&#237;s. E com essa abertura voc&#234; tem a presen&#231;a maci&#231;a... tanto que eu j&#225; citei tamb&#233;m, no caso das exporta&#231;&#245;es de autom&#243;veis as nossas ca&#237;ram coisa de 40% a 50%, de outubro a dezembro, e a do M&#233;xico s&#243; 1 %. Quer dizer, voc&#234; tem mesmo uma capacidade ociosa de 40% na ind&#250;stria automobil&#237;stica mundial. Mas, al&#233;m disso, dentro desse quadro n&#227;o adianta a gente reduzir pre&#231;os e impostos, porque quem vai exportar &#233; a filial que a multinacional decide, e o M&#233;xico perde dos Estados Unidos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: A lei diz que o governo obriga a ind&#250;stria a cumprir a cota acordada?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Pois &#233;, e eu acho que os sindicatos deviam estar falando nisso, porque eles est&#227;o falando muito no emprego deles e etc. Ent&#227;o, voc&#234; n&#227;o tem uma pol&#237;tica exportadora. Eles anunciaram o apoio via Sebrae, para a pequena e m&#233;dia ind&#250;stria exportar, mas anunciam uma taxa referencial (TR) e mais 12%. Ent&#227;o, enquanto voc&#234; tem mecanismos l&#225; fora, para os caras importarem para n&#243;s, aqui voc&#234; tem o contr&#225;rio, a gente continua sem condi&#231;&#245;es de exportar realmente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Vamos falar do ajuste fiscal?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: &#201; o seguinte h&#225; um consenso a&#237; na m&#237;dia, de que o Brasil precisa fazer um ajuste fiscal, esse ajuste inclui cortes grandes de gastos na &#225;rea do governo, e dinheiro, por exemplo, de contribui&#231;&#227;o de aposentados... Voc&#234; acha isso correto?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ajuste fiscal s&#243; tem dois lados: da arrecada&#231;&#227;o e dos gastos. Eu, inclusive, vi uma comentarista econ&#244;mica da Globo falando que todo come&#231;o da crise &#233; porque o governo gasta demais, que perdeu a confian&#231;a do investidor internacional e por isso ele fugiu.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Voc&#234; n&#227;o identifica, mas eu vou identificar. &#201; a Miriam Leit&#227;o?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: &#201;. Mas eu acho injusto falar s&#243; no nome dela. Eu acho, honestamente, porque al&#233;m dos comentaristas econ&#244;micos, voc&#234; sabe que a edi&#231;&#227;o dos jornais de TV, a edi&#231;&#227;o dos jornais, a gente acabou de dizer que os jornais escondiam as coisas, os jornais davam no lide e na manchete o que n&#227;o era, escondiam no texto o que era importante...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;SG&lt;/strong&gt;: Ou seja...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB&lt;/strong&gt;: Eu acho que a&#237; &#233; uma injusti&#231;a, porque todos se comportaram de uma maneira desonesta. Ent&#227;o n&#227;o vale citar uma pessoa. Se bem que eu achei que, h&#225; tr&#234;s dias, a insist&#234;ncia dela nessa vers&#227;o, &#233; superar a pr&#243;pria desonestidade porque o buraco &#233; em d&#243;lar e n&#227;o foi por causa do D&#243;lar que o Real desabou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Veja bem, quando eles falam em cortar gastos, que o governo n&#227;o cortou, &#233; como se o governo fosse um ser abstrato que cortasse, que vivesse com muito dinheiro e pudesse cortar, s&#243; que o governo &#233; sin&#244;nimo de servi&#231;o p&#250;blico, quando o governo corta... Todo mundo fica pedindo corte, sem ver que n&#243;s j&#225; estamos numa situa&#231;&#227;o... J&#225; cortaram, por exemplo, algo que estava previsto para alguns Estados, l&#225; para mar&#231;o e abril, j&#225; cortaram as frentes de trabalho desde j&#225;. E, a&#237; sim que &#233; a pol&#237;tica de corte boa, na Pol&#237;cia Federal, a Folha publicou recentemente uma mat&#233;ria de que, na Pol&#237;cia Federal do Rio, de 16 telefones, 12 estavam cortados; de carros, de 40, tinha s&#243; cinco em funcionamento... Cortaram dinheiro de sementes da agricultura, que &#233; o que vai ser plantado, que &#233; o que vai gerar a safra, que vai criar produ&#231;&#227;o, emprego, arrecada&#231;&#227;o, consumo, renda, consumo. Ent&#227;o o que precisa n&#227;o &#233; desse ajuste hist&#233;rico, desse corte hist&#233;rico que eles est&#227;o pregando, &#233; ao contr&#225;rio. Voc&#234; cortou 5 milh&#245;es [de reais] da Secretaria de Receita Federal e perdeu 800 milh&#245;es, ou 600 milh&#245;es de arrecada&#231;&#227;o do Imposto Territorial Rural.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, quando insistem que o Estado tenha que cortar, voc&#234; j&#225; est&#225; no patamar do corte burro. A Pol&#237;cia Federal &#233; incumbida de combater fraudes com d&#243;lar, fraudes financeiras... E a Pol&#237;cia est&#225; completamente parada, a Pol&#237;cia Federal de Bras&#237;lia j&#225; teve telefones e luz cortados, porque n&#227;o tinha recebido as verbas para pagar as suas contas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, n&#227;o &#233; a discuss&#227;o que o Estado tem que reduzir seu tamanho, porque isso j&#225; est&#227;o fazendo, &#233; a destrui&#231;&#227;o do pouco que a m&#225;quina governamental devia ter para arrecadar at&#233; para exercer o seu papel de governo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o voc&#234; corta dinheiro para as sementes, para a sa&#250;de, para os hospitais universit&#225;rios, para a caridade, para a Pol&#237;cia Federal combater fraude, para o m&#237;nimo de servi&#231;os essenciais que ele teria de prestar, e, nessa burrice, inclusive, vai se afundando.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que voc&#234; tinha que fazer para aumentar a arrecada&#231;&#227;o? Voc&#234; tinha que fazer ao contr&#225;rio, tinha que ter feito ao longo dos quatro anos. Ali&#225;s no ano passado, a Receita Federal tinha uma porcentagem das multas aplicadas aos contribuintes que era destinada &#224; organiza&#231;&#227;o da Secretaria da Receita Federal. Aquela greve dos fiscais n&#227;o foi s&#243; por causa dos sal&#225;rios deles n&#227;o, &#233; porque a equipe econ&#244;mica tinha, inclusive, transferido para o Tesouro o dinheiro que era arrecadado com essa parte das multas que entrava especificamente para reorganizar a Secretaria da Receita Federal e que estava para instalar computadores, a parte de inform&#225;tica, se modernizar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; teve dados recentes que o Everardo Maciel [ex-Secret&#225;rio da Receita Federal] andou mostrando, que 90% das grandes empresas e dos grandes bancos n&#227;o estavam pagando o Imposto de Renda. S&#227;o brechas legais, que acabam ficando por a&#237; para serem usadas, que s&#227;o temas de semin&#225;rios chamados como de planejamento tribut&#225;rio, e, na verdade, &#233; semin&#225;rio para as empresas aprenderem como aproveitar a brecha da lei para n&#227;o pagar, para sonegar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O ex-ministro Roberto Campos, inclusive, numa longa defesa de coisas diretas, acabou falando da necessidade de combater a sonega&#231;&#227;o, na &#225;rea de Previd&#234;ncia, pois hoje 50% dos trabalhadores n&#227;o est&#227;o recolhendo para a previd&#234;ncia. Ou seja, a posi&#231;&#227;o dele coincidiu com a posi&#231;&#227;o defendida pelas oposi&#231;&#245;es, pelo Lula, pelos economistas do PDT, PT. A posi&#231;&#227;o deles &#233; de que, em vez de voc&#234; confiscar 5% do rendimento do funcion&#225;rio p&#250;blico, voc&#234; devia come&#231;ar a combater a sonega&#231;&#227;o &#8211; em vez de ficar falando tanto de reforma da Previd&#234;ncia e tirando direitos adquiridos do trabalhador. Eu at&#233; acho, que nesse momento, e isso &#233; s&#243; uma id&#233;ia a mais, isso d&#225; um esquema para as pessoas pagarem s&#243; 20% &#233; claro que elas tamb&#233;m teriam servi&#231;os e aposentadorias, no meio tempo, proporcionais a isso, mas essas pessoa come&#231;ariam a pagar e voc&#234; teria dinheiro no cofre da Previd&#234;ncia rapidamente. Ent&#227;o, poderia se buscar alguma criatividade nisso da&#237;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o Imposto de Renda &#233; absolutamente injusto tal como ele est&#225;, s&#243; com duas al&#237;quotas [15 e 27,5%]. Os ganhos de capital foram altamente beneficiados nesse &#250;ltimos dois anos, com v&#225;rias redu&#231;&#245;es de impostos e at&#233; com a isen&#231;&#227;o de impostos. Na importa&#231;&#227;o, o governo dando isen&#231;&#227;o de impostos para importados petrol&#237;feros. E a Receita sem conseguir se modernizar...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A pr&#243;pria reforma Patrimonial, na campanha do Collor, a Z&#233;lia j&#225; falava nisso. S&#227;o 3 milh&#245;es de im&#243;veis, principalmente terrenos, al&#233;m dos pr&#233;dios abandonados no centro [das grandes cidades]. Al&#233;m dos terrenos de Marinha, no litoral, ao longo de rios, as ilhas, s&#227;o todos do governo, as pessoas para construir casas ali tinham que pagar uma esp&#233;cie de aluguel para o governo, e quando vendessem pagar uma taxa sobre o valor do im&#243;vel para o governo. Melhor dizendo, o terreno &#233; da Uni&#227;o, &#233; nosso. N&#227;o &#233; do governo, &#233; da coletividade. Calcula-se em 4 milh&#245;es esse lotes. Inclusive a ilha do Pitanguy [cirurgi&#227;o pl&#225;stico de renome], aquelas coisas todas. Isso estava j&#225; no programa econ&#244;mico na campanha do Collor. A divis&#227;o do Patrim&#244;nio da Uni&#227;o, que devia cuidar disso, o ano atrasado ela ganhou um micro, eu vi no jornal, um micro! Deve ser uma se&#231;&#227;o de um homem s&#243;, que tinha um micro para come&#231;ar a cadastrar os 4 milh&#245;es de im&#243;veis e qual era a situa&#231;&#227;o deles, e a&#237; a gente v&#234; a conseq&#252;&#234;ncia disso. &#201; uma coisa que eu citei recentemente, a casa do governador de Sergipe, que o Presidente foi passar aquelas f&#233;rias que ele acabou interrompendo por causa da queda do Real, a mans&#227;o &#233; em terreno do governo, terreno marinho. E o governador de Sergipe, o Albano Franco, ex-presidente da Confedera&#231;&#227;o Nacional da Ind&#250;stria, com a casa que ele comprou, que est&#225; no terreno do governo, n&#227;o paga nada dessas taxas que devia pagar, e quando ele comprou n&#227;o recolheu as taxas que devia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o voc&#234; falar em ajuste fiscal, via corte... Cortar mais o qu&#234;? Voc&#234; escamotear que os juros &#233; que est&#227;o provocando esses grandes rombos, e os juros foram elevados por causa do D&#243;lar, tudo come&#231;a no buraco em d&#243;lar, e n&#227;o ao contr&#225;rio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; tem que defender, como os fiscais do Imposto de Renda defenderam o imposto na greve deles, eles queriam que fossem mantidas as verbas que eram da Receita, para aplicar na moderniza&#231;&#227;o da Receita, para combater a sonega&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Falar em ajuste fiscal nessa base de cortar mais, cortar mais o qu&#234;? J&#225; tem gente morrendo de novo, a&#237; em filas de hospital, j&#225; n&#227;o tem dinheiro para agricultura, n&#227;o tem dinheiro para a Receita Federal. Esse ajuste, em resumo, infelizmente, &#233; uma &#226;nsia de desgoverno de quatro anos que a gente tem, mas agora era hora de, j&#225; que a crise chegou, rediscutir tudo, e voc&#234; n&#227;o est&#225; vendo o governo discutir com nada. No confisco de 25% do servidor aposentado, eu acho que s&#243; uma sociedade que perdeu um m&#237;nimo do senso de dec&#234;ncia &#8211; e solidariedade &#8211;, aprova uma coisa dessas, manipulada. Foi muito escondido da opini&#227;o p&#250;blica que o funcion&#225;rio j&#225; recolhe sobre o integral, enquanto a gente paga sobre 10 sal&#225;rios m&#237;nimos. A Previd&#234;ncia do resto dos trabalhadores &#233; sobre 10 sal&#225;rios m&#237;nimos. Isso porque citam que &#233; maraj&#225; quem ganha acima de 30 mil reais, e, em vez de voc&#234; combater o maraj&#225; que ganha 30 mil, prejudica 800 mil fam&#237;lias de servidores da noite para o dia. Em resumo, acho que ajuste tamb&#233;m tem que ser rediscutido.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o, acho que estamos, de novo, com uma cobertura lament&#225;vel. Sem falar nas mat&#233;rias que deviam ser feitas... Foi fechado um banco agora, que quebrou porque especulou muito na BM&amp;F [Bolsa de Mercadorias e Futuros], e isso saiu no p&#233; de uma p&#225;gina de um &#250;nico jornal. Tinha que ter reportagem ilustrando quem realmente aplicou na BM&amp;F, quem ganhou, quem n&#227;o ganhou. Tem muita gente ganhando com essa crise, e voc&#234; n&#227;o tem nada disso.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Concluindo, tenta-se manter um otimismo falso de que se vai derrubar a importa&#231;&#227;o e aumentar a exporta&#231;&#227;o, e vai ficar tudo numa boa, quando voc&#234; n&#227;o tem apoio para exportar e tem apoio para importar. At&#233; alimento voc&#234; vai ter que continuar importando. Voc&#234; n&#227;o tem para exportar. O que tem para exportar para valer este ano &#233; soja, caf&#233;. Ent&#227;o, se n&#227;o h&#225; produ&#231;&#227;o suficiente, como &#233; que voc&#234; pode esperar aumento de exporta&#231;&#227;o? Mesmo que venham esses 10 bi [de d&#243;lares] do FMI e o pacote que os banqueiros prometeram para novembro, nada disso resolve, porque se o buraco em d&#243;lar, continuar... H&#225; tamb&#233;m uma coincid&#234;ncia: o novo presidente do Banco Central foi nomeado um dia depois do patr&#227;o dele, o Soros, dizer que os banqueiros deviam agora tamb&#233;m ajudar o Brasil, pode ser at&#233; que haja uma combina&#231;&#227;o de bastidores.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ent&#227;o as causas todas dessa crise est&#227;o a&#237;, continuam a&#237;. Por qu&#234;? Por que a sociedade n&#227;o est&#225; debatendo verdadeiramente. Est&#225; todo mundo preocupado com a taxa de juros, com a fuga de d&#243;lares, que n&#227;o &#233; explicado para a sociedade que n&#227;o &#233; exatamente a fuga de d&#243;lares, que &#233; cancelamento de empr&#233;stimo ou empresa especulando. Ent&#227;o acho que continua a ser lament&#225;vel, esse ano n&#227;o temos o debate que precisava e estamos perdendo de novo oportunidades. Vamos esquecer os 4 anos, tudo bem, mas tem que haver uma atitude diferente em rela&#231;&#227;o a essa crise.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>O pa&#237;s est&#225; quebrandopor Rita Casaro</title>
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		<description>Semanalmente, uma voz destoa do coro favor&#225;vel ao atual governo que se instalou na quase totalidade da imprensa brasileira. Ap&#243;s a posse de Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Biondi tornou-se uma esp&#233;cie de outsider e, nos seus artigos publicados &#224;s quintas-feiras, no caderno de economia da Folha de S.Paulo, dedica-se a desmentir vers&#245;es oficiais e manchetes otimistas. Com 42 anos de profiss&#227;o, ele passou por praticamente todos os grandes ve&#237;culos nacionais, sempre na &#225;rea econ&#244;mica, e leva um (...)

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		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Semanalmente, uma voz destoa do coro favor&#225;vel ao atual governo que se instalou na quase totalidade da imprensa brasileira. Ap&#243;s a posse de Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Biondi tornou-se uma esp&#233;cie de outsider e, nos seus artigos publicados &#224;s quintas-feiras, no caderno de economia da &lt;i&gt;Folha de S.Paulo&lt;/i&gt;, dedica-se a desmentir vers&#245;es oficiais e manchetes otimistas. Com 42 anos de profiss&#227;o, ele passou por praticamente todos os grandes ve&#237;culos nacionais, sempre na &#225;rea econ&#244;mica, e leva um Pr&#234;mio Esso de Jornalismo Econ&#244;mico na bagagem. Mais que isso, h&#225; quatro d&#233;cadas observa e analisa a pol&#237;tica econ&#244;mica brasileira. Biondi falou &#224; &lt;i&gt;Revista do Engenheiro&lt;/i&gt; sobre o trabalho dos colegas jornalistas e o buraco nacional. &#8220;O pa&#237;s est&#225; caminhando para a grande crise do Real e eu n&#227;o sei se o governo conseguir&#225; segur&#225;-la at&#233; as elei&#231;&#245;es.&#8221;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Revista do Engenheiro:&lt;/strong&gt; Nos seus artigos, req&#252;entemente voc&#234; se refere aos &#8220;(de) formadores de opini&#227;o&#8221;. Que avalia&#231;&#227;o voc&#234; faz da imprensa?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi:&lt;/strong&gt; Desde que o Fernando Henrique assumiu, a imprensa vem submetendo a sociedade a uma lavagem cerebral. Isso em duas linhas: no que diz respeito &#224; conjuntura, esconde tudo; quanto &#224; pol&#237;tica neoliberal, aderiu incondicionalmente. Por exemplo, as privatiza&#231;&#245;es s&#227;o feitas com aberra&#231;&#245;es terr&#237;veis, incluindo prazos, financiamentos do BNDES ao comprador e pre&#231;os rid&#237;culos. E a imprensa tem um grande papel na passividade da sociedade.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; A imprensa mente deliberadamente?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; A imprensa usa dois artif&#237;cios, que s&#227;o esconder a not&#237;cia ou, o que &#233; pior, simplesmente invert&#234;-la. Por exemplo, a queda na venda de televisores foi uma not&#237;cia devidamente escondida na &#250;ltima edi&#231;&#227;o p&#225;gina do caderno de economia de um jornal e dada ao contr&#225;rio no outro jornal, esse de economia. Apesar da Copa do Mundo, a venda de televisores caiu 25% em rela&#231;&#227;o ao ano passado. No jornal de economia saiu que a venda em maio cresceu 8% em rela&#231;&#227;o a abril, o que n&#227;o quer dizer nada. O fato importante &#233; que caiu em rela&#231;&#227;o ao ano passado, n&#227;o havendo rea&#231;&#227;o cois&#237;ssima nenhuma, assim como o Dia das M&#227;es deste ano e do ano passado foram terr&#237;veis para o com&#233;rcio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; O que mais, por exemplo, tem sa&#237;do assim na imprensa?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; A imprensa publicou que o n&#250;mero de cheques sem fundos para cada mil caiu de 10,5 para 9,78. Esqueceu-se de dizer que h&#225; tr&#234;s anos, eram 1,9 por mil. No final do ano passado, estava em 8 por mil, no in&#237;cio do ano chegou a 11 por mil. H&#225; a&#237; um aumento de 500% a 600%, levando em conta que a consulta ao telecheque cresceu consideravelmente, j&#225; evitando um n&#250;mero significativo de devolu&#231;&#245;es. Como &#233; que uma economia pode ir para frente com essa inadimpl&#234;ncia? Em fins de abril, o Estad&#227;o deu em manchete ind&#237;cios de retomada na economia. Para isso, publicou o crescimento, observado em mar&#231;o em rela&#231;&#227;o a fevereiro, na venda de eletroeletr&#244;nicos e de carros. Dias depois, saiu o resultado das vendas de abril, registrando queda em rela&#231;&#227;o a mar&#231;o e ao mesmo per&#237;odo em 1997. Essa not&#237;cia foi publicada em uma coluna, no p&#233; da p&#225;gina 8 do caderno de economia. Eu acho que est&#225; havendo um descolamento entre a imprensa e o que a sociedade est&#225; vivendo. Os jornais continuam cor-de-rosa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; Estamos vivendo momentos muito graves do que publicam os jornais?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; O Pa&#237;s est&#225; quebrado e a imprensa esconde. At&#233; outubro, o Brasil tem que pagar entre U$ 100 e 125 bilh&#245;es. Um banqueiro norte-americano disse que s&#227;o 100, mas os dados do Banco de Boston mostram que o Brasil deve a curto prazo US$ 175 bilh&#245;es, 70% disso at&#233; outubro. O Brasil quebrou no in&#237;cio de junho, e os jornais n&#227;o noticiaram. O governo estava querendo comprar os t&#237;tulos e os bancos queriam 27% de juros. Ele n&#227;o aceitou essa taxa, mas ter&#225; de pagar no vencimento pelos juros que vigorarem no dia-a-dia, que &#233; a volta do p&#243;s-fixado. O governo n&#227;o estava mais conseguindo vender os seus t&#237;tulos e n&#227;o tinha dinheiro para pagar os que estavam vencendo, com isso chegou ao encilhamento que &#233; a forma cl&#225;ssica do Pa&#237;s quebrar: Para se ter uma id&#233;ia da manipula&#231;&#227;o, o pr&#243;prio governo disse que em outubro o Banco Central chegou a vender US$ 20 bilh&#245;es no mercado futuro para segurar a cota&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; Qual o tamanho do rombo?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; O Brasil teve um d&#233;ficit no ano passado de US$ 8 bilh&#245;es; com turismo, gastamos cerca de US$ 4 bilh&#245;es por ano; com fretes s&#227;o mais de US$ 4 bilh&#245;es; a remessa de d&#243;lares das empresas estrangeiras em 1997 chegou a US$ 6 bilh&#245;es. Com isso, voc&#234; tem, por ano, um buraco de US$ 22 bilh&#245;es, al&#233;m dos US$ 13 a 15 bilh&#245;es de juros. Esses US$ 35 bilh&#245;es representam o d&#233;ficit em contas correntes, ou seja, o que gastamos por ano a mais do que temos a receber. Isso pode ser coberto com empr&#233;stimos e investimentos estrangeiros no Pa&#237;s, mas &#224; medida que a economia piora, n&#227;o existem mais empresas que interesse comprar e as bolsas n&#227;o atraem mais o investidor. A dificuldade do governo para conseguir empr&#233;stimos reflete-se no mercado futuro. No in&#237;cio de junho, a Bolsa despencou por falta de comprador e o mercado de d&#243;lares come&#231;ou a subir: O governo jogou dinheiro do BNDES e dos fundos de pens&#227;o no mercado para segurar o d&#243;lar; a bolsa e os juros. Sua outra sa&#237;da &#233; vender t&#237;tulos com corre&#231;&#227;o cambial mais juros de 14% a 16%. Assim, o investidor est&#225; garantido contra uma maxidesvaloriza&#231;&#227;o da moeda.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; Ent&#227;o o mercado j&#225; trabalha com a id&#233;ia de maxidesvaloriza&#231;&#227;o?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; Esse &#233; o rem&#233;dio cl&#225;ssico, que encareceria as importa&#231;&#245;es e aumentaria as exporta&#231;&#245;es. Se h&#225; uma m&#225;xi de 20%, por exemplo, R$ 100 s&#243; v&#227;o para comprar US$ 80. Nessa situa&#231;&#227;o, o investidor pega o dinheiro e vai embora assim que puder. A&#237; entram os mercados futuros. Eu tenho R$ 100 milh&#245;es e tenho medo de uma m&#225;xi, tento vender acima. Com a taxa de juros, acontece o mesmo, os contratos j&#225; come&#231;am a ser feitos com juros maiores. O fato &#233; que geraria um quadro inflacion&#225;rio, al&#233;m da desmoraliza&#231;&#227;o de tudo que se fez ao longo dos quatro anos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; Como chegamos a essa situa&#231;&#227;o?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; Esse volume de importa&#231;&#245;es destruiu o emprego no Brasil. Sempre se diz que a abertura foi feita para preparar a economia para a globaliza&#231;&#227;o e o governo n&#227;o tinha outra sa&#237;da. Para as pessoas entenderem que tudo isso &#233; mentira, basta ter um n&#250;mero em mente: a tarifa modal brasileira, que &#233; zero. Isso significa que essa &#233; a tarifa cobrada sobre a maioria dos produtos importados. No Jap&#227;o, &#233; 16% e na Cor&#233;ia, 23%. A opini&#227;o p&#250;blica brasileira foi convencida de que o empres&#225;rio nacional &#233; ineficiente, inescrupuloso, ganancioso, atrasado... O imposto de importa&#231;&#227;o &#233; fixado pelos governos exatamente para compensar vantagens que um concorrente tenha. O Brasil tem muitas terras para plantar: Ent&#227;o, o Jap&#227;o tarifa o arroz brasileiro para proteger sua agricultura. Uma coisa &#233; dizer: &#8220;N&#227;o, n&#243;s temos uma economia fechada, superprotegida, vamos mudar.&#8221; Para isso, criam-se os mecanismos que existem no mundo, agora, escancarar o mercado s&#243; vai dizimar a ind&#250;stria e a agricultura.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; Tamb&#233;m h&#225; aus&#234;ncia de pol&#237;tica industrial no Pa&#237;s.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; O grande programa de investimentos do governo est&#225; no setor de telecomunica&#231;&#245;es. Nele, foram aplicados US$ 8,5 bilh&#245;es no ano passado. As ind&#250;strias nacionais de pe&#231;as e componentes est&#227;o pedindo que seja fixado um m&#237;nimo de 20% de pe&#231;as nacionais nos equipamentos fabricados aqui. Inicialmente, o governo tinha oferecido 10% e acabou liberando totalmente. A Ericsson, por exemplo, usa at&#233; 97% de pe&#231;as importadas os seus equipamentos. Quando h&#225; um programa de investimentos em determinado setor, esse deveria gerar crescimento. S&#243; que nesse caso n&#227;o funciona, porque as empresas podem importar o quanto quiserem. Um artigo do Luciano Coutinho, de 7 de junho, mostra que mesmo nos Estados Unidos a participa&#231;&#227;o estrangeira &#233; de no m&#225;ximo 20% e, em mat&#233;ria de uso de pe&#231;a local, a exig&#234;ncia &#233; de 80%; na Su&#233;cia chega a mais de 90%; a pr&#243;pria Argentina tem limite de 30% para controle estrangeiro. Todo mundo se defende.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; E quanto &#224; agricultura?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; H&#225; uma pol&#237;tica de massacre da agricultura. Excetuando a soja, que estava com pre&#231;o internacional muito bom no ano passado, houve uma queda de plantio de todo o resto. Faltou cr&#233;dito e o governo n&#227;o comprou o que deveria. O Brasil era o maior exportador mundial de algod&#227;o. A nossa produ&#231;&#227;o caiu 75%, agora est&#225; subindo 30%, com o desemprego s&#243; no Cear&#225; de 200 mil fam&#237;lias. Voc&#234; est&#225; destruindo renda. Outro absurdo &#233; a pol&#237;tica de juros para a agricultura. Este ano, o produtor nacional n&#227;o conseguiu vender seu algod&#227;o, porque a ind&#250;stria est&#225; importando da Argentina para pagar em 400 dias a 8% ao ano. E, se a f&#225;brica daqui for comprar do produtor, ter&#225; de tomar um empr&#233;stimo para pagar juros de 4% ou 5% ao m&#234;s. Com o trigo, &#233; a mesma coisa. Chegamos a produzir 6 milh&#245;es de toneladas, no ano passado a produ&#231;&#227;o foi de 2,8 milh&#245;es de toneladas e, na &#233;poca do plantio deste ano, ainda t&#237;nhamos 1 milh&#227;o de toneladas encalhadas devido &#224; importa&#231;&#227;o da Argentina. Em 1995, foi um terror para a agricultura, o pre&#231;o m&#237;nimo foi reajustado s&#243; para o feij&#227;o e amendoim, ainda assim abaixo da infla&#231;&#227;o; para os demais produtos foram reduzidos inclusive os pre&#231;os nominais. Isso tudo sob o pretexto de for&#231;ar a moderniza&#231;&#227;o. A economia vai afundando porque houve queda na produ&#231;&#227;o, na renda, no consumo do emprego, um afetando o outro. At&#233; boi caiu, houve uma grande matan&#231;a de vacas. Tanto que hoje a arroba est&#225; a R$ 27,00, quando tradicionalmente custa R$ 18 a 20,00 nesta &#233;poca do ano, come&#231;ando a subir a partir de agosto, mas o pre&#231;o n&#227;o caiu porque houve matan&#231;a. O pre&#231;o do milho tamb&#233;m est&#225; disparando.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; O que faz um governo ter uma pol&#237;tica sistem&#225;tica de destrui&#231;&#227;o da economia interna?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; &#201; evidente que esse modelo foi implantado nos pa&#237;ses em desenvolvimento por press&#227;o dos EUA, que for&#231;aram a abertura nos outros pa&#237;ses gerando emprego internamente. Agora, o grau dessa abertura for&#231;ada variou de acordo com a postura do governo de cada pa&#237;s. N&#243;s &#233; que fomos muito al&#233;m daquilo que as press&#245;es externas pediam. Para entender essa equipe, a gente entra no terreno da psicologia, existe um deslumbramento do poder que desgra&#231;adamente n&#243;s vimos em todas as equipes que passaram pelo governo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RE:&lt;/strong&gt; E h&#225; chances de mudar esse quadro?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi:&lt;/strong&gt; H&#225; totais condi&#231;&#245;es de reverter a situa&#231;&#227;o do Pa&#237;s. O Brasil tinha um super&#225;vit comercial de US$ 13 a 15 bilh&#245;es, porque tem condi&#231;&#245;es de produzir tudo, possui terra, m&#227;o-de-obra, mercado interno, recursos naturais. Pol&#237;tica econ&#244;mica tem que levar gera&#231;&#227;o de emprego, renda e consumo. S&#243; um programa para o agricultor geraria emprego e renda no campo, dano condi&#231;&#245;es de mudar esse quadro em um ano. Com as importa&#231;&#245;es, basta seguir os outros pa&#237;ses, n&#227;o &#233; para fechar de novo, mas criar tarifas e fixar financiamentos. Na &#225;rea do d&#233;ficit fiscal, basta combater a sonega&#231;&#227;o, que est&#225; no pr&#243;prio receitu&#225;rio do FMI e do Banco Mundial.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>Eu nunca fui militantepor M&#225;rcio Venciguerra</title>
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		<dc:creator>Christiane Peres</dc:creator>



		<description>Nos tempos do milagre, o ministro Delfim Netto pedia aos patr&#245;es a cabe&#231;a de Aloysio Biondi. Quando os tempos estavam para mudar, em 84, foi a vez de economistas ligados &#224; professora Maria da Concei&#231;&#227;o Tavares pedirem a Ot&#225;vio Frias sua demiss&#227;o da fun&#231;&#227;o de editor de Economia da Folha, segundo Biondi relata. No fim do governo Figueiredo, era considerado antidemocr&#225;tico dizer que a situa&#231;&#227;o poderia melhorar, pois, alegava-se, isso beneficiaria a pol&#237;tica econ&#244;mica de Delfim, Biondi escreveu um artigo (...)

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&lt;a href="https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?rubrique6" rel="directory"&gt;Entrevistas&lt;/a&gt;


		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Nos tempos do milagre, o ministro Delfim Netto pedia aos patr&#245;es a cabe&#231;a de Aloysio Biondi. Quando os tempos estavam para mudar, em 84, foi a vez de economistas ligados &#224; professora Maria da Concei&#231;&#227;o Tavares pedirem a Ot&#225;vio Frias sua demiss&#227;o da fun&#231;&#227;o de editor de Economia da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, segundo Biondi relata.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No fim do governo Figueiredo, era considerado antidemocr&#225;tico dizer que a situa&#231;&#227;o poderia melhorar, pois, alegava-se, isso beneficiaria a pol&#237;tica econ&#244;mica de Delfim, Biondi escreveu um artigo dizendo que a economia americana estava se recuperando desde o ano anterior. O que seria bom para os produtos brasileiros.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nesse meio-tempo, os economistas do PMDB estavam dizendo que n&#227;o tinha mais jeito, que viria uma crise sem precedentes. Um eventual saldo positivo na balan&#231;a comercial seria devido &#224; queda nas importa&#231;&#245;es e n&#227;o ao aumento das exporta&#231;&#245;es.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Biondi reclama que seus antigos aliados de resist&#234;ncia &#224; ditadura, quando ocorreu a distens&#227;o, iam ao patr&#227;o pedir sua cabe&#231;a, falar que ele estava louco e tinha sido cooptado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;M&#225;rcio Venciguerra &#8211;&lt;/strong&gt; Na sua carreira registram-se brigas famosas com a Concei&#231;&#227;o Tavares. Voc&#234; tem uma certa birra contra os acad&#234;micos?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Contra os acad&#234;micos, n&#227;o. Na &#233;poca em que eu brigava com o Delfim Netto, eu estava de pleno acordo com Beluzzo, com Jo&#227;o Manuel. Meus pontos de vista coincidiam com os dos economistas do PMDB. Mas &#233; como pr&#243;pria Concei&#231;&#227;o disse num congresso de economistas: os brasileiros deviam deixar de ser academicamente pregui&#231;osos e se debru&#231;ar sobre a realidade. Baseiam-se em chav&#245;es, em posi&#231;&#245;es ideol&#243;gicas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na &#233;poca do &#8220;milagre econ&#244;mico&#8221;, os economistas diziam que o Brasil n&#227;o estava crescendo. Levaram muito tempo para descobrir que o problema n&#227;o era negar o crescimento econ&#244;mico, o problema era mostrar que havia uma s&#233;rie de distor&#231;&#245;es a longo prazo, como o crescimento da d&#237;vida externa, a concentra&#231;&#227;o de renda. Mas, a todo momento, eles negavam pura e simplesmente o pr&#243;prio crescimento da economia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Houve uma fase no Brasil, principalmente at&#233; 82, em que realmente era muito c&#244;modo voc&#234; ter alguns chav&#245;es de esquerda, pois dava mais ibope ser contra a pol&#237;tica econ&#244;mica do Delfim.&lt;/p&gt; &lt;h3 class=&quot;spip&quot;&gt;CABE&#199;A INDEPENDENTE&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Venciguerra &#8211;&lt;/strong&gt; Onde voc&#234; militou?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt; Eu nunca pertenci a nenhuma agremia&#231;&#227;o, sempre tive a cabe&#231;a independente. Esse &#233; um pre&#231;o que pago na minha vida. Em 79, quando saiu a pol&#237;tica salarial semestral, com aumentos diferenciados em cascata, eu fui a &#250;nica voz da imprensa a defender a medida. Foi numa p&#225;gina dupla, na &lt;i&gt;Isto&#201;&lt;/i&gt;. Essa redu&#231;&#227;o de desigualdades a gente sempre defender em tese. Mas a&#237; vem a desculpa: &#8220;Est&#227;o empobrecendo a classe m&#233;dia, &#233; uma redistribui&#231;&#227;o s&#243; entre os assalariados&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na &#233;poca o Lula escreveu uma sandice num artigo da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;: os aumentos semestrais eram para esvaziar o movimento sindical. Ora, o movimento sindical que se esvazia mediante o mero suborno da massa n&#227;o existe. O movimento sindical est&#225; a&#237; para conquistas sociais muito mais importantes. Os avan&#231;os devem ser considerados uma vit&#243;ria, e n&#227;o uma armadilha, o que &#233; uma interpreta&#231;&#227;o besta. Quer dizer que o neg&#243;cio das lideran&#231;as &#233; que o trabalhador passa fome, para ele ser revolucion&#225;rio? Seria &#243;timo se as lideran&#231;as tamb&#233;m passassem fome.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Posso cometer erros de avalia&#231;&#227;o, mas sempre procurei manter minha posi&#231;&#227;o de independ&#234;ncia absoluta diante de cada fato. E pago o pre&#231;o de ser chamado de comunista pela direita e de cooptado pela esquerda,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Venciguerra &#8211;&lt;/strong&gt; Voc&#234; sofreu patrulhamento ideol&#243;gico nas Reda&#231;&#245;es?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu escrevia no &lt;i&gt;Opini&#227;o&lt;/i&gt; contra a pol&#237;tica do Delfim. Ningu&#233;m fazia isso. Eu era bastante conhecido no meio universit&#225;rio de oposi&#231;&#227;o, uma pessoa que tinha imagem. A&#237; assume o governo Geisel. O ministro Severo Gomes anunciou em &lt;i&gt;O Globo&lt;/i&gt; que iria acabar com o lucro disfar&#231;ado das multinacionais, atrav&#233;s dos contratos de assist&#234;ncia t&#233;cnica entre a matriz e a filial. Por exemplo, a Volks brasileira assinava com a matriz um contrato de assist&#234;ncia t&#233;cnica pagando 4% de cada carro produzido. Isso &#233; um absurdo. Eu pago US$ 50 milh&#245;es e pronto: j&#225; comprei &lt;i&gt;know-how&lt;/i&gt; pela assist&#234;ncia. Naquela &#233;poca, s&#243; para usar a etiqueta Pierre Cardin, voc&#234; pagava 18% do seu faturamento. Para evitar esse tipo de contrato, o Severo prometia fortalecer o Inpi &#8211; Instituto Nacional de Propriedade Industrial.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Isso acontecia quando acab&#225;vamos de sair do regime M&#233;dici e o Geisel subiu depois de uma grande briga e quase foi derrubado assim que assumiu. Apesar disso, qual era o dogma da &#233;poca? O dogma era: &#8220;Todo militar &#233; igual ao outro. A ditadura continua. Todo ministro do regime militar &#233; t&#227;o ditatorial quanto o outro&#8221;. Eu escrevi um artigo no &lt;i&gt;Opini&#227;o&lt;/i&gt; falando que, a partir da entrevista do Severo, havia um sinal de mudan&#231;a no relacionamento com as multinacionais. Eu quase fui linchado quando voltei para a reda&#231;&#227;o. Pois o Severo, ministro do Geisel, veio a ser descoberto pela esquerda dois anos depois, em 76.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uns amigos meus, do grupo da Concei&#231;&#227;o, que lecionavam Economia no Rio e que sabiam que eu escrevia aquilo porque acreditava, me convidaram para ir conversar com as classes. Eu fui. Nunca mais fa&#231;o isso. Estava todo mundo com a cabe&#231;a t&#227;o feita, que n&#227;o adiantava tentar dialogar. Ocorre que, se eu escrever s&#243; o que o leitor quer, eu n&#227;o o informo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt;, o meu pessoal &#233; proibido de escrever sem fundamentar as afirma&#231;&#245;es. Quando houve o descongelamento, depois do Cruzado, o &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt; fez pesquisas de mercado para ver se n&#227;o estavam exagerando nos pre&#231;os. O leitor precisa saber que n&#243;s fomos investigar e que n&#227;o estamos dando uma informa&#231;&#227;o abstrata. A gente tem de manter a rela&#231;&#227;o com a realidade, para fazer frente ao bombardeio de informa&#231;&#227;o dirigida, que uma hora &#233; euf&#243;rica, outra hora &#233; catastr&#243;fica. Se n&#243;s sabemos que est&#225; sendo passada uma pretensa realidade, &#233; ela que contestamos. N&#227;o agimos assim por provoca&#231;&#227;o; n&#227;o nos interessa provocar ningu&#233;m.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; falsa a pol&#237;tica que se fez no Brasil nesses &#250;ltimos anos. N&#227;o se trata de malhar sempre um ministro, s&#243; porque voc&#234; n&#227;o afina com a linha principal dele. Se ele faz uma coisa certa, eu sei que h&#225; mil &lt;i&gt;lobbies&lt;/i&gt; para que aquilo n&#227;o d&#234; certo. Vou fortalecer sua posi&#231;&#227;o, porque cada avan&#231;o &#233; um avan&#231;o.&lt;/p&gt; &lt;h3 class=&quot;spip&quot;&gt;EM DEFESA DA OPINI&#195;O P&#218;BLICA&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Venciguerra &#8211;&lt;/strong&gt; Como foi a briga com o pessoal do PMDB? Come&#231;ou quando eles come&#231;aram a virar governo?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Em 76, o Beluzzo perguntou por que eu ficava t&#227;o incomodado com a infla&#231;&#227;o. &#8220;A infla&#231;&#227;o &#233; &#243;tima para as empresas capitalizarem&#8221;, dizia Beluzzo. No capitalismo, a empresa se apropria, investe e promove a economia. Na vis&#227;o desse pessoal, o neg&#243;cio &#233; tirar o pa&#237;s do subdesenvolvimento. Existe a&#237; uma dicotomia entre o discurso de recuperar sal&#225;rios e ter de capitalizar as empresas para elas investirem. Na verdade, de p&#250;blico eles falavam de melhorar a situa&#231;&#227;o dos assalariados, mas intramuros a conversa era capitalizar as empresas. Durante cinco anos eu cutuquei o pessoal do PMDB no &lt;i&gt;Relat&#243;rio Reservado&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em 82, eles come&#231;aram com aquela hist&#243;ria de que era preciso impedir que o parque industrial virasse sucata. Tudo em nome da ideologia do desenvolvimento. S&#243; que eles n&#227;o diziam que essa era a mesma prioridade do governo militar. A mesmo do bolo crescer para depois dividir. Quando falavam em modernizar a ind&#250;stria, estavam abandonando a proposta de criar empregos. Voltavam a pensar primeiro no lucro da empresa para poder investir na moderniza&#231;&#227;o. Por isso ningu&#233;m gosta de mim depois que assumiu o poder. O &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt; n&#227;o conseguiu uma &#250;nica entrevista exclusiva com o Funaro.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu n&#227;o quero &#233; que a opini&#227;o p&#250;blica seja manipulada. Para n&#227;o ser dominada nem pelas elites da esquerda, nem pelas elites do Delfim. A democracia se faz quando o n&#237;vel de informa&#231;&#227;o chega a esse ponto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o se falava que o governo Montoro tinha um monte de gente ganhando &#224; toa. Era proibido falar mal do PMDB, para evitar uma decep&#231;&#227;o, uma poss&#237;vel volta aos militares, um avan&#231;o da direita. Est&#225; provado que n&#227;o &#233; esse o caminho. Se tivessem informado direito a opini&#227;o p&#250;blica, o comportamento do PMDB, ao chegar ao poder, teria sido correspondente &#224; expectativa que se tinha. Voc&#234; acabava com a impunidade, via informa&#231;&#227;o. O cidad&#227;o teria condi&#231;&#245;es de pressionar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu n&#227;o estou fazendo discurso; apenas acho que a democracia s&#243; se fortalece com a opini&#227;o p&#250;blica informada. A press&#227;o caiu e a classe pol&#237;tica n&#227;o se sentiu obrigada a seguir os seus programas. Eu acho que essa crise, essa descren&#231;a, tem um efeito positivo, em termos hist&#243;ricos. Os &#243;rg&#227;os de comunica&#231;&#227;o est&#227;o tendo de refletir a insatisfa&#231;&#227;o da sociedade.&lt;/p&gt; &lt;h3 class=&quot;spip&quot;&gt;A VEZ DA CLASSE M&#201;DIA&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Venciguerra &#8211;&lt;/strong&gt; Depois da ditadura, voc&#234; saiu dos nanicos, que falavam para universit&#225;rios, e passou para o &lt;i&gt;Shopping News&lt;/i&gt;, falando da classe m&#233;dia. Que houve?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Houve uma op&#231;&#227;o de falar para a classe m&#233;dia, exatamente porque fui um jornalista bastante combativo durante toda a ditadura. Eu escrevia tamb&#233;m em jornais alternativos, que eram uma coisa importante, pois forneciam dados, informa&#231;&#245;es, perspectivas diferentes das que estavam nos meios de comunica&#231;&#227;o da &#233;poca. Voc&#234; n&#227;o precisa convencer aquele estudante de que as coisas estavam erradas, apenas fornecia informa&#231;&#245;es para fundamentar os pontos de vista dele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voc&#234; enriquecia o debate, mas n&#227;o abria cabe&#231;as. E com a cabe&#231;a muito esquerdizada desses &#250;ltimos anos, o jornalista n&#227;o fazia quest&#227;o de escrever para a classe m&#233;dia. Os jornais de classe m&#233;dia sempre fizeram o &lt;i&gt;marketing&lt;/i&gt; da pequena burguesia. Fazem uma onda quando vai subir a gasolina, mas n&#227;o tentam informar a classe m&#233;dia. O exemplo disso era a simoneta do Simonsen, em 76, que era uma taxa sobre o transporte individual para subsidiar o transporte da massa. Cabia nas propostas da oposi&#231;&#227;o de redistribuir a renda. Nessa habitual incoer&#234;ncia nossa, a gente caiu de pau e a simoneta n&#227;o emplacou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os jornais n&#227;o tentam informar corretamente a classe m&#233;dia, e sim alimentam os seus preconceitos. Dizem que ela &#233; sacrificada, que &#233; uma coitada, que o poder aquisitivo est&#225; caindo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em 76 eu estava caindo no &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt;. N&#227;o era ligado ao &lt;i&gt;Shopping&lt;/i&gt;, mas come&#231;aram a republicar umas mat&#233;rias minhas, e eu comecei a receber um incr&#237;vel retorno. E n&#227;o defendia os pontos de vista da classe m&#233;dia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Geisel tentava fazer pol&#237;tica de descentraliza&#231;&#227;o industrial. A Fiesp queria duplicar Cubat&#227;o; imagina o que seria hoje! E os jornais paulistas ca&#237;am de pau no p&#243;lo petroqu&#237;mico do Rio Grande do Sul. Inventaram que havia um cerco a S&#227;o Paulo. Realmente a classe m&#233;dia acha que os outros estados t&#234;m inveja de S&#227;o Paulo. Desde essa &#233;poca eu vi como &#233; importante escrever para a classe m&#233;dia. Antes do ressurgimento do movimento sindicalista, era ela que tinha poder pol&#237;tico, que apoiou o &#8220;milagre&#8221;. Eu sempre achei um equ&#237;voco do intelectual brasileiro nunca fazer quest&#227;o de escrever para um segmento importante da opini&#227;o p&#250;blica. A n&#227;o ser para ensin&#225;-la como ganhar mais com a poupan&#231;a.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu aceitei chefiar o &lt;i&gt;Shopping News&lt;/i&gt; com tudo isso na cabe&#231;a. Da mesma forma que passei a escrever para a &lt;i&gt;Nova&lt;/i&gt;, h&#225; cinco anos, ainda que fossem 60 linhas. Por exemplo: &#8220;Por que h&#225; fome no mundo?&#8221;. Em vez de ficar na bobageira de explos&#227;o demogr&#225;fica, eu explico que o governo americano paga para n&#227;o plantarem.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que se faz com a classe m&#233;dia &#233; apenas &#8220;defend&#234;-la&#8221; em seus pequenos interesses, e n&#227;o tentar faz&#234;-la enxergar a problem&#225;tica global.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>Biondi, vacina contra vaidadepor Alcides Ferreira</title>
		<link>https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?article74</link>
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		<dc:date>2007-03-08T16:51:19Z</dc:date>
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		<dc:creator>Christiane Peres</dc:creator>



		<description>Jornalismo Econ&#244;mico &#8211; Depoimentos &#233; uma narrativa, pelas vozes de 12 profissionais do ramo, das experi&#234;ncias que fizeram a hist&#243;ria dessa atividade jornal&#237;stica nas &#250;ltimas d&#233;cadas. Dessa forma, o trabalho pretende fornecer elementos de an&#225;lise e reflex&#227;o. Certamente, est&#225; aqui um material rico para, por exemplo, o estudante de jornalismo que pretenda se iniciar no segmento econ&#244;mico. Ou para o pesquisador que queira entender melhor o jornalismo feito no Brasil nessa &#225;rea. A seguir veja a entrevista (...)

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&lt;a href="https://www.aloysiobiondi.jor.br/spip.php?rubrique6" rel="directory"&gt;Entrevistas&lt;/a&gt;


		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Jornalismo Econ&#244;mico &#8211; Depoimentos&lt;/i&gt; &#233; uma narrativa, pelas vozes de 12 profissionais do ramo, das experi&#234;ncias que fizeram a hist&#243;ria dessa atividade jornal&#237;stica nas &#250;ltimas d&#233;cadas. Dessa forma, o trabalho pretende fornecer elementos de an&#225;lise e reflex&#227;o. Certamente, est&#225; aqui um material rico para, por exemplo, o estudante de jornalismo que pretenda se iniciar no segmento econ&#244;mico. Ou para o pesquisador que queira entender melhor o jornalismo feito no Brasil nessa &#225;rea. A seguir veja a entrevista com o jornalista Aloysio Biondi.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Alcides Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Como o senhor v&#234; a cobertura econ&#244;mica hoje?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Aloysio Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu considero essa a fase negra do jornalismo econ&#244;mico brasileiro, por raz&#245;es que eu atribuo &#224; desonestidade jornal&#237;stica. Hoje em dia, quando n&#227;o tenho tempo de ler todo o jornal, leio as quatro &#250;ltimas linhas de uma mat&#233;ria, porque certamente &#233; l&#225; que estar&#225; a not&#237;cia. A opini&#227;o p&#250;blica est&#225; sofrendo uma lavagem cerebral por parte da imprensa e do governo atual.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Hoje, a imprensa mente. Uma coisa &#233; seguir a linha editorial, outra coisa &#233; mentir. Ela noticia que as vendas aumentam no Dia das M&#227;es e no Dia dos Namorados com base em dados obtidos no Servi&#231;o de Prote&#231;&#227;o ao Consumidor. S&#243; que esses n&#250;meros, por sua vez, est&#227;o alterados, porque refletem o crescimento da inadimpl&#234;ncia. Chegou-se ao ponto de inverter a not&#237;cia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E tem mais, hoje o jornalista ainda pode recorrer &#224; desculpa do computador. Pode alegar que deixou de dar a not&#237;cia porque o espa&#231;o previsto no programa de computador n&#227;o foi suficiente. E para o leitor, que se acostuma com as manchetes otimistas, essa boa imagem &#233; a que fica guardada. Hoje, a edi&#231;&#227;o serve pra isso: inverter a not&#237;cia e fixar id&#233;ias erradas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E por que se chegou a esse ponto?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu acho que o jornalismo est&#225; assim porque todos os ve&#237;culos acham que o futuro &#233; a multim&#237;dia e est&#227;o nas licita&#231;&#245;es para a telefonia celular. Por conseq&#252;&#234;ncia, todos resolveram ficar quietos. At&#233; a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; deixa perdida dentro do caderno de economia uma mat&#233;ria que revela a disparidade das tarifas brasileiras em rela&#231;&#227;o &#224;s tarifas de importa&#231;&#227;o de outros pa&#237;ses, muito mais elevadas. Essa &#233; uma mat&#233;ria que precisa ser dada em primeira p&#225;gina. Se h&#225; algum interesse por parte do jornal em promover debate, ent&#227;o &#233; preciso dar a informa&#231;&#227;o em manchete, ou em subt&#237;tulo, mas tem que ser na primeira p&#225;gina. Deixar a informa&#231;&#227;o solta no meio do caderno de economia &#233; fingir uma independ&#234;ncia, fazer de conta que deu a not&#237;cia, enquanto, na realidade, o jornal torce para que ningu&#233;m leia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O &lt;i&gt;Estad&#227;o&lt;/i&gt; chegou a publicar a seguinte manchete: &#8220;Dobra o acesso do consumidor ao cr&#233;dito com o real.&#8221; A mat&#233;ria era baseada em uma pesquisa que mostrava que o grau de endividamento do consumidor havia dobrado. Ou seja, chega-se ao ponto de inverter a informa&#231;&#227;o. Deixaram de dizer que o grau de endividamento &#233; perigoso, uma vez que, daqui a algum tempo, a demanda pode deixar de existir. Ao contr&#225;rio, preferiu-se transformar isso em mais uma das maravilhas do real. Isso, pra mim, &#233; falta de compromisso com a opini&#227;o p&#250;blica. &#201; uma invers&#227;o total.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; O que mudou na cobertura de economia depois do Plano Real?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Tudo mudou depois do plano. Os dados est&#227;o agora na cara das pessoas e elas preferem acreditar nas vers&#245;es oficiais de tudo. N&#227;o se discute se o desemprego &#233; mesmo uma necessidade da moderniza&#231;&#227;o ou se &#233;, na realidade, uma conseq&#252;&#234;ncia da importa&#231;&#227;o desenfreada. Todo mundo aceita essa necessidade porque acha que l&#225; fora as coisas tamb&#233;m acontecem assim. Antes, as pessoas duvidavam de tudo. Todos eram contra tudo que viesse da ditadura. Hoje, o jornalista vai fazer uma entrevista e n&#227;o questiona nada. Essa &#233; a pior fase do jornalismo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu sempre discuti a necessidade de independ&#234;ncia do jornalista. &#201; verdade que antes havia tamb&#233;m os jornalistas que usavam o argumento da ditadura para se acomodar e n&#227;o polemizar nada. Na realidade, o espa&#231;o para brigar, embora restrito, ainda era maior do que os jornalistas costumavam dizer. Eu briguei a vida inteira. Hoje eu tenho pena de voc&#234;s.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Voc&#234; acha que hoje n&#227;o existe espa&#231;o para brigar?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Pelo que eu vejo, n&#227;o h&#225; nenhum espa&#231;o pra brigar hoje. A linha editorial est&#225; definida pelo otimismo, pelo neoliberalismo, n&#227;o se discute mais. Eu concordo que um jornalista n&#227;o pode brigar sozinho. Mas, se houvesse uma postura do jornalista um pouco diferente do que estamos vendo, as coisas n&#227;o estariam como est&#227;o hoje.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Os jornalistas deixaram de tomar partido?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Assumir uma posi&#231;&#227;o &#233; uma coisa, colocar-se diante da not&#237;cia e question&#225;-la &#233; outra. O objetivo do &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt;, por exemplo, n&#227;o &#233; o de ser contra, mas sim de deixar as coisas claras. Hoje, os jornais d&#227;o dez linhas para uma mat&#233;ria sobre uma reuni&#227;o do setor de autope&#231;as e uma p&#225;gina inteira para o pronunciamento oficial do senhor (ministro da Fazenda, Pedro) Malan. Os deputados fazem perguntas, encostam esses senhores na parede, mas n&#227;o sai uma linha no jornal. O que n&#243;s estamos vendo a&#237; &#233; anti&#233;tico, porque o outro lado n&#227;o tem espa&#231;o na imprensa. N&#227;o &#233; omitir nada nem tomar partido. &#201;, simplesmente, colocar os dois lados e hierarquizar a not&#237;cia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Qual a raz&#227;o para essa mudan&#231;a na linha editorial?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; O jornalista &#233; muito orgulhoso. Deveria haver uma vacina para o jornalista contra a vaidade. Dizem, por exemplo, que o bom editor &#233; aquele que tem o telefone da casa do ministro. Quando o ministro gostar de mim a esse ponto, alguma coisa vai estar errada. Isso porque ningu&#233;m que est&#225; no poder gosta do cr&#237;tico. Um exemplo &#233; a equipe econ&#244;mica que est&#225; no poder hoje. O discurso cr&#237;tico que antes eles mesmos gostavam de fazer contra seus antecessores se tornou, para eles, radical. Eles acham que t&#234;m de fazer alian&#231;a pra chegar ao poder e mudar as coisas. E eles trabalham assim, de concess&#227;o em concess&#227;o. Quer dizer que agora eu vou virar um cr&#225;pula, fazer um monte de coisas das quais eu discordo. O que &#233; que eu estou garantindo com isso? N&#227;o estou garantindo nada!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E no que a vaidade compromete o trabalho do jornalista?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; A vaidade &#233; perigosa para o jornalista. Sabem porque os jornalistas tinham tanto &#243;dio da Z&#233;lia (Cardoso de Melo, ex-ministra da Economia)? Porque, ao contr&#225;rio dos outros ministros, ela n&#227;o atendia os colunistas &#224;s 17h. O Delfim (Netto, ex-ministro e deputado estadual do PPB-SP), por exemplo, era um mago para manipular jornalista. Ele dizia que ia contar uma not&#237;cia s&#243; para mim, porque sabia que eu seria ponderado e que tinha conhecimento t&#233;cnico para n&#227;o sair escrevendo qualquer coisa. A&#237; est&#225; o perigo da vaidade do jornalista. O jornalista tem que ter consci&#234;ncia de que a fonte gosta dele apenas enquanto lhe conv&#233;m e de que a fonte tem outros interesses, que n&#227;o s&#227;o os dos leitores.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Houve alguma mudan&#231;a quanto &#224; necessidade de forma&#231;&#227;o t&#233;cnica para o jornalista nesses anos?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; O jornalista de economia sempre aprendeu com o dia-a-dia. Em mil jornalistas econ&#244;micos, eu n&#227;o conhe&#231;o cinco que tenham vindo da &#225;rea de economia. Acho que o correto para o jornalista de economia &#233; saber trabalhar com n&#250;meros. N&#227;o usar nem a vers&#227;o oficial, nem a vers&#227;o empresarial das coisas. O melhor &#233; mostrar os n&#250;meros. E se basear no que eles dizem.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Voc&#234; iniciou sua carreira na &lt;i&gt;Folha de S.Paulo&lt;/i&gt;, em 1956. A &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; j&#225; cobria economia nessa &#233;poca?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Sim, a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; tinha um caderno de economia que surgiu bem na &#233;poca de transi&#231;&#227;o entre o Brasil rural e o Brasil industrializado, na era desenvolvimentista do Juscelino (Kubitschek, presidente). Era um caderno que acompanhava esse processo e que, sob esse ponto de vista, podia at&#233; ser considerado moderno. O &lt;i&gt;Estad&#227;o&lt;/i&gt;, por exemplo, ainda era muito ran&#231;oso, e fazia quest&#227;o de trazer apenas mat&#233;rias internacionais na primeira p&#225;gina.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era um caderno bem estruturado na &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, com uma equipe de cinco rep&#243;rteres especializados. Havia um rep&#243;rter de ind&#250;stria, o Moura Marcondes dos Reis, um rep&#243;rter especializado em mercado internacional de borracha, a&#231;&#250;car e cacau, um especialista em caf&#233;, o Jos&#233; Guarani Rossini, que veio a ser editor do caderno, um rep&#243;rter do tipo ecol&#243;gico, que era chamado, na &#233;poca, rep&#243;rter de defesa da flora e da fauna, e ainda um rep&#243;rter que cobria pecu&#225;ria.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Havia tamb&#233;m na reda&#231;&#227;o o editor, eu, como subeditor, e tr&#234;s &lt;i&gt;copies&lt;/i&gt;. E ainda tinha mais um rep&#243;rter, que cobria mercado financeiro, mas como o mercado era muito insignificante na &#233;poca, ele fazia apenas mat&#233;rias sobre cr&#233;dito, taxa de juros e empr&#233;stimo, sem nem tocar em Bolsa de Valores. Mat&#233;rias sobre Bolsa s&#243; apareceram no notici&#225;rio em 1970. O nosso time era acostumado a escrever por metro. As mat&#233;rias eram publicadas em s&#233;ries de tr&#234;s ou quatro, porque o texto inteiro nunca cabia no espa&#231;o de um dia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Quem dirigia o jornal?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; O dono da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; era um advogado chamado Jos&#233; Nabantino Ramos. Ele viajou uma vez para os Estados Unidos e voltou para o Brasil com a id&#233;ia de criar um jornal captando dinheiro com a venda das a&#231;&#245;es do pr&#243;prio jornal em troca do direito de uma assinatura para o resto da vida. Provavelmente, ele aprendeu isso com os americanos, mas n&#227;o pensou que no Brasil a hist&#243;ria seria outra porque aqui havia infla&#231;&#227;o. Os custos do jornal foram aumentando e o dinheiro do assinante fundador da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; nunca entrava. A partir da&#237; devem ter surgido os problemas que o levaram a vender o jornal dez anos depois, para os Frias.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Nabantino era uma pessoa muito pra frente. Havia o diretor-geral de reda&#231;&#227;o, o M&#225;rio Mazzei Guimar&#227;es, um homem especializado em agricultura e economia, que tinha uma coluna em que assinava com o pseud&#244;nimo de Pedro Leite. Ele recorria a personagens da literatura, como o Macuna&#237;ma e o Pedro Artiero, que representavam determinadas figuras em seu texto. O Macuna&#237;ma, por exemplo, era o povo brasileiro. O Mazzei era uma figura muito interessante que, talvez, n&#227;o tenha permanecido &#224; frente de muita coisa porque tinha um problema s&#233;rio de audi&#231;&#227;o e n&#227;o assumia. E ele era t&#227;o concentrado no trabalho que, mesmo quando estava no mict&#243;rio, ficava em p&#233; fazendo suas necessidades com um texto na m&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E era realmente um caderno ou apenas um encarte dentro do jornal?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Era um caderno mesmo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Havia outros jornais que tinham um caderno de economia na &#233;poca?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; N&#227;o, a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; era a &#250;nica. O &lt;i&gt;Estad&#227;o&lt;/i&gt; tinha a sua sess&#227;o de economia, mas que ficava dentro do corpo do jornal e sem o chamado padr&#227;o moderno que inclu&#237;a a cobertura empresarial. O &lt;i&gt;Estad&#227;o&lt;/i&gt; continuava com a cobertura oficial, sempre informando as &#250;ltimas medidas tomadas pelo governo. &#201; interessante, porque os acontecimentos ap&#243;s a ditadura parecem um videoteipe do que j&#225; aconteceu. Nessa id&#233;ia de ouvir menos o governo e mais a sociedade a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; j&#225; era revolucion&#225;ria.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E esse caderno chegou a ser o mais influente da &#233;poca?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Ah, sim, a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; passou a ganhar disparado na frente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E o &lt;i&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt;, do Rio, n&#227;o era tamb&#233;m influente?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu chefiei o &lt;i&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt; do Rio em 1972 e o Jo&#227;o Calmon costumava falar muito de uma fase brilhante do jornal que tinha existido h&#225; vinte anos. Mas eu n&#227;o acompanhei. Eu acho que, como jornal de massa, ningu&#233;m cobriu melhor do que a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, indiscutivelmente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Como foi esse trabalho no &lt;i&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt;?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu entrei como diretor de reda&#231;&#227;o do &lt;i&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt;, do Rio. Talvez esse tenha sido o meu projeto de maior influ&#234;ncia, porque o modelo do milagre econ&#244;mico do Delfim estava estourando e existia uma briga dentro para a sucess&#227;o do (presidente Em&#237;lio Garrastazu) M&#233;dici. O &lt;i&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt; era um jornal pequeno, com uma tiragem de 4 a 5 mil exemplares e, sendo um jornal que circulou na Escola Superior de Guerra, nas alas chamadas nacionalistas, ele teve uma influ&#234;ncia no processo da sucess&#227;o. Talvez esse tenha sido o meu momento de maior influ&#234;ncia, porque, embora eu tenha sido sempre pol&#234;mico, esse foi o meu momento de influ&#234;ncia pol&#237;tica mais direta. O Jo&#227;o Calmon me chamou para dizer que tudo estava indo muito bem, que aquela era a melhor fase do jornal, mas que, para o Delfim, quem n&#227;o era amigo era inimigo e que, portanto, eu n&#227;o poderia continuar l&#225;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Em 1967, o senhor foi para a &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt;. Como era essa revista?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; A &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt; foi uma revista desenvolvimentista, da m&#237;stica de que o Brasil seria um pa&#237;s enorme, aut&#244;nomo e independente. Ela surgiu na &#233;poca do Juscelino, lan&#231;ada por uma editora norte-americana que tinha revistas dirigidas para a Am&#233;rica Latina. O seu &lt;i&gt;slogan&lt;/i&gt; era &quot;A revista do homem de neg&#243;cios&quot;, que &#233; a tradu&#231;&#227;o literal do &lt;i&gt;businessman&lt;/i&gt;. Ela chegou a ter 250 mil exemplares. Sempre havia uma reportagem de capa sobre uma grande empresa ou um grande investimento. Tinha uma editoria de pol&#237;tica nacional, uma de internacional, uma editoria de economia e neg&#243;cios tr&#234;s vezes maior do que o restante do espa&#231;o e de seis a oito p&#225;ginas de cultura e variedades. O diretor de reda&#231;&#227;o era o Washington Novaes, o secret&#225;rio de reda&#231;&#227;o, o Zuenir Ventura, e o chefe de arte era o Ziraldo. Eu fui para editar economia, numa fase muito interessante, em que a &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt; era uma revista amorfa, pr&#243;-ditadura, enquanto a &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt; se consolidava como uma revista moderna.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s est&#225;vamos na &#233;poca da revolu&#231;&#227;o de costumes, dos Beatles, da revolu&#231;&#227;o sexual e da p&#237;lula anticoncepcional. Eu me lembro de uma mat&#233;ria de capa sobre p&#237;lula que foi um esc&#226;ndalo na &#233;poca. L&#225;, eu fazia uma mat&#233;ria de capa a cada 15 dias, sempre muito violentas, contra a pol&#237;tica conservadora do Delfim. Est&#225;vamos no auge do milagre econ&#244;mico e todos pensavam que tudo era maravilhoso. Em setembro de 1967, a gente lan&#231;ou o &lt;i&gt;Quem &#233; Quem na Economia&lt;/i&gt;, que era esse tipo de conjunto de balan&#231;os de empresas hoje publicados pela &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt; e pela &lt;i&gt;Exame&lt;/i&gt;. Em 1968, a revista foi extinta, por press&#227;o da ditadura.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E a &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt; foi a primeira a publicar esses balan&#231;os?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Sim, ela foi a primeira, e a id&#233;ia foi um sucesso. Em seis meses, a venda da revista disparou. Mas n&#227;o disparou s&#243; por conta das mat&#233;rias de economia, mas porque a revista era muito inteligente. Ningu&#233;m falava de feminismo, p&#237;lula, Cinema Novo naquela &#233;poca.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Ainda em 1968, o senhor come&#231;ou a trabalhar na &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt;. Como era a revista nessa &#233;poca?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; A Veja estava numa fase muito dif&#237;cil quando eu entrei. Havia alcan&#231;ado tiragem de 600 mil exemplares no lan&#231;amento, mas j&#225; tinha ca&#237;do para apenas 40 mil. A &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt; era lida, em grande parte, por gente jovem. A segunda capa da revista foi com a mulher do (l&#237;der estudantil) Vladimir Palmeira, a Ana Maria Palmeira, com um grupo pichando muro e em baixo o t&#237;tulo &#8220;Baderneiros&#8221;. A revista era totalmente reacion&#225;ria na &#233;poca. Eu fui chamado para fazer uma coluna de servi&#231;o sobre mercado de capitais. Trabalhava como &lt;i&gt;freelancer&lt;/i&gt; porque, toda vez que algu&#233;m pensava em me entregar, o Roberto Civita fazia quest&#227;o de informar que eu era &#8220;&lt;i&gt;persona&lt;/i&gt; n&#227;o grata&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando me chamaram pra cuidar da editoria de economia, eu insisti em dizer pro Roberto Civita que isso n&#227;o daria certo. Eu avisei que n&#227;o estaria disposto a falar apenas o que o Delfim queria. E que tamb&#233;m n&#227;o iria fazer a editoria de economia pretendida pela &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt;. Essa era a &#233;poca do auge da crise cambial por causa da recess&#227;o, do desemprego e das importa&#231;&#245;es.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eles tinham mania de dizer que n&#227;o se podia escrever &#8220;econom&#234;s&#8221;. Eu respondia que, no dia em que n&#243;s escrev&#234;ssemos portugu&#234;s, a safadeza iria acabar. As pessoas pensavam, faziam de conta que escreviam, e depois n&#227;o falavam o que acontecia realmente. Depois houve um empr&#233;stimo do Banco Mundial para a constru&#231;&#227;o de um ramal ferrovi&#225;rio que serviria &#224; mineradora Hanna Mining e, nesse acordo, a Central do Brasil sairia com preju&#237;zo para que a Hanna tivesse lucro. Eu resolvi ent&#227;o escrever exatamente essa fase.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na segunda-feira, o Roberto Civita veio saber porque eu tinha feito aquilo e eu disse que tinha sido a id&#233;ia de falar portugu&#234;s. Se eu tivesse dito subsidiar, ningu&#233;m teria entendido. E o Roberto argumentou que as coisas n&#227;o precisavam ser bem assim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Em 71, o senhor trabalhou no Diret&#243;rio Econ&#244;mico, do &lt;i&gt;Correio da Manh&#227;&lt;/i&gt;. Como foi essa experi&#234;ncia?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu fui ser editor de mercado de capitais do &lt;i&gt;Correio da Manh&#227;&lt;/i&gt;, porque essa era a &#250;nica &#225;rea que o Delfim me deixava cobrir. O Diret&#243;rio Econ&#244;mico foi um sucesso, embora n&#243;s fossemos extremamente cautelosos porque, afinal, est&#225;vamos no auge da ditadura. Eram 12 p&#225;ginas, sendo seis destinadas &#224; cobertura de mercados de capitais. Eu fazia a cobertura de fundos e a an&#225;lise das a&#231;&#245;es de diversas empresas, o que me acarretava uma situa&#231;&#227;o muito chata porque, em todo lugar, as pessoas me paravam para saber sobre dicas de investimento.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Como era a sua rela&#231;&#227;o com o Delfim Netto?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Hoje a situa&#231;&#227;o ficou at&#233; grotesca, porque as cr&#237;ticas do Delfim batem com as minhas. N&#243;s estamos defendendo que &#233; preciso desvalorizar real para exportar, mas a diferen&#231;a est&#225; na argumenta&#231;&#227;o, porque ele n&#227;o cita a necessidade de se incentivar a exporta&#231;&#227;o. Por incr&#237;vel que pare&#231;a, ele era socialista. No in&#237;cio do governo Costa e Silva, em 1967, eu fui ser editor da &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt;, que ficava a cinco quadras do Minist&#233;rio da Fazenda, e o Delfim foi escolhido ministro. No come&#231;o, ele adorava as mat&#233;rias que eu fazia na &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt;. Seis meses depois, ele j&#225; estava fazendo a pol&#237;tica empresarial mais deslavada. Da&#237; veio a minha filosofia de vida:&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#8220;O calor dilata os poros, da&#237; as paix&#245;es.&#8221;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O poder muda as pessoas. O Delfim j&#225; foi extrema esquerda. Ele fazia teatro de periferia. Sua intelig&#234;ncia n&#227;o foi usada adequadamente em favor da sociedade. Eu tenho at&#233; um recorte de uma nota de jornal, de 1968, em que ele diz que o Brasil precisava ou de uma lideran&#231;a carism&#225;tica ou de uma ditadura. Para mim, ele teve um papel decisivo ao induzir os militares ao fechamento.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Em 74, o senhor foi para a &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt;. O senhor chegou a participar do seu processo de reestrutura&#231;&#227;o?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Sim. Eu entrei em 74 e, em 76, a &lt;i&gt;Gazeta&lt;/i&gt; optou por ser um jornal de superestrutura. Foi quando eu resolvi que n&#227;o deveria ficar. Afinal, eu tinha passado o per&#237;odo 1967 a 1974, o auge da ditadura, tentando discutir a economia brasileira. E, finalmente, quando est&#225;vamos chegando a uma abertura lenta e gradual e eu via a possibilidade de discutir poder e concentra&#231;&#227;o de renda, teria que me submeter a fazer mat&#233;rias sobre a Volkswagen?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antes a &lt;i&gt;Gazeta&lt;/i&gt; era um jornal de economia que preferia discutir um determinado assunto a simplesmente fazer uma transcri&#231;&#227;o de gravador. N&#243;s sempre introduz&#237;amos dados novos no debate. Porque o que interessa n&#227;o &#233; o que o presidente da Fiesp (Federa&#231;&#227;o das Ind&#250;strias do Estado de S&#227;o Paulo) acha do crescimento de um determinado setor, mas sim o que os n&#250;meros mostram sobre o que est&#225; acontecendo com o setor. Para ouvir choradeira a gente manda um &lt;i&gt;boy&lt;/i&gt; gravar a entrevista e depois s&#243; transcreve. A &lt;i&gt;Gazeta&lt;/i&gt;, com a reformula&#231;&#227;o, voltou a publicar declara&#231;&#245;es de quem acha que a situa&#231;&#227;o est&#225; ruim e de quem acha que a situa&#231;&#227;o est&#225; boa sem fazer uma avalia&#231;&#227;o pr&#243;pria com base em dados. Ent&#227;o, achei que devia sair, e fui para o &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Quanto tempo o senhor ficou nessa primeira fase de &lt;i&gt;DCI&lt;/i&gt;?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Fiquei dois anos, at&#233; 1978. Em 1979, fui ser editor de economia do &lt;i&gt;Jornal da Rep&#250;blica&lt;/i&gt;. Em 1981, voltei para a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, como rep&#243;rter especial, e, em 1983, j&#225; estava como editor, na &#233;poca do Projeto Folha.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; O Projeto Folha acarretou alguma mudan&#231;a &#224; cobertura econ&#244;mica do jornal?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; A &#225;rea de economia n&#227;o era muito integrada ao restante do jornal, at&#233; mesmo porque n&#227;o gostavam do assunto. Mas as mudan&#231;as do Projeto Folha n&#227;o se refletiram no caderno de economia, porque as preocupa&#231;&#245;es eram com o n&#237;vel de qualidade e erro zero. N&#227;o houve qualquer mudan&#231;a efetiva no conte&#250;do das mat&#233;rias de economia do jornal. Houve, no entanto, a preocupa&#231;&#227;o em come&#231;ar a ouvir sempre as duas vers&#245;es de um fato, e n&#227;o ficar s&#243; no lado oficial das coisas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E como foi a sua rela&#231;&#227;o com o Cl&#225;udio Abramo?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu n&#227;o convivi muito com o Cl&#225;udio. Na realidade, eu s&#243; convivi no jornal. Mas eu posso dizer que, no fim da vida, o Cl&#225;udio se aproximou muito de mim. Ele morreu muito amargo. Foi at&#233; ironia, porque n&#243;s nunca fomos muito pr&#243;ximos e ele foi se aproximar de mim bem no momento em que estava mais triste e solit&#225;rio, principalmente pela sua condi&#231;&#227;o salarial na &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;. Al&#233;m disso, n&#227;o houve lugar para o Cl&#225;udio no Projeto Folha. Ele ficou s&#243; como articulista. N&#227;o houve espa&#231;o para ele.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; O que o senhor acha da &lt;i&gt;Folha de S.Paulo&lt;/i&gt;?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Apesar das imperfei&#231;&#245;es, &#233; preciso reconhecer que a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; &#233; realmente revolucion&#225;ria na abordagem de alguns temas. &#201; um jornal que peca por excesso, &#224;s vezes, mas temos que considerar que todo revolucion&#225;rio peca por excesso. Eu acho que h&#225; uma linha editorial deliberada de enfrentar tabus. Eu sempre digo que a gente come&#231;a a envelhecer quando passa a falar mal do jovem. Mas o jovem conhece menos simplesmente porque tem menos tempo de informa&#231;&#227;o acumulada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; Quem faz a melhor cobertura econ&#244;mica hoje?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; De longe, a &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt;. Dos outros jornais, em termos de volume, o &lt;i&gt;Estad&#227;o&lt;/i&gt; tem mais informa&#231;&#227;o do que a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt;, mas &#233; preciso peneirar as verdades. Inegavelmente, a &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; &#233; muito mais correta, embora tamb&#233;m costume dar a not&#237;cia de queda de 10% nas compras de supermercado na &#250;ltima p&#225;gina, enquanto uma informa&#231;&#227;o dessas deveria estar na primeira.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; O senhor foi um dos primeiros jornalistas econ&#244;micos a montar bancos de dados e grupos de pesquisa. O que o levou a isso?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu nunca confiei nos dados oficiais. E sempre fui obcecado por n&#250;meros. Eu perdi emprego, mas nunca puderam desmentir uma mat&#233;ria minha. Ao inv&#233;s de escrever xingando o Delfim, eu preferia mostrar os n&#250;meros. Sempre acreditei que para se fazer mat&#233;ria de economia &#233; preciso utilizar e saber ler dados econ&#244;micos. &#201; por isso que eu fiz meu banco de dados. Os dados n&#227;o s&#227;o secretos. Os jornalistas &#233; que n&#227;o sabem busc&#225;-los. &#201; importante entender os n&#250;meros porque as coisas nunca acontecem exatamente como diz a equipe econ&#244;mica. A manchete da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; do &#250;ltimo domingo foi &#8220;Pa&#237;s criou 318 mil empregos este ano&#8221;. Essas informa&#231;&#245;es vinham do minist&#233;rio e eram relativas aos registros em carteira. S&#243; que, no mercado informal, sem registro em carteira, foram criados mais 2 milh&#245;es de empregos, al&#233;m de outros 9 milh&#245;es de pessoas que, tamb&#233;m segundo a pesquisa, entraram no mercado e n&#227;o conseguiram emprego. Isso quer dizer que foram criados 318 mil empregos e 11 milh&#245;es de desempregados novos. Mas isso n&#227;o estava no lide da mat&#233;ria. Pelo fato de n&#227;o ler n&#250;meros, os jornalistas fazem lides mentirosos. Por isso, em todo lugar que eu chegava, fazia quest&#227;o de montar um banco de dados. Quando interessa, eu gosto de fazer uma compara&#231;&#227;o com o m&#234;s anterior e para isso preciso dos dados armazenados. Uma avalia&#231;&#227;o pode ser positiva ou negativa de acordo com a base de c&#225;lculo sobre a qual os n&#250;meros s&#227;o considerados. Um crescimento das vendas, por exemplo, pode parecer maior se comparado a um per&#237;odo de paradeira, anterior &#224; implanta&#231;&#227;o de um novo plano econ&#244;mico.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; E como o senhor fazia quando n&#227;o tinha computador?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Eu arquivava esses dados em pastas, classificadas por assuntos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ferreira &#8211;&lt;/strong&gt; O senhor ganhou um Pr&#234;mio Esso. Qual foi o tema da mat&#233;ria?&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;Biondi &#8211;&lt;/strong&gt; Foi em 1967, quando eu estava na &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt;. Ganhei um Pr&#234;mio Esso de Informa&#231;&#227;o Econ&#244;mica que, por incr&#237;vel que pare&#231;a, se chamava &#8220;Brasil a caminho do deserto&#8221;. A mat&#233;ria tratava de uma pol&#237;tica que previa inser&#231;&#245;es no Imposto de Renda para quem reflorestasse e que, ao mesmo tempo, permitia a derrubada de mata nativa para a planta&#231;&#227;o de eucaliptos, a fim de que se formasse uma floresta homog&#234;nea para a ind&#250;stria de papel. Ent&#227;o, na verdade, era uma pol&#237;tica que n&#227;o visava a reflorestar, mas sim devastar. Era, portanto, uma mat&#233;ria de meio ambiente, que criticava a pol&#237;tica de incentivos ao desmatamento. Ganhei outro Pr&#234;mio Esso quando estava na &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt; com quatro mat&#233;rias sobre como usar incentivos fiscais aplicando o dinheiro no reflorestamento.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>A hegemonia dos EUA est&#225; abaladapor Luciana Bento</title>
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		<dc:creator>Christiane Peres</dc:creator>



		<description>Ele transita pelo mundo dos n&#250;meros de forma impressionante, citando de mem&#243;ria indicadores econ&#244;micos, valores da d&#237;vida, d&#233;ficits, Texas de juros. &#8220;Eu trabalho com isso h&#225; tanto tempo... Acostumei&#8221;, explica. O jornalista econ&#244;mico Aloysio Biondi acaba de trocar uma coluna semanal na Folha de S. Paulo por um espa&#231;o, todos os dias, no jornal Di&#225;rio Popular. Super assediado desde que publicou o livro O Brasil privatizado, Biondi recebeu a Debate Sindical - em meio a duas outras entrevistas - sempre (...)

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 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Ele transita pelo mundo dos n&#250;meros de forma impressionante, citando de mem&#243;ria indicadores econ&#244;micos, valores da d&#237;vida, d&#233;ficits, Texas de juros. &#8220;Eu trabalho com isso h&#225; tanto tempo... Acostumei&#8221;, explica. O jornalista econ&#244;mico Aloysio Biondi acaba de trocar uma coluna semanal na Folha de S. Paulo por um espa&#231;o, todos os dias, no jornal Di&#225;rio Popular. Super assediado desde que publicou o livro O Brasil privatizado, Biondi recebeu a Debate Sindical - em meio a duas outras entrevistas - sempre falando muito e tornando acess&#237;veis os sempre complicados conceitos econ&#244;micos. Como um jornalista deve ser, mesmo quando &#233; ele o entrevistado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Debate sindical -&lt;/strong&gt; O senhor tem defendido, em entrevistas e artigos, que os Estados Unidos est&#227;o em crise econ&#244;mica e s&#227;o a &#8220;bola da vez&#8221;. Gostaria que o senhor explicasse porqu&#234;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi -&lt;/strong&gt; &#201; muito simples: Os Estados Unidos t&#234;m um buraco enorme na balan&#231;a comercial. Eles sempre importavam mais do que exportavam e, com a crise asi&#225;tica, esse rombo se agravou. A balan&#231;a comercial deles sempre teve um d&#233;ficit de 10 a 12 bilh&#245;es de d&#243;lares. No ano passado esse d&#233;ficit chegou a 15 bilh&#245;es de d&#243;lares em um m&#234;s. O normal, nessas situa&#231;&#245;es, &#233; que a moeda caia. &#201; por isso que o d&#243;lar est&#225; caindo diante do iene (moeda japonesa) sem parar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os Estados Unidos teriam que cortar suas importa&#231;&#245;es e aumentar as exporta&#231;&#245;es, o que acontece via desvaloriza&#231;&#227;o da moeda. Bom isso, nunca aconteceu porque o d&#243;lar sempre foi aceito mundialmente como moeda forte. Por&#233;m os Estados Unidos s&#227;o os maiores caloteiros do mundo. Recebem mercadorias de todo o planeta e pagam com d&#243;lar, que nada mais &#233; do que um &#8220;papagaio&#8221;, que n&#227;o tem correspond&#234;ncia com a exporta&#231;&#227;o deles. Os Estados Unidos t&#234;m uma d&#237;vida externa calculada entre 6 a 8 trilh&#245;es de d&#243;lares.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; S&#243; para comparar, a d&#237;vida do Brasil &#233; de quanto?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; &#201; de 230 bilh&#245;es de d&#243;lares, o que corresponde a &#188; do nosso PIB, mais ou menos. A d&#237;vida deles corresponde a 100% do PIB. No caso do Brasil, o pa&#237;s come&#231;a a dever muito e os investidores n&#227;o querem mais comprar nossos pap&#233;is porque acham que vai ter calote. No caso dos Estados Unidos, seriam a mesma coisa se o d&#243;lar valesse realmente o que se pensa que vale.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; Se tivesse lastro...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Exatamente. J&#225; em abril e maio deste ano, a diferen&#231;a entre exporta&#231;&#245;es e importa&#231;&#245;es americanas passou dos 18 bilh&#245;es de d&#243;lares por m&#234;s. Em junho, foi para 21 bilh&#245;es de d&#243;lares. Mais 3 bilh&#245;es em um m&#234;s! No final do ano, eles v&#227;o acumular um buraco de 270 bilh&#245;es de d&#243;lares. E como eles v&#227;o pagar? Com a emiss&#227;o de d&#243;lares.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tem que avaliar esses detalhes, principalmente porque surgiu o euro (moeda comum europ&#233;ia). O d&#243;lar est&#225; supervalorizado, teria que cair 28% em rela&#231;&#227;o ao euro e 23% em rela&#231;&#227;o ao iene. Para as exporta&#231;&#245;es subirem, eles precisam desvalorizar o d&#243;lar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; Mas o governo americano n&#227;o pretende fazer isso...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Ele n&#227;o desvalorizaria, &#233; uma queda no mercado. Os Estados Unidos se beneficiaram com a abertura de mercado nos chamados pa&#237;ses emergentes. Tanto que eles tinham um saldo negativo de um milh&#227;o e meio de d&#243;lares com o Brasil e passaram a ter um saldo positivo de cinco milh&#245;es de d&#243;lares.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eles for&#231;aram esses governos a abrir a economia para compensar o d&#233;ficit que sempre tiveram com a Europa, a &#193;sia e o Jap&#227;o. &#201; apenas um ciclo: num primeiro momento, os EUA conseguiram vender mais. S&#243; que vem o troco: a Cor&#233;ia, por exemplo, seis meses depois, j&#225; estava com saldo positivo de vinte e tanto milh&#245;es de d&#243;lares na balan&#231;a comercial.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O racioc&#237;nio &#233;: os Estados Unidos tiveram uma fase de grande prosperidade porque for&#231;aram a abertura dos mercados em outros pa&#237;ses, e n&#227;o da Europa. S&#243; que esses pa&#237;ses passaram pelo refluxo da mar&#233; e agora v&#227;o segurar as importa&#231;&#245;es americanas e exportar os seus produtos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eles importam 10 milh&#245;es de barris de petr&#243;leo por dia. Nos &#250;ltimos dois anos, o pre&#231;o tinha ca&#237;do de 20 para 10 d&#243;lares o barril. Mas agora voltou para 20 d&#243;lares, porque os pa&#237;ses fornecedores cortaram a produ&#231;&#227;o para for&#231;ar a recupera&#231;&#227;o dos pre&#231;os, coisa que a imprensa brasileira n&#227;o noticiou. E sabe por qu&#234;? Porque o governo FHC queria entregar o petr&#243;leo naqueles leil&#245;es e dizia que o pre&#231;o estava baixo. Por&#233;m, o petr&#243;leo come&#231;ou a se recuperar e, em abril, j&#225; estava j&#225; estava em 16 d&#243;lares o barril. Esse &#233; o fato econ&#244;mico mais importante do ano, porque reequilibrou pa&#237;ses exportadores de petr&#243;leo como a Venezuela, o Equador e a R&#250;ssia, que, ali&#225;s, &#233; um bom exemplo. A R&#250;ssia, em abril, j&#225; estava com um saldo positivo de 24 bilh&#245;es de d&#243;lares na balan&#231;a comercial. &#201; c&#244;o a Venezuela, que de repente fica com um d&#233;ficit porque a arrecada&#231;&#227;o &#233; muito ligada ao petr&#243;leo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas esses pa&#237;ses s&#227;o perif&#233;ricos. Do ponto de vista da Europa e Estados Unidos, da hegemonia do d&#243;lar, o fato &#233; que o d&#233;ficit da balan&#231;a comercial americana j&#225; aumentou horrores antes do petr&#243;leo subir.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; O euro j&#225; est&#225; consolidado?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; A maioria dos pa&#237;ses europeus importantes tem governos de esquerda e o euro s&#243; foi poss&#237;vel por isso. Em fevereiro, a Gazeta Mercatil publicou indicadores econ&#244;micos mostrando que h&#225; mais emiss&#245;es de t&#237;tulos em euro do que em d&#243;lar. Todo o mundo tem que confiar na moeda europ&#233;ia porque esses pa&#237;ses t&#234;m saldo positivo. Eles n&#227;o est&#227;o comprando mercadoria e pagando com &#8220;papagaio&#8221;, eles t&#234;m dinheiro para pagar. Os Estados Unidos est&#227;o emitindo &#8220;papagaio&#8221; porque n&#227;o t&#234;m nada para lastrear a moeda. &#201; um fen&#244;meno do s&#233;culo, a hegemonia do d&#243;lar vai ser abalada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; voc&#234; disse que os EUA entrar&#227;o em crise, mas n&#227;o o restante do mundo. Como isso &#233; poss&#237;vel?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Vai ter uma turbul&#234;ncia de tr&#234;s e quatro meses no mercado mundial, claro. Mas n&#227;o vai ser um crash como o que ocorreu em 1929. O euro &#233; o come&#231;o do fim da hegemonia dos Estados Unidos. &#201; muito interessante: a R&#250;ssia est&#225; com saldo de 24 bilh&#245;es em sua balan&#231;a comercial, a Alemanha tem saldo de 70 milh&#245;es, o da Fran&#231;a &#233; de 29 milh&#245;es, o saldo da It&#225;lia &#233; de 24 milh&#245;es, o Jap&#227;o tem um saldo de 120 bilh&#245;es. Esses pa&#237;ses sofriam com a farsa do valor artificial no d&#243;lar, porque a economia deles n&#227;o est&#225; com problema nenhum.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; E que conseq&#252;&#234;ncias uma crise dos EUA teria para o Brasil?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Num primeiro momento, serviria de desculpa para o governo FHC, que j&#225; usou crises da &#193;sia e da R&#250;ssia como desculpa. A verdade &#233; que o Brasil continua quebrado porque o governo pagou 27 bilh&#245;es! Este ano a previs&#227;o &#233; de 120 bilh&#245;es de d&#243;lares de juros.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; Acumulados?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; N&#227;o, a cada ano! E olha que n&#227;o &#233; a presta&#231;&#227;o mais os juros, s&#227;o s&#243; juros. S&#227;o 100 bilh&#245;es por ano! Isso &#233; praticamente o or&#231;amento do governo, que &#233; de 160 bilh&#245;es. Estamos vivendo uma farsa e o FMI sabe perfeitamente que n&#227;o tem.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O FMI sabe que, mais cedo ou mais tarde, o governo brasileiro vai quebrar. Mas uma crise que abale o governo a ponto de ter uma grande debate nacional n&#227;o interessa a eles. Por sorte, estamos caminhando para ela. Eu digo sorte porque, enquanto n&#227;o houver esse debate, eles v&#227;o continuar privatizando o petr&#243;leo, vendendo o Banco do Brasil, a Caixa Econ&#244;mica, as energ&#233;ticas. Eles est&#227;o esticando a corda e, quando estiver tudo privatizado, v&#227;o deixar quebrar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; Por falar em privatiza&#231;&#245;es, o senhor publicou recentemente um livro que mostra que elas est&#227;o sendo um p&#233;ssimo neg&#243;cio para o Brasil, inclusive financeiramente. O que levou o senhor a escreve-lo?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Eu estava chefiando a DCI (Di&#225;rio do Com&#233;rcio e Ind&#250;stria, jornal paulista) na &#233;poca e acompanhei todo o processo de privatiza&#231;&#227;o. Era um assunto que me incomodava demais, pela falta de informa&#231;&#245;es, pela parcialidade da imprensa, por causa da passividade da opini&#227;o p&#250;blica...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; O livro teve uma receptividade muito grande, n&#227;o &#233; f&#225;cil vender 120 mil exemplares no Brasil, ainda mais com um assunto meio espinhoso...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; As pessoas ficam muito instigadas pelos dados mostrados no livro. Eu sou um profissional de comunica&#231;&#227;o. Meu interesse sempre foi fazer uma coisa de massa, que falasse ao &#8220;homem comum&#8221;. &#201; claro que, para chegar a essa tiragem, fomos ajudados por uma s&#233;rie de coisas. As co-edi&#231;&#245;es com as entidades sindicais, por exemplo. Eu n&#227;o ousaria calcular 100 mil exemplares vendidos, mas eu sempre acreditei que era um tema que despertaria grande interesse.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; O livro foi baseado principalmente em dados publicados pela imprensa, n&#227;o &#233; isso?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; E de relat&#243;rios do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) tamb&#233;m. Procurei n&#227;o usar dados da oposi&#231;&#227;o, mas os oficiais, declara&#231;&#245;es das empresas, dos seus diretores. Eu falo pouco do neoliberalismo no livro, mas &#233; deliberado. Porque se eu come&#231;asse a colocar que a privatiza&#231;&#227;o era uma coisa vinda de fora, daria margem para o governo dizer que n&#227;o tem culpa, que &#8220;foi uma coisa mundial&#8221;, inevit&#225;vel.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;DS -&lt;/strong&gt; Mas qual &#233; a sua opini&#227;o sobre a privatiza&#231;&#227;o de setores como a energia el&#233;trica, por exemplo?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;AB -&lt;/strong&gt; Acredito que alguns setores s&#227;o realmente estrat&#233;gicos... A Fran&#231;a privatizou a Telecom no ano passado, mas o governo continuou com 20% das a&#231;&#245;es e com o controle da empresa. S&#243; a Inglaterra vendeu o que tinha. E a tend&#234;ncia mundial n&#227;o &#233; essa. Veja o min&#233;rio, por exemplo. A Vale do Rio Doce sempre teme uma grande briga com a Austr&#225;lia e coma &#205;ndia para exporta&#231;&#227;o. E se voc&#234; n&#227;o tem o controle nacional &#233; a matriz da multinacional que determina o que exportar. At&#233; por defini&#231;&#227;o, ela n&#227;o vai agir de acordo com os interesses de um pa&#237;s espec&#237;fico. Ela age de acordo seus interesses globais.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se voc&#234; precisa do d&#243;lar para pagar os compromissos externos, o Estado precisa ter o controle dessas &#225;reas, que tem tend&#234;ncia ao cartel. Eles conseguiram nos convencer de uma grande mentira, que &#233; a de que os recursos naturais n&#227;o tinham mais import&#226;ncia, que agora o neg&#243;cio &#233; tecnologia. Esse foi o grande mito do in&#237;cio do escancaramento do mercado. Precisava de tecnologia, recuso natural n&#227;o valia mais nada. Todo mundo acha que petr&#243;leo &#233; combust&#237;vel para carro. Petr&#243;leo &#233; a fonte de energia dos Estados Unidos! Eles n&#227;o t&#234;m rios para produzir energia, ent&#227;o eles usam basicamente o petr&#243;leo. Sem o petr&#243;leo, a economia deles p&#225;ra no dia seguinte.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esse debate de setores estrat&#233;gicos n&#227;o &#233; ufanismo. S&#227;o fatores econ&#244;micos, concretos. Nossa energia &#233; gerada a partir da &#225;gua, de gra&#231;a. Temos petr&#243;leo, os campos mais fant&#225;sticos do mundo est&#227;o sendo descobertos aqui, temos todos os tipos de min&#233;rios, Caraj&#225;s, solo altamente agricult&#225;vel, clima diferenciado, energia solar, mercado interno. Esse governo &#233; uma coisa lament&#225;vel. Ele poderia ter rompido com o FMI dez vezes e lan&#231;ado um projeto nacional. O pa&#237;s &#233; vi&#225;vel.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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		<title>A morat&#243;ria &#233; inevit&#225;vel, por Rog&#233;rio Malaquias</title>
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		<dc:date>2007-03-08T16:19:36Z</dc:date>
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		<dc:creator>Christiane Peres</dc:creator>



		<description>Com experi&#234;ncia de 43 anos em jornalismo econ&#244;mico, Aloysio Biondi, em entrevista realizada no in&#237;cio de agosto de 1999, prev&#234; para breve um novo &#8220;despencamento&#8221; do Real. Para ele, que mant&#233;m uma coluna di&#225;ria (exceto s&#225;bado) no jornal paulistano Di&#225;rio Popular, o Pa&#237;s est&#225; quebrado. Conseq&#252;&#234;ncia do &#8220;escancaramento&#8221; das importa&#231;&#245;es, das privatiza&#231;&#245;es e da desnacionaliza&#231;&#227;o da economia. Biondi acredita que a morat&#243;ria &#233; inevit&#225;vel e alerta para a privatiza&#231;&#227;o-doa&#231;&#227;o da Petrobras. Ele declara que o governo (...)

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		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Com experi&#234;ncia de 43 anos em jornalismo econ&#244;mico, Aloysio Biondi, em entrevista realizada no in&#237;cio de agosto de 1999, prev&#234; para breve um novo &#8220;despencamento&#8221; do Real. Para ele, que mant&#233;m uma coluna di&#225;ria (exceto s&#225;bado) no jornal paulistano &lt;i&gt;Di&#225;rio Popular&lt;/i&gt;, o Pa&#237;s est&#225; quebrado. Conseq&#252;&#234;ncia do &#8220;escancaramento&#8221; das importa&#231;&#245;es, das privatiza&#231;&#245;es e da desnacionaliza&#231;&#227;o da economia. Biondi acredita que a morat&#243;ria &#233; inevit&#225;vel e alerta para a privatiza&#231;&#227;o-doa&#231;&#227;o da Petrobras. Ele declara que o governo Fernando Henrique Cardoso &#233; delirante n&#227;o brasileiro e v&#234; na grande imprensa uma c&#250;mplice desse governo, que levou o Brasil &#8220;&#224; grande crise, com desemprego, quebra de empresas, desnacionaliza&#231;&#227;o, d&#237;vidas interna e externa explosivas&#8221;. Ganhador por duas vezes do Pr&#234;mio Esso de Jornalismo Econ&#244;mico (1967, revista &lt;i&gt;Vis&#227;o&lt;/i&gt;, e 1970, revista &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt;), com passagens pelas reda&#231;&#245;es da &lt;i&gt;Folha de S.Paulo&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Gazeta Mercantil&lt;/i&gt;, e autor do livro &lt;i&gt;O Brasil Privatizado&lt;/i&gt;, o jornalista defende a id&#233;ia de que os Estados Unidos s&#227;o a &#8220;bola da vez&#8221;: o pa&#237;s est&#225; sendo pressionado a desvalorizar o d&#243;lar, assim como o Brasil desvalorizou o Real.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Rep&#243;rter Fecesp&lt;/strong&gt;: Como est&#225; a situa&#231;&#227;o econ&#244;mica do Brasil?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aloysio Biondi&lt;/strong&gt;: O Pa&#237;s est&#225; quebrado e o Real n&#227;o est&#225; salvo. O governo federal tem uma d&#237;vida interna de R$ 400 bilh&#245;es, em t&#237;tulos. Como se fossem promiss&#243;rias, que devem ser pagas em determinadas datas. No m&#234;s de junho, os juros pagos pela Uni&#227;o, com os Estados e Munic&#237;pios, chegaram ao valor de R$ 10 bilh&#245;es. O triplo dos R$ 3 bilh&#245;es de juros enfrentados em junho do ano passado. &#201; uma maluquice, j&#225; que a arrecada&#231;&#227;o do governo est&#225; na m&#233;dia de R$ 12 bilh&#245;es. Na verdade, o governo n&#227;o pagou. Emitiu novos t&#237;tulos, que vendeu no mercado financeiro: bancos, fundos de investimentos, grandes especuladores nacionais ou internacionais. J&#225; a d&#237;vida externa &#233; de US$ 230 bilh&#245;es e o Brasil precisa arranjar mais de US$ 30 bilh&#245;es somente para pagar os juros, sem pagar um centavo de d&#243;lar das presta&#231;&#245;es da d&#237;vida. A conseq&#252;&#234;ncia dessa situa&#231;&#227;o &#233; a necessidade de novos empr&#233;stimos, com crescimento insuport&#225;vel da d&#237;vida externa, em d&#243;lares. As declara&#231;&#245;es governamentais de que o d&#233;ficit est&#225; controlado s&#227;o mentirosas. E o banqueiro, o credor internacional, sabe que mais cedo ou mais tarde o Brasil vai chegar numa situa&#231;&#227;o insustent&#225;vel. Os credores olham esses n&#250;meros e concluem que o governo brasileiro vai acabar sendo for&#231;ado a pagar essa d&#237;vida com um prazo de muitos anos. A Sonia Racy, jornalista do O Estado de S. Paulo, que ningu&#233;m vai dizer que &#233; contra o governo, deu uma nota recentemente, dizendo que as pessoas j&#225; est&#227;o comprando d&#243;lar, pensando no futuro. Foi assim que aconteceu em janeiro de 1999, quando ocorreu a primeira desvaloriza&#231;&#227;o do Real.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: O governo est&#225; dizendo que o Brasil recuperou a credibilidade no exterior!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: Isso &#233; conversa para boi dormir. As exporta&#231;&#245;es n&#227;o est&#227;o crescendo e as importa&#231;&#245;es n&#227;o est&#227;o caindo como previsto, porque nossa economia foi desnacionalizada. O Fundo Monet&#225;rio Internacional (FMI) e os Estados Unidos liberaram empr&#233;stimos no ano passado para permitir a reelei&#231;&#227;o de Fernando Henrique. E agora continuam a fornecer empr&#233;stimos, prolongando a agonia do Pa&#237;s. Est&#227;o adiando a grande crise, com o despencamento do Real, que com certeza vir&#225;. Assim, mant&#233;m temporariamente o governo Fernando Henrique para que ele termine o vergonhoso processo de privatiza&#231;&#227;o, que interessa muito a eles, como &#233; o caso do petr&#243;leo. A estrat&#233;gia do FMI e dos Estados Unidos &#233; privatizar o petr&#243;leo, Banco do Brasil, Caixa Econ&#244;mica Federal, Banespa e depois deixar o Pa&#237;s quebrar. S&#243; que tenho a impress&#227;o de que a crise explode antes disso.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: E como chegamos a essa situa&#231;&#227;o?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: Quebramos internamente e externamente. Tudo come&#231;a com o escancaramento das importa&#231;&#245;es; a redu&#231;&#227;o, at&#233; a elimina&#231;&#227;o total do imposto sobre importa&#231;&#227;o no Pa&#237;s. Tudo no Brasil foi feito de maneira mentirosa. Com esse papo de que a prote&#231;&#227;o ao empres&#225;rio local era muito grande, o governo autorizou os produtos importados a entrarem aqui sem pagar um tost&#227;o de imposto. Isso n&#227;o existe no planeta. O Jap&#227;o, por exemplo, que &#233; uma pot&#234;ncia, taxa o produto importado em 16%. Na Cor&#233;ia, o imposto &#233; de 23%. Fomos enganados e aconteceu uma quebradeira geral de nossas empresas. O governo jogou a opini&#227;o p&#250;blica contra o empres&#225;rio nacional, dizendo que ele era protegido, e nunca citou os dados de fora. Outra coisa que n&#227;o foi dita &#233; que esses produtos todos vieram financiados at&#233; por um ano. Os argentinos, por exemplo, est&#227;o vendendo trigo para n&#243;s. O governo argentino d&#225; cr&#233;dito com um ano de prazo, e 8% de juros ao ano. O dono de um moinho de trigo nacional vai comprar trigo argentino, porque vai pagar s&#243; daqui a um ano, com juros de 8% ao ano. N&#227;o vai comprar trigo nacional com juros de 3, 4% ao m&#234;s. Os argentinos est&#227;o plantando algod&#227;o e arroz para vender para o nosso Pa&#237;s. O governo brasileiro destruiu a alma nacional. Jogou o consumidor contra o empres&#225;rio; o consumidor contra o agricultor; o contribuinte contra o funcion&#225;rio p&#250;blico. Ficou provando que todo mundo era ineficiente. Destruiu a identidade, a solidariedade nacional. Nosso governo n&#227;o tem a menor dedica&#231;&#227;o com os interesses nacionais. A sociedade como um todo tem de defender sua renda para ter consumo e emprego.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: Quais s&#227;o os outros fatores que nos levaram a tamanho endividamento?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: O Brasil tinha um dos maiores saldos positivos de balan&#231;a comercial do planeta: US$ 15 milh&#245;es. Em cinco anos, nossos governantes criaram um buraco de US$ 21 bilh&#245;es, ao importar mais do que exportar. A quest&#227;o da remessa de lucros e dividendos &#233; tamb&#233;m um aspecto importante. Elas passaram de algo entre US$ 600 milh&#245;es por ano para atingir a faixa dos US$ 7,8 bilh&#245;es em 1998. Ou seja, as privatiza&#231;&#245;es n&#227;o aumentaram as vendas de equipamentos e pe&#231;as. Os compradores das estatais preferem remeter seus lucros para o exterior e importar equipamentos de suas matrizes ou associadas. No caso do telefone celular, por exemplo, a Motorola usa apenas 5% de pe&#231;as nacionais. As outras empresas n&#227;o usam nada, s&#243; montam o aparelho.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: E o discurso oficial de que haver&#225; crescimento econ&#244;mico no segundo semestre de 1999?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: N&#227;o acontecer&#225;. O governo Fernando Henrique &#233; delirante, assim como existem v&#225;rios economistas e empres&#225;rios delirantes. O aumento do sal&#225;rio m&#237;nimo foi de R$ 6. A exporta&#231;&#227;o est&#225; nas m&#227;os das multinacionais. O funcionalismo p&#250;blico est&#225; sem reajuste h&#225; cinco anos e foi confiscado com aumento da contribui&#231;&#227;o previdenci&#225;ria. Existe desemprego de 20% nas regi&#245;es metropolitanas e queda da renda agr&#237;cola. Como &#233; poss&#237;vel esperar essa recupera&#231;&#227;o se o povo n&#227;o tem mais poder aquisitivo? Os pre&#231;os de exporta&#231;&#227;o melhoraram, por causa da desvaloriza&#231;&#227;o do Real. Mas as d&#237;vidas interna e externa tamb&#233;m aumentaram.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: Falta vontade pol&#237;tica do governo brasileiro para mudar os rumos da economia?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: O governo Fernando Henrique n&#227;o &#233; brasileiro, n&#227;o tem preocupa&#231;&#227;o com o Pa&#237;s. Bill Clinton, o presidente dos Estados Unidos, criou h&#225; dois anos o seguro agr&#237;cola contra mal tempo. Criou tamb&#233;m o seguro contra quedas violentas de pre&#231;os. &#201; o capitalismo protegendo seus produtos. Essa hist&#243;ria de que n&#227;o pode existir protecionismo s&#243; serve pra n&#243;s. Eles est&#227;o fazendo o correto, defendendo seus interesses. Cobram impostos para impedir importa&#231;&#245;es e subsidiam largamente a produ&#231;&#227;o e a exporta&#231;&#227;o. Enquanto isso, o governo brasileiro perdoa totalmente ou reduz para 2% ou 3% os impostos de importa&#231;&#227;o. Usou a mesma desculpa para destruir a ind&#250;stria nacional: &#8220;for&#231;ar o agricultor a produzir mais barato para beneficiar o consumidor&#8221;. Estamos comprando at&#233; coco de pa&#237;ses asi&#225;ticos, como Tail&#226;ndia e Indon&#233;sia, e cacau de pa&#237;ses africanos. Sem apoio, massacrados por importa&#231;&#245;es nos &#250;ltimos anos e com preju&#237;zos brutais, os agricultores ainda s&#227;o xingados por Fernando Henrique de &#8220;caloteiros&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: A morat&#243;ria &#233; inevit&#225;vel, ent&#227;o?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: Morat&#243;ria n&#227;o significa calote. &#201; sentar-se &#224; mesa e discutir novos prazos de pagamento. O governo vende a id&#233;ia &#8211; com o apoio dos meios de comunica&#231;&#227;o &#8211; de que ap&#243;s a decreta&#231;&#227;o da morat&#243;ria n&#227;o se volta ao mercado mundial durante anos. O que &#233; uma mentira. &#201; preciso chegar aos banqueiros e dizer claramente que n&#227;o existem condi&#231;&#245;es de pagar toda a d&#237;vida. E pagar em 20 anos, com feito na crise de 82. Isso significa uma ruptura autom&#225;tica com o FMI. Com a morat&#243;ria decretada, seria necess&#225;rio um controle sobre a sa&#237;da de d&#243;lares do Pa&#237;s e a aplica&#231;&#227;o de tarifas de importa&#231;&#245;es, como os outros pa&#237;ses fazem, e acabar com essa conversa fiada de terminar com o protecionismo. A d&#237;vida interna tamb&#233;m s&#243; poderia ser paga em dez anos. A sa&#237;da &#233; virar a mesa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: O desemprego tem jeito?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: &#201; perfeitamente poss&#237;vel uma pol&#237;tica de emprego para o Pa&#237;s. O problema &#233; que temos de &#8220;jogar fora&#8221; tudo que foi feito at&#233; agora. Todas as cadeias produtivas foram destru&#237;das. Estamos importando dormentes da China! A privatiza&#231;&#227;o da Eletrobr&#225;s, por exemplo, n&#227;o aumentou as vendas da &#225;rea de equipamentos. Os novos donos preferem remeter seus lucros para o exterior e importar pe&#231;as de suas matrizes ou associadas. Precisamos explorar o mercado interno. Para isso, necessitamos ter emprego, sal&#225;rio e renda.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: De que maneira o movimento sindical pode contribuir?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: Os meios de comunica&#231;&#227;o n&#227;o abriram espa&#231;o para as propostas do movimento sindical. Agora, com toda a fal&#234;ncia da pol&#237;tica econ&#244;mica governamental, &#233; preciso que o movimento sindical discuta com toda a sociedade a necessidade de rev&#234;-lo. O essencial &#233; mostrar que n&#227;o existe a separa&#231;&#227;o entre consumidor e trabalhador. Tamb&#233;m acho que cada sindicato deve exigir de sua central, seja ela qual for, o mesmo tratamento dado aos metal&#250;rgicos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: Empresas como Mappin, Lojas Brasileiras, G. Aronson e Arapu&#225; faliram. O que isso significa para o Pa&#237;s e como as fal&#234;ncias podem ser contidas?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: Nos &#250;ltimos 40 anos n&#227;o vi sobreviver sequer uma grande cadeia varejista. Ducal, Exposi&#231;&#227;o, Eletroradiobr&#225;s, Pirani, todas elas quebraram. Todo grupo, seja banc&#225;rio, industrial ou comercial, quando come&#231;a a crescer muito faz muitas besteiras. Essas empresas que acabei de citar compraram in&#250;meras redes menores. O motivo da queda &#233; o crescimento r&#225;pido com perda e dinamismo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: O senhor tem 43 anos de experi&#234;ncia como jornalista. J&#225; viu a imprensa t&#227;o histericamente pr&#243;-governo como est&#225; acontecendo agora?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: N&#227;o. Nem na Ditadura Militar (1964-85). Existiam alas da sociedade pedindo democratiza&#231;&#227;o e mesmo dentro do pr&#243;prio regime militar havia setores que achavam necess&#225;rio democratizar. Um dos truques da imprensa chapa-rosa &#233; dar manchetes com estat&#237;sticas provis&#243;rias, que nada significam e depois noticiar, escondidinho, as estat&#237;sticas definitivas, que mostram a realidade, negativa. A imprensa pr&#243;-governo continua tentando enganar a sociedade, com not&#237;cias mentirosamente apresentadas para esconder a crise.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: O senhor escreveu o livro O Brasil Privatizado, verdadeiro dossi&#234; sobre as privatiza&#231;&#245;es. Qual delas foi a mais escandalosa?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: No meu livro tem um cap&#237;tulo chamado Petr&#243;leo, um esc&#226;ndalo escandaloso. Desde o final do ano passado, o governo Fernando Henrique havia programado um leil&#227;o para &#8220;privatizar&#8221;, &#8220;vender&#8221; &#225;reas do territ&#243;rio brasileiro onde a Petrobras descobriu petr&#243;leo. Em outras palavras, realizar leil&#245;es para permitir que grupos empresariais privados e grandes multinacionais passassem a extrair petr&#243;leo e faturar bilh&#245;es e bilh&#245;es de reais que na verdade pertencem &#224; popula&#231;&#227;o brasileira. Poucos sabem, mas o Brasil, principalmente no fundo do mar, na plataforma submarina, tem as jazidas de petr&#243;leo mais fabulosas do planeta. S&#227;o campos de petr&#243;leo onde um po&#231;o, sozinho, produz nada menos de dez mil barris por dia. S&#243; para comparar, lembro que a maioria dos po&#231;os de petr&#243;leo dos Estados Unidos produz miser&#225;veis 100 barris por dia. Cem vezes menos. Agora, o governo anunciou a venda das &#225;reas de petr&#243;leo brasileiro por um pre&#231;o que nem &#233; pre&#231;o: s&#243; uns trocadinhos. De R$ 50 mil a R$ 150 mil por &#225;rea onde podem ser abertos centenas de po&#231;os. Melhor que uma mina de ouro. J&#225; no caso de &#8220;investimentos para enriquecer os compradores&#8221;, o caso mais escandaloso foi o do sistema Telebr&#225;s. Em 1996, o governo duplicou os investimentos nas teles, alcan&#231;ando R$ 7,5 bilh&#245;es, chegou aos R$ 8,5 bilh&#245;es em 1997 e investiu mais R$ 5 bilh&#245;es no primeiro semestre de 1998, totalizando R$ 21 bilh&#245;es de investimentos em dois anos e meio. S&#243; que em nosso Pa&#237;s a mentira campeia solta e as empresas &#8220;compradoras&#8221; dizem, e os meios de comunica&#231;&#227;o repetem, que os problemas surgidos depois da privatiza&#231;&#227;o se devem &#224; falta de investimentos no per&#237;odo em que elas eram estatais. Todo o processo de privatiza&#231;&#245;es &#233; absolutamente escandaloso. E absurdo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;RF&lt;/strong&gt;: O senhor tem afirmado que os Estados Unidos s&#227;o a &#8220;bola da vez&#8221;.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Biondi&lt;/strong&gt;: E s&#227;o mesmo. A Bolsa de Valores de Nova Iorque vai despencar e haver&#225; um grande tumulto nos mercados mundiais. Os Estados Unidos s&#227;o o maior &#8220;caloteiro&#8221; do planeta. H&#225; uns 40 anos este pa&#237;s faz importa&#231;&#245;es com um valor muito maior do que as exporta&#231;&#245;es. Isto &#233;, compram mercadorias de outros pa&#237;ses em um valor muito mais alto do que vendido para outros pa&#237;ses. Portanto, h&#225; um &#8220;rombo&#8221; na balan&#231;a comercial (valor das exporta&#231;&#245;es menos o valor das importa&#231;&#245;es). Para pagar a diferen&#231;a eles emitem d&#243;lares e os outros pa&#237;ses aceitam. Acontece que o &#8220;rombo&#8221; chegou a US$ 300 bilh&#245;es em 1999. Os outros pa&#237;ses n&#227;o est&#227;o querendo aceitar mais esse &#8220;calote&#8221;. Querem que os Estados Unidos desvalorizem o d&#243;lar. &#201; essa amea&#231;a que est&#225; derrubando a Bolsa de Nova Iorque. Uma crise econ&#244;mica para os americanos se aproxima.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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